Críticas

Clock domingo, 18 de dezembro, 2016 - às 13h39

Michelle e Obama (2016): o primeiro encontro de um casal bem conhecido

Direção, fotografia, trilha sonora e atuação são destaques do longa análogo à trilogia do “Antes”, de Richard Linklater. No entanto, o viés marqueteiro do terceiro ato despe o filme do conteúdo despretensioso que o torna agradável na maior parte da sua duração.

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por Diogo Rodrigues Manassés
18/12/2016 - 13:39

Hoje, ele é Presidente dos Estados Unidos da América – ainda que no fim do mandato. Por sua vez, ela é a Primeira-Dama estadunidense. Como a imensa maioria dos casais, eles tiveram um primeiro encontro. A ideia de “Michelle e Obama” é recriar o evento, argumento charmoso enquanto original, mas perigoso enquanto desprovido de surpresas substanciais.

O longa se passa em 1989, momento em que o (hoje) casal mantinha (à época) uma relação exclusivamente profissional. Barack Obama (Parker Sawyers) era calouro de Direito em Harvard, conhecendo a advogada iniciante Michelle Robinson (Tika Sumpter) em um escritório de Direito Empresarial, onde ela seria a sua superiora. Ele não demora a se apaixonar por ela, enquanto ela não aceita ter um encontro, preferindo manter o profissionalismo. Insistente, ele consegue a sua companhia tendo como pretexto um evento em um centro comunitário, oportunidade que encontra para conquistar Michelle.

Barack Obama foi engenhoso: ela não queria um encontro romântico, tendo isso em consideração, ele aproveita um evento real e sério para obter a aceitação do convite, quando, na verdade, o que planeja é interagir antes e enfim conquistar a moça. Durante praticamente toda a (curta) duração da fita, o que se tem é um longo diálogo entre Barack e Michelle, o que daria vazão a uma obra tediosa, caso não fosse bem conduzida. Não é o caso de “Southside with you” (nome original).

A associação de “Michelle e Obama” com a trilogia do “Antes”, de Richard Linklater, é automática. São várias as semelhanças estruturais, porém, Richard Tanne não tem – ao menos não ainda – a habilidade de Linklater como diretor. Não obstante, em se tratando de um desafio (o de dar dinamicidade a uma estrutura que tende ao estático), Tanne faz um ótimo trabalho, evitando que o longa se torne tedioso, prestando atenção no que é essencial para a direção: a mise-en-scène. Com efeito, um script inflado de diálogos (e com poucas movimentações preconcebidas) facilita a filmagem em longos takes e uso diminuto dos cortes. Executado o texto com naturalidade – como é o caso, pois as interpretações são satisfatórias em todas as cenas –, o resultado é uma atmosfera realista e magnética, mais ainda pelas variadas matérias sobre as quais conversam.

Corroboram com a contextualização realista um figurino acertado e, principalmente, cenários belíssimos. A sequência no museu parece insuperável, mas as cenas gravadas no parque tiveram um esmero sem igual – merece atenção o enquadramento espetacular na cena da ponte, em que grama e troncos de árvore fazem uma espécie de moldura ao redor do casal. Aliás, o roteiro é repleto de metalinguagem artística (quadros, televisão, cinema etc.), de maneira levemente rocambolesca. A trilha sonora foi muitíssimo bem escolhida, variando entre soul, hip hop, jazz, pop e R&B, em diferentes épocas da música: “A Love Like Yours (Don’t Come Knocking Everyday)”, de Martha Reeves & The Vandellas (década de 1960); “Moanin and Groanin”, de Bill Withers (década de 1970); “Hey Young World”, de Slick Rick (década de 1980); “Miss you much”, de Janet Jackson (década de 1990); e “Start”, de John Legend.

As escolhas do elenco também foram corretas. Parker Sawyers é convincente, não se saindo melhor porque é “engolido” por Tika Sumpter, formidável no papel de Michelle. A insistência em descaracterizar o tempo que passavam juntos como um encontro só não é cansativa graças à naturalidade de Sumpter. Da mesma forma, seu discurso de trabalhar o dobro (por ser mulher e negra) foge do piegas em razão da paixão da atriz pelo papel.

Tudo caminha para um filme excelente, até que o terceiro ato prejudica consideravelmente o produto. De um romance edulcorado, passa-se para uma ode à habilidade política de Barack Obama, em tom marqueteiro e inorgânico. O forte viés político muda a direção daquele que era para ser um longa despretensioso e acidentalmente fincado à realidade. Torna-se uma tradução, para a linguagem cinematográfica (bem-executada, reitera-se), das curiosidades irrelevantes estampadas em revistas sobre pessoas famosas.

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