Críticas   segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Até Que a Sorte nos Separe 2 (2013): mais de um mesmo nocivo

Assim como o primeiro filme, esta continuação nada mais é que um especial televisivo de fim de ano lançado nos cinemas, contando com um humor rasteiro e personagens intragáveis.

5539_medioTrês milhões de pessoas foram aos cinemas brasileiros assistir ao desastroso “Até Que a Sorte nos Separe”. Um sucesso comercial deste porte exige uma continuação. E eis que, um ano depois, chega às telas nacionais este obviamente intitulado “Até Que a Sorte nos Separe 2”, desta vez com um orçamento maior e com locações nos EUA, mas que feito criativamente à toque de caixa, antes que o público esquecesse de Tino (Leandro Hassum) e companhia limitada.

A continuação basicamente descarta o final do primeiro filme e mostra que Tino e sua família voltaram à pobreza, morando em um minúsculo apartamento sem água ou eletricidade. Mas quando Jane (Camila Morgado) herda US$ 50 milhões de um tio que morreu, eles voltam aos bons tempos absolutamente do nada, mostrando que casais inteligentes enriquecem de maneira fácil.

Em uma viagem a Vegas para jogar as cinzas do parente falecido do Grand Canyon, Tino perde tudo em uma partida de poker no cassino e entra na alça de mira da máfia mexicana e novamente começa a mentir para a família sobre dinheiro, contando apenas com a ajuda do fiel Amauri (Kiko Mascarenhas) para sair desta situação.

Se, no primeiro filme, ao menos em sequências de flashback, era mostrado que Tino nem sempre foi um completo imbecil, aqui as características negativas do protagonista estão a toda, o que torna impossível ter qualquer empatia pelo personagem vivido por Leandro Hassum.

Grosseiro, oportunista e egoísta, único traço positivo de Tino é o carinho que demonstra para com sua família, e mesmo este é duvidoso, tendo em vista o jeito com o qual lida com o patrimônio, esbanjando por orgulho dinheiro que não é apenas seu, mas que da herança da esposa.

Fica difícil se importar com alguém tão detestável, o que diminui a importância da jornada mostrada na fita, que lembra muito aquela abordada no primeiro “Se Beber, Não Case!”, o que ilustra muito bem a “criatividade” dos roteiristas Paulo Cursino e Chico Soares, que tentam realizar uma versão mais leve do sucesso de Todd Phillips, contando até mesmo com uma constrangedora participação de Anderson Silva fazendo as vezes de Mike Tyson.

Com Daniele Winits ocupada com as gravações de uma novela, Jane agora é interpretada por Camila Morgado. A mudança é mostrada por meio de uma gag sobre Jane “ser uma nova mulher” que poderia funcionar, não fosse o fato de que fotos da atriz foram exibidas na introdução do longa, o que mata o impacto da cena, demonstrando muito bem quão perdido o diretor Roberto Santucci (o mesmo da película original) estava quando elaborou a condução da narrativa.

Sem possuir um timing cômico mais afiado, Morgado emula Leandro Hassum e apela para o histrionismo constantemente para tentar fazer graça, gritando ou lançando mão de tiques exagerados. Seu único momento de destaque é em uma piada que tenta fazer graça a partir do momento mais emblemático – e inadvertidamente constrangedor – de sua carreira na telona, com tal cena substituindo aquela parodiada no seu fundo do poço pessoal.

Seguindo a fórmula de “Se Beber, Não Case!”, o representante da normalidade é tirado de cena para se transformar em um MacGuffin a ser perseguido. Neste caso, foi o modo que encontraram para amarrar a participação do ainda apático Kiko Mascarenhas no arremedo da trama que é o centro do roteiro.

Os elementos mais perturbadores de “Até Que a Sorte nos Separe 2” certamente são suas mensagens. A figura de Tino é como os realizadores enxergam o público da classe C, com uma opinião certamente longe de ser positiva, tendo eles uma visão ingênua e alienígena deste grupo social (para dizer o mínimo). O fato de que a produção é vendida com afinco global para esta mesma classe C implica em uma perturbadora relação quase que sadomasoquista entre público e realizadores.

Mais destrutivo ainda é que a filha de Tino e Jane, uma das poucas figuras ali a apresentar algum juízo e personalidade própria, no final se renda e resolva seguir “as tradições da família”.

Considerando as cenas que concluem o longa, que também obrigam o público a acompanhar os créditos inteiros para ver o final da história, é óbvio que a franquia terá uma terceira parte. Só espero que Jerry Lewis não volte para queimar o que restou de sua credibilidade, abalada com apenas um minuto em cena nesta bomba.

Thiago Siqueira
@thiagosiqueiraf

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Até Que a Sorte nos Separe 2 (2013)

Até que a Sorte nos Separe 2 - Roberto Santucci

Três anos depois, Tino (Leandro Hassum) e Jane (Camila Morgado) estão mais uma vez em dificuldades financeiras. O saldo bancário do casal é salvo graças ao inesperado falecimento de tio Olavinho, que deixou uma herança de R$ 100 milhões a ser dividida igualmente entre Jane e sua mãe, Estela (Arlete Salles). Como o último desejo do tio foi que suas cinzas sejam jogadas no Grand Canyon, Tino aproveita para levar a esposa e dois de seus filhos para conhecer Las Vegas. Entretanto, ele se empolga com a jogatina de um cassino e perde todo o dinheiro ganho por Jane na mesa de pôquer. Para piorar a situação, ainda fica devendo US$ 10 milhões a um capanga da máfia mexicana (Charles Paraventi), que deseja receber o dinheiro a todo custo.

