Críticas

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A Última Ressaca do Ano (2016): traz o Engov! Comédia protocolar desperdiça potencial

Proposta em ser um filme surtado e maluco se prova mais divertida na teoria do que na prática, na medida em que a obra parece ter certo receio em se assumir 100% como tal

por Arthur Grieser
21/12/2016 - 10:32

O público cinéfilo em geral já está acostumado com essa época do ano, quando começam a pipocar as primeiras pré-listas da Academia para a cerimônia do Oscar, um rumor sobre um filme ali, um boato sobre um diretor acolá, enfim. É um período bastante movimentado no circuito comercial, mas há também um outro movimento que contribui para essa agitação: os filmes de natal, quase uma instituição em Hollywood.

Com algumas obras naturalmente (bem) melhores do que outras, o fato é que a indústria cinematográfica norte-americana investe pesado para lançar sua bateria de ‘filmes de final de ano’ nesse ponto da temporada, visando não só o óbvio marketing de oportunidade – afinal de contas, estamos, de fato, no fim do ano -, como também um público abrangente e que possa dar bom retorno financeiro aos estúdios/produtores. Geralmente, busca-se uma ou outra estrela hollywoodiana para abrilhantar o elenco e promover o produto, além de um roteiro que se sustente minimamente: pronto, tem-se um filme para ser colocado no mercado. Uma ideia de padrão bem ‘industrial’ mesmo, mas que dá resultado positivo na maioria das vezes – ou você acha que esse modelo se repetiria ano após ano se isso não fosse verdade?

É sob à luz desse contexto, portanto, que este “A Última Ressaca do Ano” deve ser analisado. Dirigido pela dupla Josh Gordon e Will Speck, o filme conta a história do gerente de uma empresa (Josh, interpretado por Jason Bateman) que, junto com o presidente (Clay, interpretado por T.J Miller), ao ver o setor onde trabalham ser ameaçado de fechar pela dona da organização (Carol, irmã de Clay, interpretada por Jennifer Aniston), resolvem dar uma festa de fim de ano para impressionar um empresário que pode salvar o negócio.

Escrito a oito mãos (Jon Lucas, Justin Malen, Scott Moore e Laura Solon), o roteiro surpreende inicialmente pela maneira prática e eficaz com que apresenta seus personagens. Como existem vários deles e o escritório é bem grande, é prudente que conheçamos pelo menos as principais figuras do local, bem como o modo geral como pensam e agem, para que possamos entender as piadas que virão na sequência e os envolverão. Neste sentido, o primeiro ato (relativamente longo, até) se concentra basicamente em introduzi-los ao espectador, por meio de uma sequência simples, mas elegante, em que o Josh de Jason Bateman vai adentrando a firma e falando com vários deles.

Dessa maneira, quando a loucura proposta pelo filme começa a se desenrolar em tela, as subtramas presentes no roteiro acontecem de maneira orgânica e fazem sentido tanto do ponto de vista cômico, como mesmo do ponto de vista narrativo. As piadas envolvendo personagens secundários funcionam e compõem bem o texto principal, que não possui força para se sustentar por conta própria. Talvez não seja exagero colocar, inclusive, que as melhores sacadas do filme são justamente quando os “protagonistas” não estão fazendo parte do momento.

De forma geral, isso acontece por um motivo não muito incomum de ser percebido em obras do gênero e envoltas no contexto já explicado. Com a pretensão de abraçar o mundo com as pernas, os realizadores não se decidem sobre que tipo de mensagem querem passar com seu produto: se algo positivo e que possa ser absorvido por gente das mais variadas idades, gêneros, credos, raças e orientações sexuais, ou se apenas por um nicho politicamente incorreto e que curta um tipo de humor mais ácido e crítico, algo inegavelmente mais restritivo. Perdido entre uma coisa e outra, este “A Última Ressaca do Ano” por vezes flerta com uma corrente mais família – no caso, a linha envolvendo os personagens principais, com romances mal explorados e um tom mais acomodado -, e em outras opta por uma pegada mais freak, surtada, que abrange a parte da festa maluca propriamente dita, bem ao estilo de comédias como “É o Fim” (2013), “Projeto X” (2012) ou mesmo da trilogia “Se Beber, Não Case” (2009, 2011, 2013).

Particularmente, a segunda ideia me agrada mais, mas isso evidentemente não é algo absoluto. Existem ótimos “filmes família” e que são plenamente divertidos e eficientes dentro de sua proposta. O problema é, além de não se assumir como nenhum nem outro, quando o que você tem a oferecer como conceito não se sustenta na prática por uma construção narrativa mal feita, seja na relação entre os personagens, ou nas motivações pessoais destes, que é o que ocorre no presente caso. O “casalzinho” de Josh e Tracey (Olívia Munn), por exemplo, é simplesmente jogado em tela e não possui apelo dramático nenhum, parecendo ter sido inserido à força no script. O mesmo acontece para o relacionamento entre Clay e Carol, combustível de toda a trama, que se vale de eventos do passado no melhor (pior) estilo “dad issues” para fazer o mínimo de sentido – algo que também é apenas citado de maneira solta no roteiro, em instante algum de fato mostrado.

Trocando em miúdos, o que se aproveita em meio a tudo isso são algumas cenas isoladas e uma proposta que se provou mais divertida na teoria do que na prática. Neste caso, gostar dos atores e atrizes envolvidos, como Aniston, Bateman e Miller, inegavelmente carismáticos, pode ajudar na hora de “comprar” uma ou outra situação presente na trama. Uma obra para fazer o ‘check’ na lista e esperar o próximo, nada muito além disso.

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  • Lucas Souto Durant

    Um dos piores filmes que já vi na vida.