Críticas

Clock sábado, 22 de fevereiro, 2014 - às 17h29

12 Anos de Escravidão (2013): drama revisita o doloroso horror histórico

Steve McQueen realiza um filme tão importante para a História quanto para a sétima arte.

por Diego Benevides
22/02/2014 - 17:29

12 AnosO triste legado que a escravidão deixou ainda afeta a sociedade atual, sujeita à forte discriminação não apenas aos negros, mas a todos os grupos considerados “inferiores”. Uma sociedade igualitária, independente de cor, orientação sexual ou estilo de vida, para citar alguns, ainda é um sonho. Na verdade, sonho mesmo é uma sociedade que respeite as diferenças e se importe menos com o que o outro faz. Baseado na autobiografia de Solomon Northup, publicada em 1853, “12 Anos de Escravidão” revisita esse doloroso capítulo da História e entra para a lista dos filmes mais importantes sobre o tema.

Na trama, Solomon (Chiwetel Ejiofor) é um escravo liberto que mantém uma rotina comum com a sua família. Respeitado, Solomon é culto e ama música, tendo no violino sua grande paixão. Certo dia, ele é enganado por dois homens brancos que o sequestram e o obrigam a se reintegrar ao esquema de escravidão no sul dos Estados Unidos. Seu primeiro mestre, Ford (Benedict Cumberbatch), tem até certa simpatia por Solomon, agora chamado de Platt, mas suas dívidas ultrapassam qualquer sentimentalismo que possa ter em relação àquele homem. A partir daí, acompanhamos os 12 anos de Platt de volta ao regime escravagista, na tentativa de se libertar e voltar para a sua família. Será com o mestre Edwin Epps (Michael Fassbender) que Platt enfrentará seus piores dias.

O poderoso roteiro de John Ridley estabelece com clareza a relação de posse dos brancos com os negros. Os escravos são tratados como mercadorias, que devem servir nas atividades campestres, dando bons resultados aos seus senhores. Entre chibatadas e humilhações, não existe diferenciação de sexo ou capacidade física. Eles foram comprados para servir, caso contrário são punidos. Por explorar a reintegração forçada dos negros à escravidão, o roteiro dispensa explicações didáticas sobre o sistema da época. O relevante para Ridley é mostrar o horror vivido por um entre tantos outros negros da época, presos a uma rotina desleal e sofrida.

Para tentar sobreviver, Platt esconde que é letrado, pois as consequências seriam piores. A ideia é que, com o passar do tempo, ele conquiste seus mestres e, quem sabe, seja libertado da escravidão. Mas não é tão simples assim. Os conflitos que aparecem irão questionar a resistência de Platt e os abusos sofridos por ele e por seus companheiros atingem sua subserviência. A relação que ele mantém com Patsey, vivida pela novata Lupita Nyong’o, é delicada. Além de negra, ela é mulher, que se submete ao carinho excessivo de seu mestre, mas que optaria morrer para encontrar a paz. Nyong’o, indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, tem um dos momentos mais delicados e sensíveis da trama, bem como o mais cruel deles.

Chiwetel Ejifor encarna com inteligência o protagonista. Suas vulnerabilidades e sua crença de que o tempo e a justiça resolverão aquela situação dão a força que o personagem precisa. Sua relação com seus dois principais mestres, vividos por Cumberbatch e Fassbender, são avassaladoras, principalmente com o último. Fassbender constrói um tipo detestável, ostentador e inteligente. O poder que tem em suas mãos, que vai muito além do chicote que carrega, o cega e afeta até mesmo sua esposa, a arredia Senhora Epps, forte participação da atriz Sarah Paulson. Já Cumberbatch, um homem aparentemente bom e que talvez não entenda direito que a escravidão ultrapassa o sentido da existência, dá a falsa esperança que Platt pode ser salvo. Destaque também para a participação de Brad Pitt, que também é produtor do longa e pode vencer seu primeiro Oscar, que aparece no último ato como um sopro de esperança para Solomon.

E se a força do roteiro é evidenciada pelas fortes atuações, a direção de Steve McQueen não poderia ser menos eficaz. O cineasta elabora uma narrativa dinâmica, que jamais cansa o público. Os planos sempre bem elaborados tiram de cada situação o máximo de significado que pode, seja para emocionar ou para chocar. McQueen não poupa o expectador do choque, sendo quase impossível não compartilhar a dor que o filme exala. Destaque para os longos planos que expõem a situação irreparável do protagonista amarrado a uma árvore, enquanto os outros escravos continuam suas rotinas “sem perceber”. Ausentando-se de mostrar a passagem do tempo com didatismo, por meio de cartelas ou de uma montagem que certamente se tornaria confusa, as elipses são bem pontuadas e vemos o tempo passar por meio do desgaste e da aparência do protagonista.

Dispondo de uma equipe técnica irretocável, as grandiosas locações são valorizadas também pelo design de produção detalhista e os figurinos soberbos. A fotografia de Sean Bobbitt, que colaborou com McQueen em seus dois filmes anteriores, “Shame” e “Fome”, brinca com os limites da tela e com as tonalidades, nem sempre frias e nem sempre quentes. A cereja do bolo é a trilha sonora de Hans Zimmer, em mais um trabalho exemplar de como os acordes favorecem uma narrativa naturalmente poderosa.

