Cinema com Rapadura

OPINIÃO   quinta-feira, 10 de março de 2016

50 Tons de Preto (2016): cinquenta tons de uma tragédia anunciada

Satirizando uma obra que simplesmente não tem força o suficiente para tal, basicamente nada se salva neste filme que parece ter sido feito já com a intenção de ser um dos piores dos últimos tempos.

50-tons-de-preto-posterNão acho “50 Tons de Cinza” o pior filme da década como apontam alguns, tampouco faço coro à hype que faz da produção uma das mais surpreendentemente lucrativas dos últimos anos. Costumo apreciar um humor politicamente incorreto e acho que, respeitado certo bom senso, não há nada que não se possa fazer piada sobre. Assim, me encontro em uma posição particularmente confortável para escrever este texto em específico, embora não muito agradável justamente pela catástrofe que é “50 Tons de Preto”, uma verdadeira sessão de tortura para qualquer cinéfilo que se preze.

Independente da qualidade (ou falta de) de “50 Tons de Cinza”, ele definitivamente não tem força (leia-se ‘conteúdo’) o suficiente – para o bem ou para o mal – para sustentar uma sátira cômica sua que tenha o mínimo de mérito cinematográfico. Isso acontece, em parte, exatamente porque as cenas que eventualmente poderiam render boas chacotas (se bem trabalhadas, com criatividade, o que não é o caso), já são praticamente caricaturas de si mesmas. Não intencionalmente, claro, mas o longa que adaptou o romance de E.L. James para os cinemas já faz piada consigo mesmo.

Conduzido pelo diretor de “Inatividade Paranormal” e “Inatividade Paranormal 2”, Michael Tiddes, “50 Tons de Preto” basicamente reconta a história do filme que pretende satirizar, substituindo as passagens mais ‘marcantes’ por versões constrangedoras e sem graça, normalmente fazendo uso de recursos (como o título já sugere) racistas, misóginos, homofóbicos e elitistas, sem nenhuma camada mais crítica e aprofundada neste sentido. Ou seja, quando é pra usar os excessos em seu favor, o filme não o faz, preferindo optar pela comodidade em ser medíocre. Por incrível que pareça, a julgar pela quantidade de risadas que ouvi em uma sala de cinema praticamente lotada, há quem ache extremamente cômico esse tipo de abordagem.

Protagonizado por Marlon Wayans (Christian ‘Black’), este também roteirista, ao lado de Rick Alvarez e Kali Hawk (Hannah), dois intérpretes negros, o longa está recheado de piadas sobre como os negros são ladrões, burros e pobres, o que certamente deve agradar a uma minoria fascista do público. Uma verdadeira salada de ultrajes sem graça às minorias e ao cinema de uma maneira geral. De bom, uma ou outra referência interessante, mas que não provoca o efeito esperado justamente por estar rodeada de um contexto completamente absurdo. Neste sentido, é difícil saber se fico feliz ou desolado por ver citações de Game of Thrones, De Volta para o Futuro, etc.

Marlon Wayans, inclusive, tem em sua carreira algumas produções ‘paródia’, como os já citados filmes de “Inatividade Paranormal” e a franquia “Todo Mundo em Pânico”, em ambas participando como ator e roteirista. Isso para não citar outros não satíricos simplesmente lamentáveis, como “Norbit” e “Bobeou, Dançou”. À exceção de “Requiem para um Sonho”, Wayans não é, nem como ator nem como escritor, um artista que possua filmes particularmente interessantes, para dizer o mínimo, em seu currículo.

Inexplicável em sua proposta, constrangedor em sua abordagem, não há nada que se aproveite nesta obra que parece ter sido feita já pensando em ser o que é: cinquenta tons de uma tragédia anunciada.

Arthur Grieser
@arthurgrieserl

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