Críticas   quinta-feira, 03 de novembro de 2016

Doutor Estranho (2016): nem é tão estranho assim

O roteiro é fraco e a originalidade é ausente. Contudo, com um CGI psicodélico estonteante e um show do grandioso elenco, todas as falhas (quase) ficam esquecidas.

Apesar do título, “Doutor Estranho” é bastante familiar. A Marvel mais uma vez abraça as convenções dos filmes de heróis – inclusive as que ela mesma criou. É uma apresentação formulaica de uma história de origem, cuja narrativa é previsível e se torna cada vez mais próximo do enfadonho: apresentação do protagonista, desafio inicial, jornada pela solução, inserção no mundo novo, assunção do heroísmo e dos poderes e desafio final (contra o antagonista). Mais clichê, impossível; é a zona de conforto. Todavia, o resultado é inquestionavelmente aprazível.

Na trama, o protagonista é Stephen Strange (Benedict Cumberbatch), neurocirurgião arrogante e cheio de si que vê sua vida mudar ao sofrer um acidente de carro, que o impossibilita de continuar com sua vida – leia-se, seu trabalho – em razão de uma debilidade nas mãos. Desesperado após não obter resultado com a medicina, parte para Kamar Taj, em Katmandu (Nepal), onde pretende encontrar a recuperação. Porém, acaba descobrindo uma realidade nova que até então desconhecia, aprimorando muito mais que sua condição física.

A grande aposta de “Doutor Estranho” reside nos efeitos visuais, área em que o filme é sublime. O diretor Scott Derrickson – pouco conhecido e oriundo do cinema de terror, trajetória igual à de Sam Raimi – é feliz ao criar uma atmosfera psicodélica e alucinogênica. Inspirado em gênios como Hitchcock (“Um Corpo que Cai”) e Kubrick (“2001: uma Odisseia no Espaço”), Derrickson não chega ao brilhantismo, mas aprendeu bem a conexão necessária entre os efeitos visuais e o enredo. Não basta a psicodelia, ela precisa fazer sentido. Acertadamente, as imagens surreais se encaixam no contexto estabelecido, tornando-se impressionantes sem largar a coerência.

A direção consegue elaborar cenas épicas, como a do acidente – o slow motion que antecede os impactos é cirúrgico – e a do primeiro encontro de Strange com a Anciã (quando o surreal cresce, em detrimento do racional). O CGI é fenomenal e tem uma criatividade visual inegável. A “dobra” dos prédios traz recordações de “A Origem”, é verdade, mas vai muito além. A criatividade, contudo, é ausente no roteiro, o que resulta em um ritmo irregular que meros establishing shots no Nepal, ainda que belos, não salvam. O primeiro ato tem elipses constantes e sequências curtas, ao que se segue uma ação cada vez mais frenética e demasiadamente alongada.

É a obsolescência do roteiro que impede que a película esteja entre as melhores dos filmes de heróis. Embora seja eficaz ao criar uma mitologia própria – inclusive com expressões particulares, como “Manto da Levitação” (praticamente uma personagem à parte), “dimensão espelhada”, “dimensão negra” etc. –, suas idiossincrasias não são suficientes para sustentar uma narrativa tão clichê.  Isso fica ainda agravado com alguns elementos ruins, cinco merecem destaque. Não obstante, há que se admitir que o objetivo de constituir uma história de origem é atingido.

Há um didatismo exagerado no plot, subestimando o espectador. Até mesmo a personalidade de Strange é “mastigada” para facilitar a compreensão, quando o perfil é bastante conhecido (parecidíssimo com Tony Stark). Os diálogos são desagradavelmente óbvios, chegando ao nível “ninguém teria feito melhor” versus “eu teria”. Perdendo a oportunidade de ter uma consistência diferenciada e apostar na sobriedade, são várias as piadinhas, nem todas engraçadas (sem piadas o filme não é Marvel). Ainda, o lado antagonista é genérico como um(a) Lanterna, desperdiçando o excepcional Mads Mikkelsen – com mais conteúdo, Kaecilius teria sido um ótimo vilão. Por fim, no que lhe é peculiar, a defesa de multiversos e da vastidão da realidade, o filme é bastante raso (especialmente na abordagem simplista da questão tempo-espaço, que prejudica o desfecho, também simplista) e deixa algumas pontas soltas. Uma delas concerne à Anciã, que só é fascinante graças à espetacular Tilda Swinton.

