Avaliação: 5

O_dia_que_durou_cartazA ditadura militar que se instalou no Brasil em 1964 foi, argumentativamente, o período mais sombrio do Brasil desde a proclamação da República. Por conta disso, é também um dos nossos momentos históricos mais ricos do ponto de vista dramático, servindo de ponto de partida para ótimos documentários e de pano de fundo para obras sobre as adversidades e privações sofridas pelo povo. Dentro do imenso rol de filmes e livros que lidam sobre o assunto, este “O Dia Que Durou 21 Anos” não se destaca entre os melhores.

Dirigido por Camilo Tavares, o longa tenta dissecar a participação dos Estados Unidos no golpe de 1964, começando no interesse estadunidense pelo Brasil após a renúncia de Jânio Quadros e a polêmica ascensão de João “Jango” Goulart à presidência. A partir daí, por meio de imagens de arquivo e entrevistas, a fita tenta montar o quadro da interferência dos primos ricos do norte no cenário político nacional com o avanço da ditadura.

A questão é que a intervenção nortenha não é dos ângulos mais surpreendentes a serem exploradas sobre a Ditadura Militar, até porque os EUA não chegaram a intervir diretamente no País, embora tenham chegado bastante perto. Inexiste, portanto, uma urgência maior no tema principal que segure a atenção do público até mesmo pelos parcos 77 minutos da projeção.

No epicentro da produção, o único destaque são as imagens de arquivo estrangeiras, que mostram a importância da política do Brasil lá fora, o que mina o complexo de nanico que acomete a maioria dos brasileiros, mostra a importância do nosso país no cenário mundial e contextualiza a necessidade dos EUA na sua desastrada intervenção.

Entretanto, a maioria dos bons momentos do documentário vem de plots introdutórios ou periféricos, com a tensão entre a renúncia de Jânio e a ascensão de Jango sendo o ponto mais alto da película. Também é interessante verificar que os militares até hoje defendem o golpe que eles insistem em chamar de “revolução”, com as exposições de ponto e contraponto sobre a defesa dos interesses capitais e nas reformas de base desejadas por Jango constituindo outra pedra preciosa dentro da produção.

Devastando a sua própria montagem (algo mortal no gênero), o documentário acaba se arrastando em entrevistas que fogem do tema principal e se envereda no sequestro do embaixador estadunidense em 1969, usando esse incidente como clímax, mas sem o devido contexto para o evento e mal preparando um crescendo para que se chegasse de maneira orgânica ali.

Além disso, o diretor lança mão de uma trilha sonora deveras intrusiva, que impede que o público se envolva nas informações que o longa tenta passar. O mesmo se aplica à própria estética da produção, com introduções absolutamente artificiais e animações que simplesmente não funcionam no contexto da obra.

Encerrando de maneira anticlimática com um slideshow dos presidentes brasileiros durante o regime militar, “O Dia Que Durou 21 Anos” lida de maneira excessivamente burocrática com um tema delicadíssimo de nossa história, afastando o elemento humano da equação e efetivamente alienando o público. Uma pena.