Críticas   segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Ouija – Origem do Mal (2016): mais ousadia da próxima vez

Mike Flanagan é o grande nome do filme, como diretor e roteirista. O trabalho é de bom nível, não se pode negar. Contudo, se o cineasta tivesse sido mais ousado e saísse das convenções do gênero, teria mudado o paradigma do terror. Não foi dessa vez.

Se “Ouija – Origem do Mal” não é um desastre como tinha tudo para ser, o mérito é de Mike Flanagan. E se “Ouija – Origem do Mal” tem defeitos, a maior parte do demérito é de Mike Flanagan. Coube ao cineasta dedicado ao terror dirigir e roteirizar a prequel do fraquíssimo “Ouija – O Jogo dos Espíritos” (2014). A tarefa era árdua, mas foi executada com êxito: não apenas seu filme é melhor que o de 2014, como constitui um terror respeitável – isto é, não ofende intelectualmente o espectador.

>> [CRÍTICA] Ouija – O Jogo dos Espíritos (2014): genérico e aborrecido

Na trama, Alice (Elizabeth Reaser) é uma charlatã que vive de enganar as pessoas, fingindo se comunicar com espíritos. Para o trabalho, conta com truques e com a ajuda das filhas, a adolescente Lina (Annalise Basso) e a pequena Doris (Lulu Wilson). A vida das três muda drasticamente quando Doris revela mediunidade, usando um tabuleiro de Ouija para se comunicar com o falecido pai – mas também com outros espíritos.

Considerando a singeleza do enredo, como diretor, o saldo de Flanagan pode ser considerado bastante positivo. Embora não chegue a subverter o gênero – o que seria ideal –, seu trabalho, além de artisticamente honesto, tem requintes pontuais. Há um excelente uso do campo, manipulando as proporções no quadro e trabalhando com profundidade de campo em vários momentos. Não se espera em um terror um recurso rebuscado como tela falsamente dividida: de um lado, um close em uma personagem; de outro, com ou sem foco, outra personagem, mais distante. O trabalho de enquadramento se faz presente em vários momentos – a primeira aparição do Padre Tom (Henry Thomas), por exemplo, não surpreende, mas é inusitada do ponto de vista visual. Alia-se a isso um design de produção certeiro, da logomarca da Universal à contextualização histórica (visual vintage na direção de arte, impecável no figurino).

Mais do que isso, a câmera de Flanagan sabe conduzir o espectador como não é comum no terror. Duas cenas merecem menção: a primeira é o zoom in em uma fotografia de família, que tem como objetivo narrativo explicar o contexto; a segunda é um plano encantador em que Doris conhece o tabuleiro (e a câmera faz uma movimentação magnífica). O básico também está lá: plongée quando as três jogam juntas – uma câmera subjetiva muito sugestiva, considerando a temática espiritual –, alguns jumpscares – felizmente, não muitos, pois seu uso é artisticamente desprezível e cinematograficamente estúpido – e uma possessão demoníaca dentro do padrão (olhos virados, mandíbulas elásticas, poderes sobrenaturais, mortes cruéis e sussurros constantes). O erro do diretor foi justamente abraçar as convenções do terror relativo a esse tema, tornando-se uma obra genérica. Isto é, na parte mais sensível, quando o filme atinge o auge da paranormalidade que o espectador busca, o longa é um fosso de clichês.

O elenco não colabora muito, é verdade. O melhor ator do cast, Doug Jones (de “O Labirinto do Fauno” e “Hellboy”, ou seja, especializado em cinema fantástico), fica com um papel cuja relevância é meramente como engrenagem narrativa, aparecendo pouco (e amedrontando nada). Lulu Wilson acerta na “cara de paisagem” que lhe é exigida, mas a linguagem corporal é aquém do desejável – o cabelo não atrapalha para sentir algo estranho na nuca? Na parte dramática, todos são sofríveis.

Quanto ao roteiro… mesmo que “Ouija – Jogo dos Espíritos” seja engenhoso em seus plot twists aceitáveis no terceiro ato (e a elipse após o clímax é de uma coragem louvável), suas contradições são incômodas. A mãe está viúva, tenta ser zelosa e preocupada com as filhas. Nesse caso, como faz sua caçula faltar a tantas aulas (isso ignorando o fato de envolver as filhas no charlatanismo)? Uma das regras de Ouija é nunca jogar sozinho. Por que então isso acontece tantas vezes? Lina afirma que “se separar é algo idiota” no momento de enfrentar a entidade. Essa parte é de uma obviedade risível. O plot estabelece premissas que são quebradas por ele mesmo, perdendo completamente a credibilidade. Com isso, a narrativa perde fôlego.

Diante dos recursos de alto nível da direção, o elenco fraco e o roteiro falho poderiam ser relevados. Mike Flanagan poderia ter feito de “Ouija – Jogo dos Espíritos” um novo paradigma do gênero terror. Porém, ao ceder às obviedades e repetições das possessões demoníacas já tão exploradas pela sétima arte, não dá o salto de qualidade necessário para se destacar dentre tantos outros semelhantes. Quem sabe da próxima vez.

Diogo Rodrigues Manassés
@diogo_rm

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Ouija – Origem do Mal (2016)

Ouija: Origin of Evil - Mike Flanagan

Doris é uma garotinha solitária e pouco popular na escola. Sua mãe é especialista em aplicar golpes em clientes, fingindo se comunicar com espíritos. Mas quando Doris usa um tabuleiro de Ouija para se comunicar com o falecido pai, acaba liberando uma série de seres malignos que se apoderam de seu corpo e ameaçam todos ao redor.

Roteiro: Mike Flanagan, Jeff Howard

Elenco: Elizabeth Reaser, Annalise Basso, Lulu Wilson, Henry Thomas, Parker Mack, Doug Jones, Sam Anderson, Kate Siegel, Alexis G. Zall, Halle Charlton, Ele Keats, Nicholas Keenan, Lin Shaye, Eve Gordon, Lincoln Melcher

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  • Juan Chagas

    É exatamente oq eu pensei, do início ao meio é um filme excelente, tinha tudo pra ser do nível de Invocação do Mal 2, mas do meio pro final é uma reta decrescente, bem genérico e deixa de assustar. Faltou ousadia para se tornar algo memorável.