Críticas

Clock segunda-feira, 21 de novembro, 2016 - às 21h44

Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016): J.K. Rowling acerta em cheio

Como diria o bom Doutor, "Good old J.K.!". Colocando em paz os corações dos fãs da franquia "Harry Potter", o mais novo derivado da saga é uma expansão bem-vinda do universo do jovem bruxo, levando a magia a lugares e épocas inexplorados não só pelos oito filmes da série, mas até mesmo pelos livros originais, sempre com a sensibilidade peculiar de JK Rowling.

por Thiago Siqueira
21/11/2016 - 21:44

Primeiro de uma série prevista de cinco filmes, este “Animais Fantásticos e Onde Habitam” é uma criatura peculiar dentro do universo mágico criado por J.K. Rowling. Apesar de Rowling ter lançado um livro homônimo ao longa, na verdade trata-se de uma história original, escrita pela autora diretamente para o cinema, em seu primeiro trabalho como roteirista, em mais uma colaboração com o diretor David Yates, que dirigiu últimos quatro filmes da saga “Harry Potter”.

Na nova trama, o bruxo inglês Newt Scamander (Eddie Redmayne) chega à Nova York de 1926 com uma maleta (maior por dentro) de criaturas mágicas, as quais ele cuida e estuda para seu livro. Scamander encontra uma comunidade bruxa bem diferente daquela a que está acostumada, segregacionista e com uma relação de quase xenofobia mútua em relação ao não-majs (humanos normais). Acidentalmente, Newt troca sua maleta com a do padeiro não-maj Jacob Kowalski (Dan Folger).

Quando algumas das criaturas escapam, Newt e Jacob acabam tendo de contar com a ajuda da auror Tina (Katherine Waterston) e de sua bela e telepata irmã Queenie (Alison Sudol) para recuperar os animais, que acabam como suspeitos em uma série de incidentes violentos ocorrendo pela cidade que estão sendo investigados pelo auror Graves (Colin Farrell), o implacável superior de Tina. Paralelamente, conhecemos o movimento dos Segundos Salemistas, liderados pela instável Mary Lou Barebone (Samantha Morton), sempre acompanhada de seu filho adotivo Creedence (Ezra Miller), com o grupo desejando uma segunda Inquisição nos EUA.

Ao contrário dos sete anos escolares de Potter, que eram (relativamente) contemporâneos, temos aqui não apenas um longa de época, mas que se passa longe de terras britânicas. Ambientar a trama nos EUA do final dos anos 1920 foi uma jogada de mestre da escritora, que não apenas renova o fascínio do espectador para com o mundo que está sendo retratado na tela, mas também faz com que o protagonista do filme, o bruxo inglês Newt Scamander, também partilhe essa sensação.

O choque cultural que Newt experimenta ao chegar nos EUA é comparável ao de Harry ao descobrir o mundo dos bruxos, criando uma bela rima entre os dois personagens. No entanto, as semelhanças param aí. Apesar de compartilharem o mesmo universo (e alguns personagens e linhagens familiares), as jornadas dos personagens são bem diferentes, não sendo necessário conhecer uma história para acompanhar a outra – embora a experiência para os já iniciados inclua também um toque de nostalgia.

Enquanto “Harry Potter” era sobre amadurecimento, “Animais Fantásticos” lida com dilemas mais adultos, o que reflete o fato de que seus personagens já saíram de suas respectivas escolas de magia há algum tempo, também servindo como constatação de que os fãs desse universo cresceram (afinal, “Harry Potter e a Pedra Filosofal” chegou às livrarias em 1997 e aos cinemas em 2001).

O quarteto de heróis se mostra extremamente carismático e bem diferente do trio Harry/Rony/Hermione, o que evita que esse derivado torne-se apenas uma variação do original. Newt tem uma personalidade gentil e companheira, demonstrando seu carinho para com os animais e, ao mesmo tempo, curiosidade, deslumbramento e insatisfação com “o novo mundo”, em um trabalho sólido de Eddie Redmayne.

O padeiro Jacob é um dos pontos altos do longa, com Dan Folger não sendo apenas o alívio cômico da história, mas um dos seus elementos mais representativos, justamente por ser o primeiro não-maj ou trouxa com real destaque dentro da franquia. Folger apresenta uma ótima química com Redmayne e especialmente com Alison Sudol, principalmente considerando que alguns dos diálogos entre os Jacob e Queenie não são “falados”.

