Críticas   terça-feira, 09 de julho de 2013

Truque de Mestre (2013): ilusionismo ultrapassa limite do verossímil

Roteiristas e diretor se perdem em meio a trama original, dando vida a uma história recheada por exageros mágicos e personagens desinteressantes.

Truque de MestreFachada de prédio que se transforma na carta secretamente escolhida pelo participante do truque. Fuga misteriosa e dramática de um tanque cheio de piranhas. Suborno decorrente de uma hipnotização bem sucedida. Já em suas primeiras cenas, “Truque de Mestre” mostra que não é um filme sobre mágicas comuns, dessas que vemos em programas televisivos. O objetivo aqui é surpreender tanto o público de dentro da película quanto o que o aprecia sentado na sala de cinema. Mas na ânsia por tal feito e também por uma história deveras original, a trama ultrapassa o limite do verossímil, entregando-nos um trabalho difícil de engolir.

Credenciado pela participação de diversos renomados atores, o longa traz como figuras centrais quatro mágicos: Daniel Atlas (Jesse Eisenberg), o mais famoso; Henley Reeves (Isla Fisher); Merritt McKinney (Woody Harrelson); e Jack Wilder (Dave Franco). Observados por um homem misterioso enquanto exercem seu ofício, eles são recrutados para compor um grupo chamado The Four Horseman. A partir de então, o quarteto passa a chamar a atenção de todos por números que envolvem roubos a bancos e a homens milionários. Cabe então ao agente do FBI Dylan Hobbs (Mark Ruffalo) e sua companheira da Interpol Alma Vargas (Mélanie Laurent) investigarem o caso e exporem-se a sabedoria dos ditos cavaleiros.

Escrito por Ed Solomon, Boaz Yakin e Edward Ricourt, e contando com a direção de Louis Leterrier (“Fúria de Titãs”), “Truque de Mestre” traz uma primeira impressão até positiva. Dinâmico graças a uma edição esperta e uma movimentação de câmera digna de bons filmes de ação, o longa, porém, também já dá ideia de suas altas e perigosas pretensões. Entre sequências que extrapolam qualquer imaginação e utilizam-se explicitamente de efeitos visuais, o filme parece caminhar para discutir o limiar entre magia e ilusão, assunto bem explorado em “O Grande Truque”. Mas jamais o faz.

Citações em diálogos sobre o assunto logo são substituídos por conversas fúteis cheias de frases rasas de efeito ou mágicas megalomaníacas, porque essa é a meta do longa: embasbacar. Mas achando o roteiro  mais inteligente do que realmente é, Leterrier não só embarca na falta de sentido como a multiplica, desde a invenção de engenhocas tecnológicas até fazer sua personagem viajar dentro de uma enorme bola de sabão. Sim, o nível de “ilusionismo” chega a esse ponto! E o pior é que a história ainda tem a pretensão de tentar explicar alguns, apenas alguns, dos truques, quando não há como explicá-los, pelo menos cientificamente.

A trama vacila também na construção de seus personagens e suspense. Até que Jesse Eisenberg e Woody Harrelson trazem algum carisma, mas a falta de propósito nas atitudes dos mágicos e a concentração da história em Dylan Hobbs, o policial que investiga os “roubos públicos”, torna a película desinteressante a cada nova cena, à medida que o público se cansa do ritmo incessante da narrativa e descobre a falta de conteúdo da obra. Tudo seria menos trágico caso o protagonista de Mark Ruffalo não fosse tão idiotizado. São tantas as humilhações por quais passa, que é quase inevitável não torcer contra ele.

Hobbs ainda é responsável pela interação com a francesa Alma Vargas, interpretada por Mélanie Laurent. Mas a sintomática falta de açúcar entre os dois é tão explícita que é estranho acompanhar o crescimento da amizade entre a dupla. A relação é engolida por um suspense frágil e previsível, que envolve a verdadeira intenção das atitudes dos Four Horseman e a identidade do quinto integrante do grupo. Deixando para o desfecho toda a revelação dos mistérios, o filme é encerrado de forma não plausível como ameaçava se tornar em seu início.

Desperdiçando ainda o talento de Michael Kaine e Morgan Freeman, esse fazendo as vezes de Mr. M da trama (revelando segredos de mágicas alheias e também ajudando a desviar o foco do cerne da história), “Truque de Mestre” é daqueles trabalhos de boa aparência, mas que não chega nem perto de cumprir suas pretensões narrativas. Pode até divertir, especialmente para aqueles que optam por deixar o cérebro fora da sala de projeção. Para todos os outros, é uma grande besteira originada de mentes que não souberam controlar suas imaginações e delírios.

Darlano Didimo
@rapadura

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Truque de Mestre (2013)

Now You See Me - Louis Leterrier

Daniel Atlas (Jesse Eisenberg) é o carismático líder do grupo de ilusionistas chamado The Four Horsemen. O que poucos sabem é que, enquanto encanta o público com suas mágicas sob o palco, o grupo também rouba bancos em outro continente e ainda por cima distribui a quantia roubada nas contas dos próprios espectadores. Estes crimes fazem com que o agente do FBI Dylan Hobbs (Mark Ruffalo) esteja determinado a capturá-los de qualquer jeito, ainda mais após o grupo anunciar que em breve fará seu assalto mais audacioso. Para tanto ele conta com a ajuda de Alma Vargas (Melanie Laurent), uma detetive da Interpol, e também de Thaddeus Bradley (Morgan Freeman), um veterano desmistificador de mágicos que insiste que os assaltos são realizados a partir de disfarces e jogos envolvendo vídeos.

Roteiro: Edward Ricourt, Ed Solomon, Boaz Yakin

Elenco: Jesse Eisenberg, Mark Ruffalo, Woody Harrelson, Mélanie Laurent, Isla Fisher, Dave Franco, Michael Caine, Morgan Freeman, Michael Kelly, Common, David Warshofsky, José Garcia, Jessica Lindsey, Caitriona Balfe, Stephanie Honoré, Elias Koteas, Odessa Sykes, Justine Wachsberger, Kerry Cahill

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