Críticas   quinta-feira, 14 de abril de 2016

Rua Cloverfield, 10 (2016): mais uma surpresa de J.J. Abrams

Criando tensão principalmente nas interações extremamente humanas entre seus personagens, esta continuação (?) de "Cloverfield - Monstro" não tem quase nada em comum com o original, mas mantém o ótimo nível daquele longa.

imageEm 2008, J.J. Abrams produziu “Cloverfield – Monstro”, filme de Matt Reeves escrito por Drew Goddard (indicado ao Oscar em 2016 por “Perdido em Marte”) sobre um grupo de jovens tentando sobreviver ao ataque de uma criatura gigante que invadiu Nova York, em uma narrativa de found footage (filmagem encontrada) onde uma câmera diegética operada pelos próprios personagens nos conduzia através da trama. Cercado de mistério e aproveitando um pouco do hype da série “Lost”, o filme fez relativo sucesso.

Quase oito anos depois, quando o mundo ainda suspirava com seu “Star Wars – O Despertar da Força”, Abrams anuncia este “Rua Cloverfield, 10”, dirigido com competência pelo novato Dan Trachtenberg e com argumento da dupla Josh Campbell e Matthew Stuecken, que também escreveram o tratamento original do roteiro, depois retrabalhado por Damien Chazelle, responsável pelo maravilhoso “Whiplash – Em Busca da Perfeição”.

A primeira coisa que o público deve saber ao entrar na sala é que, mesmo com esta fita sendo considerada “irmã de sangue” daquela lançada em 2008, os dois longas são bem diferentes. Sai a câmera exclusivamente diegética e entra uma narrativa objetiva mais tradicional. Na trama, acompanhamos a bela Michelle (Mary Elizabeth Winstead), que está a fugir de um relacionamento problemática quando sofre um acidente no meio da estrada.

Ao acordar, se vê presa em um bunker onde o enorme Howard (John Goodman) lhe conta que aconteceu um ataque que devastou o país e que ele a salvou a levando para aquele “local seguro”, onde também está o meio abobado Emmett (John Gallagher Jr.). Obviamente, a moça desconfia da história de que um atentado químico, nuclear, biológico ou até mesmo alienígenas tenham acabado com o mundo como o conhecemos, mas aos poucos a moça se convence. O problema é que, como a publicidade do filme indica, “monstros vêm em todas as formas”.

Ao contrário de “Cloverfield – Monstro”, onde a maioria dos principais momentos de ação se passavam em ambientes externos, praticamente toda a narrativa aqui se passa no bunker de Howard. Graças à competente direção de arte, esse mesmo ambiente se mostra inicialmente claustrofóbica, mas se torna aos poucos menos opressor. Na tomada inicial da cena que mostra a primeira refeição em grupo do trio, Michelle é mostrada ao centro, contra um papel de parede que evoca grades de prisão, mostrando seu estado confinado. Com o passar do tempo, até seu outrora assustador quarto se torna mais aconchegante.

Muito dessa dubiedade em relação ao bunker é um reflexo da poderosa atuação de John Goodman. O ambiente é uma extensão de Howard e o ator mostra aqui um alcance e uma presença que tornam sua performance a primeira do ano a ser considerada seriamente a prêmios.

Isso porque Goodman mostra um alcance incrível, alternando momentos extremamente assustadores e outros reconfortantes – vide a tensa cena das charadas, momento chave para entender o personagem. Uma figura complexa, Howard é incapaz de ver Michelle como uma mulher, tendo uma fixação no infantil que remete às referências que ele faz a Megan, sua filha perdida.

Já Michelle inicia a narrativa em fuga, e é impossível não ver algo de Janet Leigh em “Psicose” na tomada que mostra a moça no carro (e o papel importante da cortina do banheiro acaba também sendo uma referência ao filme de Hitchcock). Mary Elizabeth Winstead faz de sua protagonista uma figura forte e marcante, que sabe se virar mesmo quando encurralada pelas circunstâncias absurdas nas quais se encontra.

John Gallagher Jr., por sua vez, reconhece que tem um papel menor no drama, com Howard funcionando como “escada” para Michelle e um escape para a tensão, mas o ator e o personagem cumprem bem suas funções.

Dan Trachtenberg conduz a trama com tamanha competência e segurança que se torna impossível dizer que este é o seu primeiro grande trabalho como diretor. O cineasta trabalha bem o crescendo da tensão dentro da história e entrega um filme enxuto e sem exageros, o que contribui para o bom desenrolar da narrativa. Atenção ao belo design de som da produção, que desempenha importante papel dentro da trama.