Existe uma distância gigantesca entre “12 Anos de Escravidão” e os outros oito concorrentes ao Oscar 2014 de melhor filme. Além de ser uma experiência cinematográfica exemplar, onde linguagem e estética são perfeitamente desenvolvidas, o longa entra para a História ao retratar com crueza, mas sem perder a sensibilidade, de um dos períodos mais infames de todos os tempos. Assim, Steve McQueen realiza um filme obrigatório. A cena final, simplesmente arrepiante, dá a esperança de que um dia o mundo possa ser menos cruel e que o amor resolva boa parte dos nossos problemas.

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  • dyprax

    Porra, Hanz Zimmer, Cumberbatch e Fassbender, vou correndo ver esse filme…

  • Rafael Matos

    Assisti na sexta e, ao terminar o filme, eu é que estava com as costas marcadas. Filme muito forte e delicado, com excelentes atuações e cenas marcantes.

    (opinião minha/) É meio complicado comparar, mas esse filme é o “Lista de Schindler” dos filmes sobre escravidão. Assim como o filme do Spielberg até hoje é o melhor filme já feito sobre holocausto, acho que esse “12 Anos de Escravidão” é um filme que já nasceu para ser um clássico e figurar entre os melhores da história e, por muito tempo, pode ser o filme definitivo sobre a escravidão. (/opinião minha).

    Enquanto os créditos estavam subindo, a terrível sensação de “Quem dera isso fosse só uma historinha” não saía da minha cabeça. No sábado eu amanheci como quem está de luto, pensando no quanto nós seres humanos somos maus quando queremos.

    Respeito a opinião de quem diz não acreditar na existência de Deus, mas não consigo imaginar um mundo sem que haja consequência pra tanta maldade que praticamos contra nossos semelhantes.

    (opinião minha/) Eu creio que um dia o Holocausto, a escravidão, a prostituição infantil, o tráfico de pessoas, tudo isso vai ter uma resposta à altura pra quem cometeu. (/opinião minha)

    Foi essa sensação que o filme me deixou. A sensação de remorso humanitário por tudo o que já cometemos e que ainda continuamos a cometer contra outras pessoas. É triste saber que ainda existe escravidão em pleno 2014 (meu estado do Maranhão dá um alô).

    Parabéns, Diego, pela excelente crítica.

    OBS.: Jennifer Lawrence, você é linda e super talentosa. Mas dessa vez o Oscar tem que ir pra Lupita.

  • Maira

    Muito boa a crítica, mas vale ressaltar que Solomon Northup nunca foi escravo antes de ser raptado, nasceu um homem livre, o que gera uma revolta ainda maior com sua situação.

  • Luis Fernando

    Parece ser Um bom filme. O Brad Pitt que surpreende a cada obra em. Nao não deixou o estigma de bonitão ocultar o talento dele como acontece hoje em dia..

  • Cecília

    Se você for ver o filme por causa do Brad Pitt, não vá. Ele aparece, quando muito, em 20 minutos. Vá porque deseja ver um filme real. Quando digo real não digo em sua história, digo em suas verdades. Há uma verdadeira direção, que é maravilhosa, há um verdadeiro roteiro, uma verdadeira fotografia e principalmente: há uma verdadeira entrega dos atores, especialmente os ‘principais’, a seus personagens.
    Sai com a sensação de que até o Oscar é pequeno demais pra esse filme.

  • Vinícius Aguiar

    O fechamento do filme perde toda delicadeza da trama. Como se fosse feito às pressas. Ao meu ver no fim ele seca muito rápido as lágrimas ainda molhadas em nossos rostos ao ver todo o sofrimento do protagonista. Deveria ser mais esmiuçado e ter mais cores o encerramento.

  • Alvaro

    Esse eu fiz questão de ir assistir na estréia.

    Eu lembro de estar na fila esperando pra entrar e vi uma mulher chorando. Eu pensei “quero sair daqui igual ela”.

    Meu irmão… quando o filme estava acabando, eu chorava de soluçar… que filme foda. Esse é um daqueles filmes que PRECISAM ser vistos por todo mundo.

    (aliás, excelente crítica. Parabéns)

  • manolocarvalho222

    Não acho que Lupita merecia o Oscar, sua atuação é muito teatral e ela faz uso de muitas palavras e expressões que não condizem com o de uma escrava sem estudos. Mas o filme é bem dramático, muito bonito e triste. Acho que faltou algo, no fim voce sente que poderia ter pelo menos mais meia hora de filme, para amarrar pontas soltas.

  • Universematrix

    Voltei do Futuro pra dizer que este é um grande filme, retrata com total fidelidade à época da escravidão nos Estados Unidos antes da Guerra, e mostra com total frieza e sentimento a situação que os negros sofreram naquela época. Apesar der Solomon ser um homem livre teve sua liberdade roubada e teve que conviver parte de sua vida como um escravo, sofreu na pele o que muitos deles sofreram ao nascer até morrer, o ser humano é desprezível, muitos ainda hoje dizer ser inteligentes mas tratamos nossos semelhantes como estranhos, com total desrespeito e frieza, muitas coisas mudaram mas isso não quer dizer tudo se desfez, ainda vivemos em uma sociedade de classes, onde existe uma Elite que comanda o resto da população com mentiras e falsas ideologias, devemos ver esse filme não como uma história que se encerrou, mas como um espelho de uma nova sociedade que por mais que não pareça, ainda possui seus escravos e seus senhores, por mais moderna e “igualitária” que nossa atual sociedade possa se parecer, possuímos ainda tantos ou mais erros que a sociedade daquela época. Por fim quero parabenizar a todos que fizeram esse filme, e pra quem for assistir, não assista como um simples entretenimento, mas como uma reflexão profunda sobre esta grande obra.

  • Mateus Monteiro Mota

    Melhor filme que eu já assisti, Perfeito!