A mudança de gênero da personagem The Ancient One (o nome em inglês é muito mais adequado) foi uma ótima ideia ao utilizar a atriz britânica. Sua androgenia característica fornece à personagem todas as necessárias camadas de complexidade (as que o roteiro evita). Os ensinamentos de Anciã são fascinantes! A escola britânica de atuação é a melhor do mundo: Swinton só não vence Benedict Cumberbatch porque ele encarna o Doutor Estranho como nenhum outro ator conseguiria. Merece atenção sua linguagem corporal (em especial o tremor das mãos), que transita nas nuances da personagem, entre a egolatria e a humildade (ou algo próximo disso). Cumberbatch dá (mais) um show de atuação. No elenco também estão Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams e Benedict Wong, subaproveitados como Mikkelsen.

Em síntese, “Doutor Estranho” é mais um filme da Marvel, que só não é descartável pelo elenco formidável e pelos efeitos visuais magníficos. Tudo que já foi visto se repete: nada no roteiro é “estranho”, o estúdio não quis inovar. Porém, com magia, CGI estonteante, Benedict Cumberbatch e Tilda Swinton, inovar não foi necessário para encantar.

Diogo Rodrigues Manassés
@diogo_rm

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Doutor Estranho (2016)

Doctor Strange - Scott Derrickson

Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) leva uma vida bem sucedida como neurocirurgião. Sua vida muda completamente quando sofre um acidente de carro e fica com as mãos debilitadas. Devido a falhas da medicina tradicional, ele parte para um lugar inesperado em busca de cura e esperança, um misterioso enclave chamado Kamar-Taj, localizado em Katmandu. Lá descobre que o local não é apenas um centro medicinal, mas também a linha de frente contra forças malignas místicas que desejam destruir nossa realidade. Ele passa a treinar e adquire poderes mágicos, mas precisa decidir se vai voltar para sua vida comum ou defender o mundo.

Roteiro: Jon Spaihts, Scott Derrickson, C. Robert Cargill

Elenco: Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Benedict Wong, Mads Mikkelsen, Tilda Swinton, Michael Stuhlbarg, Benjamin Bratt, Scott Adkins, Zara Phythian, Alaa Safi, Katrina Durden, Topo Wresniwiro, Umit Ulgen, Linda Louise Duan, Mark Anthony Brighton, Meera Syal, Amy Landecker, Adam Pelta-Pauls, Sarah Malin

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  • Fernando Augusto

    Sou contra notas em reviews, apesar de entender a necessidade. Trolls com 7,5, Dr. Estranho 7 hahaha

    No Letterboxd por exemplo, Estranho está com 3,6/5, Trolls com 3,1/5.

    – Não estou criticando site ou críticos hein, apenas uma observação sobre notas –

    • Se forem feitas pela mesma pessoas, é simples, ele gostou mais de Trolls. rs

      • Sonic, the Hotdog

        Nada a ver. Eu mesmo daria uma nota 9.0~~10.0 para Spotlight (que ganhou o Oscar no ano passado, pela qualidade técnica) ou também para The Revenant, enquanto eu daria uma nota 7.0 para Perdido em Marte… e gostei mais de Perdido em Marte que dos filmes mencionados acima.

        As notas do critico tem que ser técnicas. E isso não quer dizer que ele gostou mais ou menos do filme.

    • Sarah Oliveira

      Parafraseando Woody Allen: “Não existe melhor filme. Existe seu filme preferido”.

    • CptDavenport

      É, bom, se fosse uma checklist, com cada número da nota correspondendo a um requisito – se foi alcançado ou não – faria sentido. mas desconfio que não é assim.

  • Marcos

    O filme deixa muitas pontas soltas, de fato! Mas é um ótimo filme para entreter! Parabéns ao Crítico, acompanho sempre! Excelente crítica!

  • Andrey Brito

    Parei de ler nessa parte: “Mais clichê, impossível”! Dos filmes da MARVEL, só não barra Homem de Ferro, Capitão América 2: Soldado Invernal e Vingadores… nada de “mais do mesmo”, muita coisa nova, um outro mundo, uma nova jóia do infinito!

  • Arthur

    Gostei do filme, mas senti que ele desperdiçou um potencial enorme.
    O início dele encanta pela sensação de você estar descobrindo aquele mundo novo de magia e psicodelia. Mas ao invés do filme crescer, ele prefere a zona de conforto. Lendo sua crítica fico mais revoltado ainda pelo fato do elenco ter sido subaproveitado.
    Ainda assim eu gostei, valeu o ingresso. 🙂

  • Gleyson Cardoso

    PRA MIM A NOTA É 10.