A despeito de um final que dividirá as opiniões do público (pessoalmente, achei-o deveras digno) e da discussão (inútil, a meu ver) sobre se essa história se passa no mesmo universo que o longa de 2008, o fato é que os dois filmes partilham algo importantíssimo: são tramas de gênero bem contadas, tensas e que têm em seus respectivos centros a humanidade de seus personagens. Recomendado.

Thiago Siqueira
@thiagosiqueiraf

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Rua Cloverfield, 10 (2016)

10 Cloverfield Lane - Dan Trachtenberg

Uma jovem (Mary Elizabeth Winstead) sofre um grave acidente de carro e acorda no porão de um desconhecido. O homem (John Goodman) diz ter salvado sua vida de um ataque químico que deixou o mundo inabitável, motivo pelo qual eles devem permanecer protegidos no local. Desconfiada da história, ela tenta descobrir um modo de se libertar sob o risco de descobrir uma verdade muito mais perigosa do que seguir trancafiada no local.

Roteiro: Matthew Stuecken, Josh Campbell, Damien Chazelle

Elenco: Mary Elizabeth Winstead, John Goodman, John Gallagher Jr., Bradley Cooper, Douglas M. Griffin, Cindy Hogan, Suzanne Cryer, Maya Erskine, Mat Vairo, Ryan Martin Dwyer

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  • Cas

    Baita filme, assisti ontem! Tava esperando ansiosamente a crítica de vc’s, e sua tb Thiago que acho das melhores daqui!!! Quem sabe ñ seja uma triologia?!?!? abraços

  • Estava com um pé atrás sobre esta produção, mas vou dar um voto de confiança depois desta crítica

  • Alexandre de Paula

    Concordo com cada palavra! O filme é muito bom e tem atuações muito boas.
    Mas conforme o Sicas bem disse, o final divide opiniões. No meu caso, confesso que não gostei tanto rsrs É como se tivesse mudado completamente de filme, e isso, tirou minha imersão na trama.
    Mas, ainda é um ótimo filme!

  • Norman

    Lindo filme, vale a pena https://goo.gl/EZ9c6B

  • Bunitinho mas Ordinário

    Cara como essa Mary Elizabeth Winstead é linda, sou apaixonado pela beleza e talento dessa garota.

  • Andre Honoratto

    Parei de ler quando o crítico chamou o filme de “fita”. Aí nao dá, né! Apesar disso o filme é muito bom!

  • Arthur

    É um filme bem decente, com um final extremamente WTF (o que não é ruim, necessariamente).
    Eu li em algum lugar que ele se passa no mesmo universo de Cloverfield, e que a idéia é fazer uma sequência para conectar os dois filmes.
    Comparando os dois, acho este muito melhor que Cloverfield. Lá eu não consegui me importar muito com a trama do casal. Aqui, eu me importei com a protagonista.

  • Rodrigo Haidar Amaral

    Acho que a comparação com Cloverfield é inviável – diminui um pouco este, valoriza demais o outro, que não entregou o que eu esperava (mas não deixa de ser um bom filme). Rua Cloverfield 10 é revigorante como suspense. Há anos não se via essa “mão” no momento de criar tensão. Além de Hitchcock, me lembra até Brian de Palma! John Goodman faz o filme ir de 8 pra 9, e é o alicerce da tensão, até o momento do seu final na trama. Que vilão! Saber que se trata do mesmo universo que o filme de 2008 é estimulante (quem não liga uma coisa na outra se frustra muito), já que é fácil prever que J.J. Abrams está tramando algo grandioso desde 2008, aplicando um conceito em doses homeopáticas, e isso se reflete no que o filme apresenta: solidez, tranquilidade na execução, nas atuações, no roteiro amarrado. E é fato: vai ser muito revisitado assim que a vindoura “franquia” Cloverfield começar a fazer estrondo em produções maiores (se bem que o cheiro pra mim é de série de TV). Abraço!

  • Anderson Lima

    Alguém conseguiu entender qual a relação entre este e o primeiro filme? Estou aqui tentando…

  • Manolo Carvalho

    Spoiler:

    A cena do molotov de uísque era totalmente dispensável. Mas o filme foi uma agradável surpresa,o final foi massa.