Críticas

Clock domingo, 18 de dezembro, 2016 - às 13h08

Fallen (2016) [2]: o inferno na forma de romance juvenil

Um desastre tão grande que fará o público ter saudades dos bons tempos de "Crepúsculo".

por Thiago Siqueira
18/12/2016 - 13:08

Em uma das entrevistas durante a campanha publicitária desta adaptação para o cinema de “Fallen”, Lauren Kate, a autora do livro que deu origem à franquia, disse que, quando havia recebido o primeiro tratamento do roteiro do filme, havia chorado de tão ruim que estava. Por mera curiosidade mórbida, juro que queria ler tal versão, pois creio ser impossível alguém escrever conscientemente um roteiro pior que o da versão que chegou às telas, de autoria da dupla Nichole Millard & Kathryn Price (“Treinando o Papai”) e Michael Arlen Ross (“Turistas”).

O pior é que, a despeito dos créditos pouco elogiosos dos roteiristas, o filme possui um diretor gabaritado em seu comando. O veterano Scott Hicks outrora dirigiu obras premiadas como os dramas “Shine – Brilhante” e “Neve Sobre os Cedros”. Sabem lá os deuses do cinema como, cometeu esta atrocidade, certamente um dos piores filmes dos últimos anos – e digo isso sem hipérbole.

Na trama, a jovem Lucinda (Addison Timlin) chega à academia Sword & Cross, após ser enviada por ordem judicial para lá, por um incidente perigoso em seu passado recente. Acometida por visões de “sombras”, Lucinda logo se vê atraída por dois alunos locais, o bad boy Cam (Harrison Gilbertson) e o misterioso Daniel (Jeremy Irvine). Lucinda e sua amiga Penn descobrem uma ligação entre o passado dela, as estranhas lições de religião ministradas pela professora Sophia (Joely Richardson) e o fechado grupo de alunos do qual Daniel e Cam parecem fazer parte.

Para os não iniciados, o mistério todo tem a ver com o fato de que Daniel, Cam e vários alunos da Sword & Cross são… anjos caídos (daí o título). Do mesmo jeito que Stephanie Meyer bagunçou vampiros e lobisomens, Lauren Kate também fez uma salada com a mitologia cristã, acrescentando reencarnações, vidas passadas, maldições, uma terceira facção na guerra entre Deus e Lúcifer e algo sobre o poder do amor.

Aos desavisados, já digo que não li o livro (e nem pretendo), mas o fato é que o roteiro faz uma bagunça tão grande ao tentar expor seu plano de fundo que este se torna praticamente incompreensível. O ponto mais relevante é que Daniel foi amaldiçoado por Lúcifer a ver sua amada Lucinda morrer através das eras, com os dois se reencontrando onde quer que ele estivesse, ela morrendo e depois reencarnado, em um ciclo interminável de tragédia.

Obviamente, além disso tudo, há um triângulo amoroso, com o sempre revoltado Cam, outrora um servo de Lúcifer, também sendo apaixonado por Lucinda e disposto a brigar pelo coração dela. Podemos então resumir tudo em “garota tímida descobre-se envolvida em trama sobrenatural e é disputada por galãs superpoderosos dispostos a tudo para ganhar o seu coração”. Levante a mão quem lembrou de “Crepúsculo”, “Os Instrumentos Mortais”, “The Vampire Diaries”

O problema não é só insistir no mesmo tema, trocando apenas o tipo de encrenca sobrenatural. A questão é que o filme não funciona. Não só o pano de fundo é tratado de maneira superficial (portanto, sem investimento na mitologia estabelecida), mas o romance em si e os envolvidos são completamente desprovidos de carisma.

As relações entre Lucinda, Daniel e Cam são desenvolvidas a solavancos, com ações e reações vindas do nada. O mesmo se aplica à inexplicável inimizade entre a moça e a pseudo-revoltada Molly (Sianoa Smit-McPhee). Não ligamos para essa rivalidade por não entendermos de onde ela veio ou qual sua função na trama. Em compensação, o único relacionamento digno de nota mostrado no filme é a amizade entre Lucinda e Penn, justamente porque vemos essa relação crescer e amadurecer, algo que simplesmente não acontece com os outros personagens.

As atuações do elenco, como um todo, são desprovidas de emoção, com os personagens funcionando com base em estereótipos. Quem se sai melhor é Lola Kirke, que consegue fazer de sua Penn ao menos um estereotipo com um arco emocional – e como fã de Kirke por seu trabalho em “Misterss America” e “Mozart in the Jungle”, senti tristeza em vê-la num projeto tão ruim. Joely Richardson, vista recentemente em “Snowden” e que ganhou notoriedade em séries como “Nip/Tuck” e “The Tudors” surge completamente perdida e caricatural em cena como a religiosa Sra. Sophia.

Além de não saber lidar com seu elenco, Scott Hicks faz um trabalho quase amadorístico na direção. Não falo nem dos efeitos especiais ruins, da fotografia artificial, da pobreza de direção de arte ou da ridícula (e despropositada) luta entre Daniel e Cam, mas da forma tosca como ele conduz a trama, sem ritmo ou nexo aparente, sequer sabendo como encaixar flashbacks dentro da narrativa.

Pateticamente brega e sem sentido, este “Fallen” me fez sentir saudades de Bella, Edward e Jacob. Nas imortais palavras do Coronel Kurtz, “O horror… O horror…”.

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  • Thais Mendonça

    Thiago, normalmente fico chateada com você quando faz as críticas desse tipo de filme principalmente porque fica claro que não é seu estilo preferido. As palavras às vezes são tendenciosas. No entanto, gostei da forma como você abordou este Fallen sem se deixar aborrecer simplesmente por ser mais um romance “salada de frutas”. Para não ser injusta, parabéns pela análise, ainda sei que você não gosta desse tipo de história, mas soube se colocar muito bem.