Críticas   domingo, 18 de dezembro de 2016

Michelle e Obama (2016): o primeiro encontro de um casal bem conhecido

Direção, fotografia, trilha sonora e atuação são destaques do longa análogo à trilogia do “Antes”, de Richard Linklater. No entanto, o viés marqueteiro do terceiro ato despe o filme do conteúdo despretensioso que o torna agradável na maior parte da sua duração.

Hoje, ele é Presidente dos Estados Unidos da América – ainda que no fim do mandato. Por sua vez, ela é a Primeira-Dama estadunidense. Como a imensa maioria dos casais, eles tiveram um primeiro encontro. A ideia de “Michelle e Obama” é recriar o evento, argumento charmoso enquanto original, mas perigoso enquanto desprovido de surpresas substanciais.

O longa se passa em 1989, momento em que o (hoje) casal mantinha (à época) uma relação exclusivamente profissional. Barack Obama (Parker Sawyers) era calouro de Direito em Harvard, conhecendo a advogada iniciante Michelle Robinson (Tika Sumpter) em um escritório de Direito Empresarial, onde ela seria a sua superiora. Ele não demora a se apaixonar por ela, enquanto ela não aceita ter um encontro, preferindo manter o profissionalismo. Insistente, ele consegue a sua companhia tendo como pretexto um evento em um centro comunitário, oportunidade que encontra para conquistar Michelle.

Barack Obama foi engenhoso: ela não queria um encontro romântico, tendo isso em consideração, ele aproveita um evento real e sério para obter a aceitação do convite, quando, na verdade, o que planeja é interagir antes e enfim conquistar a moça. Durante praticamente toda a (curta) duração da fita, o que se tem é um longo diálogo entre Barack e Michelle, o que daria vazão a uma obra tediosa, caso não fosse bem conduzida. Não é o caso de “Southside with you” (nome original).

A associação de “Michelle e Obama” com a trilogia do “Antes”, de Richard Linklater, é automática. São várias as semelhanças estruturais, porém, Richard Tanne não tem – ao menos não ainda – a habilidade de Linklater como diretor. Não obstante, em se tratando de um desafio (o de dar dinamicidade a uma estrutura que tende ao estático), Tanne faz um ótimo trabalho, evitando que o longa se torne tedioso, prestando atenção no que é essencial para a direção: a mise-en-scène. Com efeito, um script inflado de diálogos (e com poucas movimentações preconcebidas) facilita a filmagem em longos takes e uso diminuto dos cortes. Executado o texto com naturalidade – como é o caso, pois as interpretações são satisfatórias em todas as cenas –, o resultado é uma atmosfera realista e magnética, mais ainda pelas variadas matérias sobre as quais conversam.

Corroboram com a contextualização realista um figurino acertado e, principalmente, cenários belíssimos. A sequência no museu parece insuperável, mas as cenas gravadas no parque tiveram um esmero sem igual – merece atenção o enquadramento espetacular na cena da ponte, em que grama e troncos de árvore fazem uma espécie de moldura ao redor do casal. Aliás, o roteiro é repleto de metalinguagem artística (quadros, televisão, cinema etc.), de maneira levemente rocambolesca. A trilha sonora foi muitíssimo bem escolhida, variando entre soul, hip hop, jazz, pop e R&B, em diferentes épocas da música: “A Love Like Yours (Don’t Come Knocking Everyday)”, de Martha Reeves & The Vandellas (década de 1960); “Moanin and Groanin”, de Bill Withers (década de 1970); “Hey Young World”, de Slick Rick (década de 1980); “Miss you much”, de Janet Jackson (década de 1990); e “Start”, de John Legend.

As escolhas do elenco também foram corretas. Parker Sawyers é convincente, não se saindo melhor porque é “engolido” por Tika Sumpter, formidável no papel de Michelle. A insistência em descaracterizar o tempo que passavam juntos como um encontro só não é cansativa graças à naturalidade de Sumpter. Da mesma forma, seu discurso de trabalhar o dobro (por ser mulher e negra) foge do piegas em razão da paixão da atriz pelo papel.

Tudo caminha para um filme excelente, até que o terceiro ato prejudica consideravelmente o produto. De um romance edulcorado, passa-se para uma ode à habilidade política de Barack Obama, em tom marqueteiro e inorgânico. O forte viés político muda a direção daquele que era para ser um longa despretensioso e acidentalmente fincado à realidade. Torna-se uma tradução, para a linguagem cinematográfica (bem-executada, reitera-se), das curiosidades irrelevantes estampadas em revistas sobre pessoas famosas.

Diogo Rodrigues Manassés
@diogo_rm

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Michelle e Obama (2016)

Southside with You - Richard Tanne

Barack Obama (Parker Sawyers), calouro da faculdade de Direito de Harvard, consegue um emprego temporário em um escritório de Chicago ficando sob as ordens da jovem advogada Michelle Robinson (Tika Sumpter). Depois de muito relutar, Michelle aceita o convite de Obama para um passeio que irá marcar sua vida e servir de inspiração para toda uma geração.

Roteiro: Richard Tanne

Elenco: Parker Sawyers, Tika Sumpter, Vanessa Bell Calloway, Phillip Edward Van Lear, Deanna Reed Foster, Jerod Haynes, Gabrielle Lott-Rogers, Taylar Fondren, Donn C. Harper, Preston Tate Jr., Fred Nance Jr., Donald Paul, Alex Zelenka, Jeremy Michael Pereira

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