Roteiro:

Elenco: Leandro Hassum, Camila Morgado, Kiko Mascarenhas, Jerry Lewis, Anderson Silva, Rita Elmôr, Marcius Melhem, Julia Dalávia

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  • dyprax

    Leandro Hassum é um bom comediante, uma pena que ele é limitado pelo humor ”Zorra Total” da globo…

    • Lucas Fernando

      Leandro Hassun um bom comediante ? Limitado pelo humor Zorra Total da Globo ?? Leandro Hassun é mais um projeto de comediante da Escola Didi Mocó de Humorismo, não importa o roteiro, o diretor e produtor, os atores que contracenem com ele, toda comedia nacional com “comediantes” da Escola Didi Mocó de Humorismo sera uma me#$d& e um fiasco por causa do talento limitado e patético deles …

      • dyprax

        Mas cara, vc já viu ele fora da Globo? Uma vez eu ouvi uma participação dele no MRG e foi muito engraçado, acho que vcs ficam nesse preconceito tendo em vista apenas o trabalho deles nesses programas de humor medíocres.

        Ps: Didi mocó já foi um ótimo comediante, mas traiu o movimento…

        • Lucas Fernando

          Olha eu sinto muito, mais eu tambem não vejo nada de extraordinario em Leandro Hassun e no seu fiel escudeiro Marcius Melhem fora dos palcos da globo, ja fui em uma peça de Marcius e a atuação era tão mediocre e as piadas tão forçadas que eu abandonei a peça no comecinho, esse cara consegue ser pior que Miguel Falabela. Eu entendo que exista tipos de humor diferentes, desde de o mais moderado até o mais pesado, e eu gosto é do pesado mesmo, quanto mais pesado melhor. Infelizmente no Brasil nem mesmo o humor moderado consegue atores humoristas de boa qualidade, as vezes o Marcelo Adnet faz uma boa imitação, mas é só, não tem criatividade pra criar nada, e pode colocar no mesmo saco aquele bosta do Bruno Mazzeo. É triste ver que nos EUA esta surgindo uma safra ate melhor que a anterior (mesmo incluindo lendas como Leslie Nielsen e Charlie Shee) como Zack Galafinaks, Jack Black, Michael Cera entre outros. Aqui no Brasil a nova geração esta pior do que a anterior, tipo Chico Anysio e Didi Mocó, pois é inegavel a qualidade dos programas e filmes deles nos anos 70 e 80 comparado ao lixo politicamente correto que eles produziam e atuavam nos dias de hoje. Enfim, ao menos ainda podemos desfrutar as series americanas infinitamente superiores as nacionais, mesmo passando de madrugada.

        • Vitor Urubatan

          Cara Os trapalhões (O que inclui o DIDI) eram fantásticos! Até hoje são divertidos (Obras antigas). É uma pena que hoje… Bom deixa para lá, é muito blablabla se eu começar a escrever!

      • Don Ramon

        O cara faz o mesmo tipo em todos os papéis. Ele não é bom comediante nem ator, no máximo um pouco engraçado quando se vê pela primeira vez porque precisa de alguém que seja escada.
        É mais aquele cara da mesa do chopp que dizem ser engraçado depois 6 rodadas numa sexta-feira depois do expediente.

  • wisley

    Por isso abandonei a globo a anos… não assisto aquilo nem a pau, o coisinha ruim, prefiro mil e uma vezes qualquer coisa estrangeira, até aquele novelas mexicanas e italianas são melhores e mais fáceis de assistir… eu não gasto um realzinho meu no cinema em produções brasileiras, seja de humor ou não, o único filme que ainda consegui assistir foi aquele dois coelhos…

    • Don Ramon

      Tá aí, eu rio muito com os ângulos, closes e interpretações latinas dessas novelas. Sempre alguém vira de costas pro interlocutor e fala olhando pra câmera pegar ambos os atores de frente num mesmo plano.
      Na novela mexicana pra mostrar que a pessoa envelheceu é só pôr um bigode.
      Por tentar ser sério fica muito engraçado.

  • Gostei muito do filme, apesar de ser basicamente a mesma história. O que garantiu a diversão foram os novos personagens. – http://www.lagix.com.br/2014/01/ate-que-sorte-nos-separe-2-critica.html

  • Marcelo

    Bem, o filme não traz tantos elementos novos e a história é fraca e descaradamente copiada de Hangover.

    Porém, o fato de o Tino ser do jeito que é não é revela TOTAL desconhecimento da classe C brasileira, que é um tanto assim mesmo e é um tanto de Homer Simpson também.

  • Luiz

    Cara, os filmes “zorra total” estão ai e não vão mudar sua fórmula.
    Mas infelizmente, é isso que o povo quer, esse é o tipo de filme que vende no Brasil.
    Esse tipo de filme reflete quase que completamente o povo brasileiro, e enquanto for isso que vende, é isso que vamos ter. Não importa o quão ruim seja o roteiro ou a execução, esse é o tipo de humor que agrada a esse povo bunda.

    • Marcelo Souza

      Eu estava escrevendo e aí li o seu texto. Assino embaixo. É o que povo gosta de ver e reflete o povo brasileiro.