A parceira involuntária da séria Tina com o otimista Newt na procura pelos animais perdidos em Nova York fez com que a sempre interessante Katherine Waterston uma bela dinâmica com Eddie Redmayne e a forma com que sua personagem se abre quanto aos motivos de sua queda profissional é um dos aspectos mais intrigantes do filme, especialmente pela inteligência na conexão que Rowling cria com os plots envolvendo os Segundos Salemitas e o sinistro Graves, interpretado com competência por Colin Farrell. Por falar em Farrell, o ator rouba tanto a cena que eclipsa sem esforço a ponta de um certo ator conhecido, que deverá ter mais peso nos demais longas da série.

Não é à toa que a história tem essa ambientação peculiar. Nova York estava em um pico de movimentos migratórios após a Primeira Guerra Mundial (da qual tanto Newt quanto Jacob são veteranos, embora em fronts diferentes) e também não sendo acidente o fato de que maioria dos personagens centrais são estrangeiros aos EUA ou descendentes de imigrantes – Newt é inglês, Tina e Queenie possuem um sobrenome de origem judaica e Jacob é claramente descendente de poloneses.

Até mesmo o doce flerte entre Goldie e Jacob ganha outra conotação, tendo em vista a proibição de bruxos e não-majs se relacionarem, lei que Newt tem como incompreensível – como hoje vemos enxergamos as normas que segregavam negros e brancos que existiam à época. Embora temas como Xenofobia, racismo e preconceito já tivessem sido explorados de maneira mais superficial na franquia, aqui eles tomam o centro do palco, com J.K. Rowling não se furtando em usar de claras alegorias para tratar o assunto com seriedade e sem nunca tornar o texto panfletário.

Mesmo já sendo um especialista naquele universo, David Yates teve o desafio de esticar um pouco a lógica estabelecida nos demais longas da franquia, e imaginá-la em outro tempo e cultura, tendo sucesso nesta empreitada. Sim, as setpieces com feitiços incríveis (e familiares) continuam lá, mas mais agitadas, com os ataques das varinhas remetendo às metralhadoras da era da proibição estadunidense (e com mais métodos mágicos de transporte em um filme do que nos outros oito combinados), mas não é só isso.

Toda a direção de arte e a feitura das novas criaturas são esplêndidas, desde a sede do Conselho de Magia dos EUA até o design dos diversos animais na mala de Newt – e o próprio interior da mala é um show a parte, passando também pelo duende canalha vivido por Ron Pearlman, em uma ótima ponta. E James Newton Howard aproveita a ocasião para criar uma trilha que mistura a magia daquele mundo ao charme jazzístico daquela época. Até mesmo o IMAX 3D se utiliza do tamanho da tela para criar usar efeitos que “fogem” da janela da tela.

Me permito deixar para o final o ponto de maior relevância do texto de J.K. Rowling. A despeito da fluência do roteiro ser complicada (a autora carrega muitos vícios de literatura para o cinema, tornando a narrativa menos fluida que o desejável, ao tratar cada evento como o capítulo de um livro), ela também trouxe uma importante mensagem da importância de autoaceitação através da terrível figura dos Obscuros e do Creedence de Ezra Miller, um rapaz abusado por aqueles que deveriam zelar por ele.

Certamente um dos personagens mais trágicos criados por Rowling, Miller consegue encapsular em sua performance como Creedence dramas da vida real, como crianças ostracizadas por sua família e/ou pela sociedade ou até mesmo mortas por serem diferentes ou por pensarem de modo diverso dos demais. David Yates e J.K. Rowling conseguiram recapturar a magia desse universo mágico e isso é maravilhoso per si, mas que tenham feito isso discutindo problemas tão contemporâneos e de maneira tão bonita, isso já é um milagre.

Saiba mais sobre: , , , , , , , , , , , , ,



  • gandralf

    Gosto demais da série do Harry Potter, mas este filme não desceu, não.

    Um protagonista que beira o autismo, extremamente irresponsável, ecochato xiita e por vezes irritantemente passivo.

    O cara é enfadonho! Parece que a única coisa que ele tem a dizer é “olhe como os bichinhos são legais”. Ah, mas pode ficar tranquilo que mesmo os que têm tudo para te matar não o farão #porquesim.

    A amiguinha dele (Tina) é inacreditavelmente incompetente, cometendo erros básicos em série. “Ah, mas o ministério da magia é nonsense”. Tá, mas ela trabalhou lá dentro; deveria saber minimamente como a coisa funciona, mas age como uma completa leiga.

    Argh!

    A irmã dela <3 <3 <3 sabe ler mentes. Beleza. Tem até uma ou outra cena em que isso é usado para explorar os personagens mas, fora isso, não há uma boa sacada para a trama principal. Nhé.

    Enfim… me empolgo mais com o Bob Esponja caçando água-vivas que o Newt caçando aqueles bichos. Os bichos de verdade me chamam mais a atenção que as quimeras de CGI.

