Avaliação: 7

Brinquedos sempre ganham vida na imaginação de qualquer criança durante a época da inocência. Mas e se um urso de pelúcia pudesse realmente ganhar vida? E mais, se ele prometesse ser um amigo inseparável? É com esse tom de fábula que Seth MacFarlane, responsável pelo sucesso “Uma Família da Pesada”, estrela, roteiriza e dirige a comédia de humor negro “Ted”.

Em uma noite de Natal, o pequeno John (Bretton Manley) deseja que seu ursinho Ted pudesse falar, para que eles pudessem ser amigos para sempre. Rejeitado pelos colegas, em uma rápida e cômica situação de bullying, John se surpreende quando o desejo é atendido. O “milagre” natalino transforma Ted em uma super estrela, que passa a coexistir na sociedade como qualquer ser humano. Agora aos 35 anos, a vida de John (Mark Wahlberg) parece ter mudado pouco. Por mais que trabalhe e tenha “responsabilidades”,  a convivência com Ted, um urso boêmio e desbocado, ainda o infantiliza. Quando sua namorada Lori (Mila Kunis) exige maior compromisso no relacionamento amoroso, John precisa deixar Ted um pouco de lado para tentar amadurecer, mas a tarefa não vai ser muito fácil.

É simplesmente impossível não simpatizar com Ted. Seja por sua tara por mulheres gostosas ou pela necessidade de estar sempre chapado, o ursinho tem um carisma natural. A voz forte de MacFarlane transmite sarcasmo e “maturidade” ao urso durante a fase adulta, sem perder o timing cômico. A relação de John e Ted não parece artificial e nunca fica chata. Não é estranho, a não ser para os pais de John durante a infância, ver um urso andando e falando com naturalidade. O questionamento sobre o tal “milagre” natalino não existe e é um ponto positivo do roteiro, já que poderia encaminhar a trama para o lado errado caso fosse levado a sério demais. Ted apenas ganhou vida e pronto.

Os conflitos de John, que namora há quatro anos com Lori, se intensificam quando a boemia de Ted ultrapassa o aceitável. Não é que John queira ficar longe do seu ursinho, mas é preciso regrar o peludão para que sua própria vida seja, no mínimo, mais séria. Mas Ted não dá descanso, nem mesmo quando ganha seu próprio apartamento. O ursinho desvirtua os objetivos de John, o que irrita Lori e a induz a um ultimato. Ou é ela ou Ted. Em paralelo, um vilão ainda aparece para complicar as coisas. Donny (Giovani Ribisi), acompanhado de seu filho, propõe a compra de Ted e não sossegará enquanto não conseguir.

As piadas quase sempre pesadas são a força motora do longa. Algumas beiram o constrangimento, mas é essa a intenção de MacFarlane. Não existe suavidade nas situações vividas por Ted, que sempre arrasta John para suas aventuras. O roteiro, entretanto, sofre com algumas pausas nos diálogos cômicos para se ocupar com subtramas pouco interessantes, como a relação de Lori com seu chefe Rex (Joel McHale) ou mesmo o vilanismo de Donny, que aparece canastrão e com motivações fracas. Donny não é engraçado, nem mesmo seu filho. Eles estão ali apenas para causar o já esperado ponto de virada para o terceiro ato, quando Ted precisa estar em perigo para fazer com que John e Lori percebam a importância dele em suas vidas.

Aliás, o roteiro também é ingrato com a personagem de Mila Kunis. Lori passa facilmente do julgamento da convivência turbulenta com Ted para uma super heroína que deseja salvá-lo. O mesmo acontece com John, mas é mais natural visto sua relação de 27 anos com o ursinho. Lori simplesmente muda suas intenções de uma forma forçada. Ainda assim, tanto Kunis quanto Wahlberg desempenham seus pepéis no tom correto, além do próprio MacFarlane que está em tela por meio da performance capture (saiba mais aqui).

Outro escorregão, talvez o mais grave, é fazer um filme para adultos que não adere completamente esse universo. Como diretor, MacFarlane não abandona o estilo infantil de encaminhar sua narrativa, que talvez tivesse mais êxito se assumisse completamente o tom de escracho. Afinal, a censura não permite crianças na sala e o filme não foi feito para elas. A ingenuidade de algumas situações atrapalha parcialmente o resultado do filme, mas não anula a comicidade da história.

O longa também está repleto de referências pops e nerds. Piadas com as cantoras Katy Perry e Susan Boyle rendem as melhores risadas e as gags sempre funcionam. Entretanto, a insistência em referenciar Flash Gordon beira o descartável. Participações especiais de Ryan Reynolds e Norah Jones compensam tais desvios de foco. E um fato: bom humor e desprendimento são necessários durante a sessão ou então “Ted” pode se revelar uma experiência traumatizante.

___
Diego Benevides é editor-executivo, crítico e colunista do CCR. Jornalista graduado pela Universidade de Fortaleza (Unifor), é pós-graduando em Cinema e Linguagem Audiovisual, especialista em Assessoria de Comunicação, pesquisador em Audiovisual e educador na linha de Artes Visuais e Cinema. Desde 2006 integra a equipe do portal, onde aprendeu a gostar de tudo um pouco. A desgostar também.