Críticas   segunda-feira, 10 de Fevereiro de 2014

Educação Sentimental (2013): um despertar para o conhecimento

Inspirado em um mito grego, Júlio Bressane discute a importância da cultura.

Educação SentimentalO mito grego de Endimião é sobre um jovem rapaz que despertava admiração dos Deuses por sua incrível beleza. Como presente de Zeus, Endimião pede para que nunca deixasse de ser belo e, como o tempo é inimigo da juventude, Zeus o fez dormir eternamente, assim, preservando a sua beleza. Logo depois, Selene, a Lua, se apaixona pelo rapaz e vive um amor impossível, sempre tendo a esperança que um dia ele desperte. Por isso, às vezes a Lua brilha no céu, e quando está triste, fica pálida.

Inspirando-se neste mito, “Educação Sentimental” traz o amor impossível da Lua com Endimião, na relação da professora Áurea (Josie Antello) e seu inesperado aluno Áureo (Bernardo Marinho). O cineasta Júlio Bressane apresenta dois personagens em uma verdadeira aula sobre a arte e critica a perda da apreciação da mesma.

Praticamente um monólogo da professora, o diretor espera que o público tenha a mesma sede de conhecimento que o aluno, pois este é o tipo de filme que é complicado julgar na primeira impressão, tamanha a quantidade de simbolismos e detalhes que merecem ser analisados com o tempo. Um filme que logo na sua construção narrativa desafia os padrões que a maioria das pessoas está acostumada a ver no cinema.

Bressane não irá entregar tudo mastigado, o que deve desagradar o público mais acostumado com o cinema pipocão de Hollywood. Com sua marca autoral bem presente, o diretor, junto com a roteirista Rosa Dias, discorre sobre a perda da sensibilidade pela cultura, no prazer das pequenas coisas: como ver um filme de película (e tem uma simples e bonita demonstração de como funciona o método), saber a história dos objetos, compreender a escrita de grandes autores, tudo isso em um  passeio discursivo que ainda se entrega a música e a dança, entre outras artes retratadas.

O relacionamento de Áurea e Áureo é sustentado pelo conhecimento que cobre o aluno como a luz da Lua cobre Endimião, o amando para que o mesmo possa despertar para uma nova vida. Uma relação que pode ser entendida como a do diretor com o público. Um abrir dos olhos para conhecer uma cultura perdida meio a tantas informações fúteis e que acabam apenas funcionando como alienação, deixando os sentimentos atrofiados.

Para declarar as ideias propostas, Bressane cria uma protagonista inteligente, cativante com suas palavras e, em certos momentos, julgadora, principalmente quando fala sobre a relação perturbada com a família. O aluno é apenas um motivador para que Áurea possa brilhar. A professora expressa os sentimentos por meio das palavras e também da dança (com um pouco de exagero, deixando o ritmo do filme cansativo), mostrando a força da expressão corporal que também pode emitir vários significados. O som é um personagem importante na história, narrando o que não pode ser visto. Belo trabalho do trio Guilherme Vaz, Damião Lopes e Vanílton ‘Vampiro’ Santos.

“Educação Sentimental” não é uma história fácil de ser compreendida e é aberta para várias interpretações, exigindo um bom repertório de quem assiste. Dependendo da sua disposição, pode até se tornar cansativa. No entanto, sempre é bom ver diretores brasileiros que estão preocupados em proporcionar uma experiência ao público, do que apenas os fazerem rir com piadas cada vez mais sem graça.

Guilherme Augusto
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Educação Sentimental (2013)

Educação Sentimental - Júlio Bressane

Roteiro: Júlio Bressane

Elenco: Josi Antello, Bernardo Marinho, Debora Olivieri, Júlio Bressane

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