    PS: o subtexto de abuso (infantil) me parece mais relevante do que em geral a turma comenta. Lavagem cerebral (religiosa) em crianças, tratamento brutal. E se você considerar que parece que o Ezra Miller está muito velho para interpretar o Credence, aí a coisa fica pesada. Credo…

  • Raul Mendonça Siqueira

    achei o filme apenas “legalzinho”, assim como toda a franquia Harry Potter: bobinha, porém interessante.
    o que deixa o filme acima da média são as atuações, pena que vamos ter que engolir o Johnny Depp nos próximos filmes… Colin Farrell construiu um vilão extremamente carismático e convincente pra ser jogado no lixo…

    • Ariel Moraes

      Eu concordo em relação ao Colin Farrell ter mandado bem, mas o vilão não é carismático nem fudendo. Primeiramente que meche com a mesma fixação de Voldemort por poder(ao menos foi isso que me pareceu), o que já vem sendo mega clichê na saga. Carismático é o que Ralph Fiennes fez com Voldemort.

  • Ariel Moraes

    Achei o filme divertido. Não sou fã da saga, mas eu imagino o quão empolgado os fãs ficaram, me lembra a estréia de “O Hobbit”, já que sou um fã incondicional de “Senhor dos Anéis”. Eu discordo completamente do comentário abaixo, quando diz que o “protagonista beira o autismo”, isso de certa forma é verdade, mas esse é o protagonista, existem pessoas assim no mundo com essa certa fixação por ajudar os seres mais frágeis (animais no nosso caso), e isso o protagonista manda muito bem.
    O filme tem um visual bonito e uma trama interessante, porém executada muito mal. O filme não deixa claro qual o papel principal da trama, se é a perseguição de Scamander pelos “bixinhos”, ou os acontecimentos do bruxo Grindelwald, isso só começa a ficar claro no ato final, que é executado de uma maneira muito jogada, na minha opinião. Mas no demais é um bom filme, não acho que a JK tenha acertado em cheio, acho que o poder do seu universo fala por si só nos seus filmes, podemos ver claras falhas bobas no filme, como a maneira que o personagem Creedence foi utilizado, colocaram uma carga dramática absurda no personagem, e no final ele foi somente utilizado de escada pra trama principal (que até agora eu não sei qual é). Os personagens coadjuvantes são ruins, alguns são péssimos. A personagem Tina até chegou a me comover nos diálogos entre ela e Newt, mas suas ações eram bobinhas e traziam consequências gigante pra trama. Enfim, esses errinhos acabaram incomodando a minha experiência, mas não apagou o brilho que o universo tem, ainda mais acompanhado de um protagonista muito bom. NOTA: 7,5/10

  • Janderson Wellington

    Bela crítica! Eu só esperava que sua nota fosse um pouquinho maior pelo texto que construiu. Mas, enfim… O filme é muito bom! Expande de forma muito competente o Universo Mágico de J.K.Rowlling, inovando em alguns pontos e sendo nostálgico em outros.

  • Curti demais o filme!!! 9/10!!!

  • Mateo Ang

    Excelente crítica! Excelentes comparações!
    Só não consegui associar o conteúdo da crítica à nota dada. Mas, no mais, excelente análise.

  • Deivi Pazos

    8,5 é uma excelente nota , muito merecida.

  • Ana Louise

    Ótima crítica xD

  • Kaio Souza

    Ainda não tive a oportunidade de assistir, mas acredito que pode ser um belo reinicio para a franquia.

  • Ícaro Nogueira

    Vale a pensa assistir. Quando o filme acabou, eu comentei com um amigo: – Melhor que muitos Harry Potters – disse eu, admirado. A resposta do meu amigo foi certíssima: “Não é que seja melhor, e sim porque agora a gente cresceu”.
    Baita filme.

    • Bruno Xavier

      Em um dos diálogos do Newt ele exemplifica esse sentimento, que as pessoas mudam, foi um acerto fantástico da J.K essa nova franquia.

    • João Lucas Ribeiro Lopes

      Realmente é melhor que alguns filmes do harry potter e do mesmo diretor ainda por cima.

  • João Lucas Ribeiro Lopes

    Quais são as chances do filme ser indicado ao oscar de efeitos visuais? Mesmo que perca pra algum filme espacial.

  • Anderson Lima

    Muito top. Quase chorei no final kk

  • klein

    Horrível!!! Muito chato, sem história. Apostei que seria um bom filme principalmente pelo roteiro ser assinado pela J.K. Rowling, mas me decepcionei. Para quem gosta de computação gráfica é um prato cheio, para quem gosta de um filme com argumento, fuja.