  • Marcelo

    Cadê a crítica do Siqueira?

  • Diogo Maia

    Não sei o que aconteceu com parte do público que surtou com esse filme. Teve muita gente que disse que é o melhor da Marvel. De boa? Não está nem entre os cinco melhores. Longe disso, inclusive. Achei até o Hulk melhor que esse.

  • Franz Souza

    Escrevemos algo parecido: http://bit.ly/2fETDTe

  • Marx Barroso de Mattos

    Concordo com o que foi dito, apesar de ter gostado bastante do filme também achei as discussões bem simplistas, mais considerando o publico alvo de filmes de super heróis foi conveniente, mais é claro que com um roteiro um pouquinho melhor poderia ter agradado a mais de um publico alvo com mais galhardia, senti falta da surpresa que tive como em filmes como, matrix, cidade das sombras, a origem entre outros…

  • Márlon Jatahy

    O fato de usar muito bem uma fórmula ou usar clichês não deveria baixar tanto a nota assim. Repare que a natureza da história é definitivamente algo novo. Esta tratando de Multiverso e sobre Magia. Sobre entidades cósmicas e uma bela exploração e solução de embate com uma Jóia do Infinito. Os atores dão um show e a forma ou estilo da pelicula, revelam uma estética peculiar. Coloco facilmente entre os melhores filmes da Marvel.

    • João Lucas Ribeiro Lopes

      Mas o filme não precisava ter seguido tão a risca a fórmula marvel, principalmente porque ele começou totalmente independente do UCM. O uso da fórmula deixou a história um tanto previsível e repetitiva, exceto por alguns detalhes como a execução e os personagens.

  • Daniel Magno

    não existe nada mais clichê, que um critico dizer que o filme e clichê. e mais clichê ainda e alguém ficar putinho e dizer que meu comentário e mais clichê ainda. Senhores desliga o modo SOU PROCURADOS DE DEFEITOS e curta um filme como era na década de 80, ou seja pipoca e diversao garantida

    • João Lucas Ribeiro Lopes

      Quem se importa se o filme for ruim e mesmo assim ganhar dinheiro, né (não que este seja).

  • cledson

    lendo os comentários e pensando: “a marvel realmente esta acima do bem e do mau”, o filme é bom e diverte, segue a velha formula da marvel q conhecemos e gostamos (ou a q da mais lucro) e é isso, mais do mesmo, se ñ ligar para isso vai sair da sala de cinema feliz da vida como eu sai

  • Man of Steel

    Ciqueira correu do pau kkkkkkk

  • Ullisses Castro

    “Perfil parecido com Tony Stark”. Na real quem já leu os quadrinhos a muito tempo sabe que a persona sarcástica do Stark do Robert Downey Jr. Parece muito mais com o Doutor Estranho do que o material original do Homem de Ferro.

  • Manteiga No Biscoito

    Filme bem nhé, típico da Marvel.

  • Ulisses Silva
  • Davi

    Quem quer uma critica do Siqueira tb levanta a mão o/ rsrs

  • José Eduardo Silva Amaral

    Já lido a mais de 10 anos com essas questões de projeção da consciência (alma), principalmente durante o sono, coisa ainda é fora da realidade da maioria das pessoas. E ver isso retratado em um filme blockbuster, mesmo que de forma superficial, foi uma grata surpresa.

  • Edinho Bianchini

    eu gostei, claro que esperava um pouco mais , mas é um filme bom, solido , sem grandes erros e alguns acertos como no visual e seu protagonista, também filme de origem de herois sempre a continuação é melhor entao vamos aguardas tambem.

    • João Lucas Ribeiro Lopes

      Eu odeio essa desculpa de o primeiro filme não precisa ser excelente, em todo trabalho que a gente faz sempre somos incentivados a fazer o melhor possível e acho que nos filmes de heróis também devia ser assim.

  • Edinho Bianchini

    espero que tenha um cast sobre

  • Mayara

    Concordo com a crítica. Muito boa, está de parabéns.

    • Diogo Rodrigues M

      Obrigado pelo elogio, Mayara 🙂

  • Valenada

    Gostei da crítica porém discordo em um ponto, achei o roteiro bem certinho, bem encaixado.