Críticas

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Até o Fim (2016): o insustentável peso do poder

Mesmo com problemas de ritmo e estrutura, a caracterização dos personagens históricos e a atuação impecável de Bryan Cranston constroem um filme político bastante interessante.

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por Vinícius Volcof
22/11/2016 - 12:14

O comercial de divulgação mostrava um aparelho de TV antigo diante de um fundo branco, a câmera se aproximava lentamente, enquanto ouvíamos um locutor: “Senhoras e senhores, o Presidente dos EUA”. Na tela, aparecia nosso conhecido Bryan Cranston, de “Breaking Bad” (2008-2013), de um jeito como nunca antes havíamos visto. Ele olhava para a câmera, e num tom bruto e com o sotaque carregado, dizia: “Todo mundo quer o poder”.

Em “Até o Fim”, Bryan é Lyndon Baines Johnson, outrora 37º vice-presidente dos EUA que tivera que assumir a Presidência em circunstâncias críticas, após o assassinato de John F. Kennedy, em 23 de novembro de 1963. A história acompanha a primeira parte de seu governo, diante do luto nacional pela perda de um presidente popular e a crise pelas reinvindicações por direitos civis do movimento negro, liderado por Martin Luther King Jr.

O filme lançado pelo HBO em julho de 2016 e indicado a oito prêmios Emmys é uma adaptação da peça homônima escrita por Robert Schenkkan, em 2014. O autor já havia ganho um Pulitzer pela obra “The Oklahoma Cyrcle”, em 1992, e com “Até o Fim” ganhou um Tony de melhor peça, prêmio máximo do teatro norte-americano. Apesar do curto tempo em cartaz, a montagem dirigida por Bill Rauch foi um sucesso, premiando Cranston com o mesmo prêmio, na categoria de ator, e atraindo interesse por uma adaptação audiovisual.

Ainda em 2014, os direitos foram comprados pela HBO Films, com produção executiva de Steven Spielberg. A direção ficaria a cargo de Jay Roach, que nos últimos anos se especializara em filmes televisivos sobre política, como os bons “Recontagem” (2008) e “Virada de Jogo” (2012). A adaptação textual ficou com o próprio Schenkkan, que ampliou o arco dramático de sua história, inserindo personagens ausentes na peça, como a primeira-dama Lady Bird (Melissa Leo), e episódios que nos palcos tiveram que ser suprimidos, como a perseguição e morte dos ativistas civis.

Assim, a versão televisiva de “Até o Fim” ganhou em escala o que precisava para contar a história intricada da primeira metade dos anos 60 nos EUA, onde delimita seu limite temporal. A segunda metade da década, talvez ainda mais polêmica por envolver o assassinato do reverendo King e a Guerra do Vietnã, é deixada de lado. Mas mesmo em meio a um turbilhão de acontecimentos, a trama não deixa de depender da força de seu protagonista, mais ainda da força do ator que o interpreta. Embora disponha de excelentes nomes entre os coadjuvantes, como Frank Langella e Bradley Whitford (irreconhecível sob a maquiagem de Hubert Humphrey), é Cranston quem rouba a cena do começo ao fim.

Isso se dá especialmente pela força do próprio LBJ: originário do Meio Oeste americano, esse presidente acidental era uma mistura meio brega de valentão e líder do mundo livre, em tempos de Guerra Fria. Muitas vezes representado como um grosseirão, fazendo reuniões de gabinete com a porta aberta no banheiro, ele parecia assumir até o último fio de cabelo o ideal americano de líder impenetrável, ainda que nos momentos mais dramáticos de sua gestão seja retratado como um velhote melindroso e mimado: “Você está se comportando como uma criança” – o diz seu mentor Richard Russell, senador americano contrário aos direitos civis.

Seu contraponto narrativo é o reverendo Martin Luther King Jr., aqui em fraca interpretação de Anthony Mackie (o Falcão Negro, de “Vingadores”). A lei pelos direitos civis dos negros nos EUA, que incluía o direito ao voto, se arrastava há décadas, com mais de cem tentativa boicotadas pela bancada conservadora do Congresso, até ser aprovada em 1964. Num dos momentos mais críticos do país, logo depois de um assassinato presidencial, a jornada de Lyndon Johnson é a de perceber que, mais do que uma ferramenta política para arregimentar os votos negros, tal medida era um direito que o país não podia mais negar a tamanho contingente de sua população.

Mas justamente aí está um dos maiores problemas da obra: como já visto outras vezes, a história de luta das minorias pela conquista de seus direitos é cooptada pelos grupos hegemônicos e reconstruída a partir de seu ponto de vista. É a “história escrita pelos vencedores” – um vício da historiografia em escrever as narrativas pela voz dos grupos já privilegiados. Explicando melhor, vamos a alguns paralelos: mostrar a aprovação dos Direitos Civis nos EUA como uma conquista de LBJ é como dizer que os direitos trabalhistas no Brasil foram “dados” pelo ex-presidente Getúlio Vargas, ou que nossa democracia foi uma concessão do regime ditatorial, a partir de João Figueiredo. Deste modo, apaga-se, a história de lutas, muitas vezes sangrentas, de homens e mulheres pela conquista de seus direitos, personalizando a conquista história numa grande epifania de uma só pessoa (normalmente homem e branco, como Johnson).

O filme de Roach tem também problemas de ritmos e estrutura, num indo e vindo exagerado entre as sessões do Congresso e reuniões destemperadas do presidente com seu staff, meticulosamente escritas para seu ator principal brilhar. Mas Cranston não precisava disso, e mesmo se interpretasse um LBJ em coma seria a atração principal. Sua atuação impecável, somada a uma caracterização ainda melhor do que a que havia sido feita para os palcos, faz do ator o Sol para onde voltam-se nossas atenções em cada cena. Com suas obras recentes – todas com críticas aqui no Cinema com Rapadura -, o ator mostra que sobrevive para além de seu personagem icônico na TV, como sua capacidade camaleônica e técnica impecável.

Outro bom personagem, que rende boas cenas, é o de J. Edgar Hoover, chefão do FBI, interpretado com a devida ambiguidade por Stephen Root. Talvez o melhor momento do script seja quando o braço direito de LBJ é preso por fazer sexo com outro homem num banheiro público. Recebendo a notícia do próprio Hoover, que também tinha uma intimidade bem confusa (tal qual apresentado no bom filme de Clint Eastwood, estrelado por Leo DiCaprio), o presidente lhe pergunta como poderia saber quando um homem era gay, pois segundo ele, Hoover “saberia explicar isso”.

Em 1965, Lyndon B. Johnson foi eleito Presidente dos EUA sob o lema “all the way” – “até o fim”, título dessa obra. O presidente não tentaria a reeleição, diante da crise global do fim dos anos 60 e de sua saúde frágil (ele tinha um problema coronário). Em uma das últimas cenas do filme, comemorando a vitória eleitoral, Lyndon partilha conosco seus pensamentos sobre fraqueza e poder, mostrando o quão impossível para um único homem é o peso de carregar todo um país.

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