Críticas   quinta-feira, 04 de setembro de 2014

Um Amor em Paris (2013): sensibilidade dá o tom certo à comédia dramática

Isabelle Huppert mostra versatilidade ao apostar em personagem com nuances cômicas muito bem trabalhadas pelo diretor Marc Fitoussi.

um-amor-em-parisLogo nos primeiros momentos de “Um Amor em Paris”, percebemos que sua comicidade é apoiada muitas vezes por certa tensão. E como toda boa tensão, ela não se manifesta de maneira violenta ou explícita. É com esse tom que somos apresentados à protagonista Brigitte (Isabelle Huppert), uma mulher madura e com um jeito enérgico que contrasta com a tranquilidade do marido, Xavier (Jean-Pierre Darroussin), assim como com a rotina repetitiva e pesada da vida no campo.

A inquietação de Brigitte se manifesta por um problema de pele, ao qual os médicos apontam causas emocionais, mas também pela sua vontade de viver para além dos cuidados com os animais que cria com o marido. Ela tateia sua inquietude, tal como quando percebe que ainda é capaz de atrair homens mais jovens como Stan (Pio Marmaï) ou de se divertir em uma festa local. Unindo o útil ao agradável, ela decide se tratar na capital, Paris, mas o que deseja mesmo é fugir um pouco de seu cotidiano, e aí começa uma desnorteada tentativa de autodescoberta.

É interessante observar como o diretor Marc Fitoussi equilibra a narrativa de “Um Amor em Paris”. A sutileza na representação das tensões de Brigitte é a mesma na representação de sua curiosidade ao vagar meio perdida por Paris, e com a mesma delicadeza surgem pequenos momentos cômicos, apoiados pelo tom natural da interpretação de Huppert mesmo nas situações que flertam com o absurdo. Que o diga o encontro “acidental” com Stan na capital ou o passeio na roda gigante!

Por sua vez, os elementos próprios à linguagem cinematográfica casam com a suavidade com que Fitoussi conduz o filme. A fotografia, por exemplo, encarrega-se de que os tons pálidos e cinzas de Paris pouco contrastem com os verdes frios do interior da França, o que de certa maneira uniformiza a insatisfação de Brigitte nos dois locais. Já a direção de arte parece querer deixar implícita a discrepância entre a casa de Brigitte, repleta de objetos antigos (os quais lembram um antiquário, como outra personagem bem destaca) e a pretensa e impessoal tecnologia do hotel em que ela se hospeda, no qual uma mensagem em inglês na televisão dá boas vindas à hóspede. A montagem, por sua vez, foca em planos pouco ousados em termos de duração ou enquadramento, mas que combinam com o intimismo da trama ao não chamar a atenção para o recurso.

Em termos de atuação, há de se destacar como Huppert constrói a personagem principal. Depois de papéis em filmes de pegada bem pesada como “A Professora de Piano” (2001) ou “Amor” (2012), a atriz surpreende ao humanizar a figura de uma mulher em busca de sua redescoberta, mas sem dar a isso um tom solene. Sua Brigitte é decidida, mas também tem seus momentos de confusão como qualquer outra pessoa. Ainda que belíssima para sua idade (uma “loba”, como brinca Stan) e com certa consciência disso, a personagem não se desenvolve em cima de nenhum clichê de femme fatale ou de “garota atrapalhada” a la Cameron Diaz nas comédias românticas hollywoodianas.

Jean-Pierre Darroussin também acerta como contraponto a Huppert. A passividade de Xavier nunca descamba para o exagero e se manifesta em pequenos detalhes como a voz tranquila ou a quase infantilidade com que lida com o computador (existe coisa mais antiquada que colocar o nome da esposa como senha?). A subtrama de Xavier, na qual ele vai atrás da esposa quando descobre que na verdade ela não marcou nenhuma consulta em Paris, dá-se de maneira diferente da de Brigitte, mas é igualmente sensível em sua condução e dimensiona a comédia por trazer as inesperadas consequências da pequena aventura dela.

Outro ponto positivo do longa é o fato de trazer ao público uma história sobre relacionamentos que não foca no início de um, mas sim no “meio”, e com personagens um tanto longe da juventude. O retrato de pessoas vivenciando suas dúvidas, inquietações e desejos sentimentais é, em grande maioria, associado a personagens na casa dos 20-30 anos, principalmente nas comédias românticas norte-americanas que inundam as salas de cinema, então ver esses sentimentos tão absolutamente humanos atrelados a personagens mais velhos e constatar que sim, há vida emocional após os 40 ou 50 anos, é sempre uma redescoberta gostosa. E com a condução de Fitoussi, fica difícil não se encantar.

Susy Freitas
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Um Amor em Paris (2013)

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