Cinema com Rapadura

OPINIÃO   terça-feira, 11 de setembro de 2012

Os Infiéis (2012): diretores franceses se unem para discutir a traição

Protagonizado pelo oscarizado Jean Dujardin, comédia reúne histórias sobre a infidelidade dos relacionamentos.

Como amante do cinema francês, descobri que pode-se esperar qualquer coisa de um filme do berço da Sétima Arte. E quando digo isto, é qualquer coisa mesmo, capaz de surpreender até o mais precavido dos mortais. Em “Os Infiéis”, uma trupe francesa se reuniu para fazer uma grande brincadeira: dirigir diversos curtas que, unidos em um único filme, rendem 109 minutos de situações sobre a traição nos relacionamentos amorosos.

Assim, os cineastas Emmanuelle Bercot, Fred Cavayé, Alexandre Courtès, Jan Kounen, Eric Lartigau, o vencedor do Oscar Michel Hazanavicius (“O Artista”) e os astros Jean Dujardin e Gilles Lellouche, que também atuam como protagonistas, dirigem episódios entrelaçados intertextualmente sobre a infidelidade (majoritariamente) masculina.

Começamos o filme com a dupla de amigos Greg (Giles Lellouche) e Fred (Jean Dujardin, Oscar de Melhor Ator por “O Artista”). Casados, eles se divertem à procura de mulheres, levando-as para a cama e até mesmo dividindo o mesmo quarto e a mesma cama. O episódio, intitulado “O Prólogo” (dirigido por Fred Cavayé), apresenta os dois protagonistas que encerrarão o longa de forma inesperada, ousada e irônica. Machistas e mordazes, eles defendem que a traição é uma espécie de romantismo, em que se busca o verdadeiro amor da sua vida.

Já em “A Boa Consciência” (de Michel Hazanavicius), acompanhamos Laurent (Dujardin), um homem casado que, viajando a negócios e hospedado em um hotel, tenta a todo custo conseguir levar alguma mulher para a cama. Sem o dom da conquista, tenta usar as técnicas de Antoine (Lellouche), um cadeirante sedutor. Entre contatos com prostitutas, visitas fortuitas a quartos de mulheres e masturbação, ele busca formas de sanar seu apetite sexual.

“Lolita” (de Eric Lartigau) mostra a vida de Eric (Lellouche), que descobre as desvantagens de se envolver com uma adolescente  (Clara Ponsot), com todas as diferenças de universos e comportamentos, em um choque de gerações impossível de contornar.  O mais maduro dos episódios, “A Questão” (de Emmanuelle Bercot ) foca na vida do casal Olivier (Dujardin) e Lisa (Alexandra Lamy), juntos há 15 anos, colocando as cartas na mesa sobre a traição que cada um cometeu, com detalhes e rancores postos à prova.

O filme ainda oferece pequenas esquetes, de situações nada convencionais, como “Simon”,  em que um pai de família é flagrado na garagem praticando sadomasoquismo com a amante; “Bernard”, em que um homem vai parar no hospital com o pênis preso dentro da amante e recebe a visita da esposa; e “Thibault”, na qual um marido (o astro Guillaume Canet) tenta eliminar os vestígios da estadia da amante antes da chegada da esposa ao apartamento. Todos os personagens se unem no episódio “Infiéis Anônimos”, na qual a discussão da traição é posta como um distúrbio psicológico tratável. Com direção de Alexandre Courtès, todos apelam para o humor rápido, visual e repleto de gags.

Neste emaranhado de personagens e situações criados por inúmeras mãos, “Os Infiéis” é um produto irregular, mas que não deixa de divertir. Recheado de machismo, traz personagens femininas que se reduzem à passividade ou à histeria (com exceção de “A Questão”, o único dirigido por uma mulher, que coloca em xeque o lado da mulher e dá voz feminina à questão do sexo pelo sexo). Porém, com tanto a se discutir, as histórias apelam para o viés sexual – e muitas vezes, sem a presença da culpa – em que mentiras e joguetes são feito automaticamente por aqueles acostumados às puladas de cerca. E o orgulho de ser um conquistador casa com o ego, em uma apresentação superficial. Claro que isso deve-se ao estilo bem humorado de abordagem, mas poderia ser melhor.

Outros episódios, porém, se destacam pela força de certas cenas: impossível não destacar o retorno de Eric à família ao perceber o grande erro do seu envolvimento com a jovem Inès ou a câmera na mão que percorre a tensa discussão entre o casal Olivier e Lisa sobre seus casos extraconjugais (com atenção especial para Alexandra Lamy, que retrata o sorriso amarelo de olhos marejados enquanto ouve o marido falar sobre a amante, até então, desconhecida).

Carregado de sexualidade, “Os Infiéis” traz cenas de sexo críveis e Jean Dujardin e Claude Lellouche bem à vontade como vieram ao mundo. Porém, mesmo o puro entretenimento traz uma ponta de verdade em certos diálogos, como a concepção que os homens têm de que as mulheres geralmente não fazem sexo sem estarem apaixonadas e, quando o fazem, são desvalorizadas. Bem ao contrário dos homens que, quanto mais amantes tiverem, mais pontos ganham no status social.

Claro que ali a ideia não é aprofundar o assunto mas, sim, tratar com leveza e bom humor. Porém, o filme caminha, caminha e, em sua grande parte, não chega a lugar algum. É como se dissesse: “os homens vão trair, as mulheres não vão saber (ou vão fingir que não sabem) e pronto”.  O curioso é observar o epílogo (dirigido por Dujardin e Lellouche) que, apesar de caricato e exagerado, tem a intenção de colocar uma pulga atrás da orelha daqueles que se orgulham de pensar com a cabeça de baixo.

Léo Freitas
@LeoGFreitas

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