Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sábado, 09 de maio de 2015

Noite Sem Fim (2015): um exemplo de como desperdiçar um bom elenco

Ao se transformar em apenas mais um filme de ação com Liam Neeson, esse medíocre thriller desperdiça o seu ótimo elenco - incluindo o próprio Liam Neeson

Depois de “Busca Implacável”, Liam Neeson tem se especializado em papéis que o coloquem na posição de herói de ação durão e invencível, em um ritmo de trabalho acelerado. O mais recente exemplar dessa verdadeira linha de produção é este “Noite Sem Fim”, com direção de Jaume Collet-Serra, que dirigiu Neeson em dois longas desta renascença porradeira do ator – “Desconhecido” e “Sem Escalas”.

Escrito por Brad Ingelsby (“Tudo Por Justiça”), o filme tem Neeson como Jimmy “O Coveiro” Conlon, capanga e antigo amigo do chefe da máfia nova-iorquina, Shawn Maguire (Ed Harris). Quando o filho de Conlon, Michael (Joel Kinnaman), um honesto motorista, testemunha um assassinato cometido pelo destemperado Danny Maguire (Boyd Holbrook), filho de Shawn, Jimmy se vê obrigado a matar Danny para salvar Michael, o que os transforma nos homens mais procurados de Nova York, caçados tanto pelos homens de Shawn, quanto por policiais – corruptos ou honestos.

O começo do filme é até promissor, mostrando quão devastado física e psicologicamente Jimmy se encontra, após anos de matanças. Nesse ponto, Liam Neeson cria um personagem acertadamente patético, alguém que parece não mais suportar a própria existência, afastado da família por conta das escolhas erradas que fez, engolindo diversas humilhações a seco. Seus diálogos com Ed Harris são carregados de carinho e ressentimento ao mesmo tempo, com os dois atores veteranos apresentando uma ótima química.

Mas quando o segundo ato da projeção começa, Jimmy do nada deixa de ser a figura decadente que havia sido estabelecida anteriormente e se transforma (por falta de termo melhor) em alguém que faria Jason Bourne parecer um segurança de shopping, derrubando adversários bem mais jovens e em melhor forma que ele, dirigindo como se fosse o mentor de Vin Diesel em “Velozes e Furiosos”… ou seja, tornando-se o Liam Neeson que nos acostumamos a ver nos últimos anos, por mais que isso seja completamente incoerente com o contexto apresentado pela narrativa em sua parte inicial.

Em alguns momentos da projeção, em especial nos encontros entre Jimmy e Shawn no restaurante e na estação ferroviária, parece que Collet-Serra quis fazer um “Ctrl + C/Ctrl + V” de cenas similares presentes em “Fogo Contra Fogo”, de Michael Mann, com até mesmo os enquadramentos desses confrontos entre Neeson e Harris lembrando os dos conflitos entre Al Pacino e Robert De Niro naquele clássico recente do cinema policial.

Para completar, o ator e rapper Common surge em cena como um assassino profissional contratado por Shawn que age mais como o Exterminador do Futuro (especialmente no que tange a uma aparente paralisia facial), com aparições sempre forçadas, com uma destas levando inclusive à setpiece mais implausível da produção, mesmo dentro da narrativa proposta pelo filme, com direito a incêndios, explosões e fugas mirabolantes. Collet-Serra ainda investe em transições de cena desnecessariamente elaboradas, que mais parecem a abertura de “Game of Thrones”, que servem apenas para distrair o público e acabam por atrapalhar a fluidez da narrativa.

Dito isso, o visual um tanto decadente da Nova York apresentada no longa é esteticamente condizente com o estado de espírito de Jimmy e com o clima meio setentista da história, sendo uma ótima escolha do diretor. Até mesmo o detetive vivido por Vincent D’Onofrio complementa esse cenário, com sua atitude que remete a “Serpico”.

A fita ainda conta com uma participação especial (que está mais para uma ponta) de um acabado Nick Nolte como o irmão de Jimmy, em uma atuação assustadoramente ruim. Joel Kinnaman se sai bem como Michael, com os seus diálogos com Neeson trazendo sempre um subtexto de dor e amor reprimido que diz muito sobre o passado dos personagens.

As lutas e tiroteios – com exceção da excessivamente elaborada sequência acima mencionada -, são até efetivas, mas o que salva a produção de se tornar uma imensa perda de tempo são as interações entre Jimmy, Michael e Shawn, justamente por lembrarem que Neeson ainda é um dos melhores atores de sua geração e não apenas um action hero da terceira idade.

Thiago Siqueira
@thiago_SDF

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