Existem pessoas que, por mais destrutivas que sejam, possuem um carisma tão magnético que as tornam irresistíveis. Do mesmo jeito, algumas obras literárias se tornam tão seminais que se convertem em verdadeiras “vacas sagradas”, consideradas intocáveis por serem objetos de culto pessoal para as massas. Desnecessário dizer que, quando esses dois conceitos se encontram, geram temas tão fortes que se torna impossível para alguns cineastas corajosos (ou loucos) resistirem a eles.
Mas “On The Road” resistiu por um bom tempo antes de ser adaptado para o cinema, quase como se estivesse esperando o tempo e os envolvidos certos. Publicado em 1957, o livro contava a historia das viagens de seu autor, Jack Kerouac, e do amigo deste, Neal Cassady, pelos EUA. Assim como todos os que aparecem no texto autobiográfico, os dois, figuras-chave da chamada Geração Beat, tiveram seus nomes trocados. Então nasceram seus alter-egos, Sal Paradise e Dean Moriarty, protagonistas deste novo filme do brasileiro Walter Salles, “Na Estrada”.
Vivido com uma energia ímpar por Garret Hedlund, Dean é aquele indivíduo perigosamente carismático aludido no primeiro parágrafo deste texto. Engraçado notar que o nome de Moriarty alude ao gênio distorcido criado por Sir Arthur Conan Doyle como contraponto de Sherlock Holmes, sendo que este Moriarty dividiu sua vida entre a biblioteca pública, a boemia e a cadeia.
Ousado, inteligente, sedutor e completamente sem limites, é ele o motor que move este road movie e impulsiona o impressionado Sal em suas jornadas aventurescas pelos EUA, repleta de pessoas interessantes, corações partidos e experiências alucinantes (e alucinógenas).
Interpretado com deslumbre por Sam Riley, Sal Paradise surge para nós como um homem passivo, maravilhado com o improviso com o qual Dean leva sua vida. A passividade do nosso narrador, que espelha, de certa forma, o público, tem como sua razão a família, fator que marca a diferença primordial entre os dois pilares desta história.
Enquanto Moriarty vaga sem rumo em uma busca quixotesca por seu pai (e por si mesmo) e se vê obrigado a lançar de truques nem sempre lícitos para sobreviver, Sal tem sempre o porto seguro de sua mãe para recebê-lo de braços abertos após suas desventuras. Sem jamais ter tido qualquer estrutura familiar, Dean se mostra incapaz de criar raízes, seja com a respeitável Camille (Kirsten Dunst), mãe de seus dois filhos, ou com sua jovem primeira esposa e companheira de libertinagens Marylou (Kristen Stewart).
Há uma dose de inveja mútua entre os dois protagonistas que acaba por defini-los. Sal gostaria de ter a capacidade de Dean de ser livre e sem amarras, mas, por mais que se esforce, jamais será assim. Por outro lado, Dean gostaria de ter uma família como o amigo, mas a sua personalidade torna impossível para ele se ver ancorado a qualquer coisa senão aos seus próprios desejos. Essa ansiedade animalesca do personagem é muito bem transmitida por Hedlund, conquistando o público assim como aos demais personagens.
A estrutura do roteiro de Jose Rivera é quintessencial de road movies, remetendo diretamente a “Diários de Motocicleta”, seu trabalho anterior com Walter Salles, ao mostrar as andanças dos protagonistas e seus crescimentos pessoais através de seus encontros com figuras pitorescas. A despeito de ótimas participações de nomes como Kirsten Dunst, Alice Braga, Steve Buscemi, Amy Adams e Terrence Howard, seus personagens não passam de pequenas paradas em meio à evolução dos nossos anti-heróis.
Apenas a Marylou de Kristen Stewart e o Old Bull Lee de Viggo Mortensen chegam perto de ter a mesma importância daqueles dois para a trama. Stewart se mostra bastante à vontade neste difícil papel, dificuldade esta vinda da relação extremamente aberta de Marylou com Dean e Sal. A despeito desse desafio, atriz se entrega com extrema dedicação ao papel, mostrando certa inocência mesmo em meio ao caos.
Enquanto isso, Mortensen surge como o experiente e louco conselheiro de Sal, um dos poucos a enxergar o egoísmo de Dean por trás daquela figura fascinante, considerada quase que como sagrada pelo alter-ego de Kerouac. Quem também se destaca é Tom Sturridge, cuja participação curta como Carlo (ou Allen Ginsberg) é extremamente sensível e tocante, especialmente no momento em que admite para Sal seu amor não correspondido por Dean.
O script lida de maneira assombrosa com a dinâmica entre os personagens, mas esquece de mostrar um pouco mais do que eles deixaram para trás, reduzindo a geração beat às inconsequências de uma vida desregrada e não nos mostrando como aquelas pessoas contribuíram para a formação de um movimento cultural. Sim, foi uma escolha de Salles e Rivera focar a história em suas relações pessoais, mas olvidar quase que por completo de suas obras acaba por esvaziar aquelas figuras como indivíduos.
Sales imprime um ritmo bastante naturalista e livre à narrativa, sem dúvida inspirado pela própria prosa de Kerouac que se caracterizava por sua liberdade de forma. A montagem, a despeito de alguns momentos mais arrastados, especialmente no último ato, acaba ganhando velocidade por conta da trilha de Gustavo Santaolalla (outro egresso de “Diários…”), cujas composições aqui são marcadas pelo uso do bebop, subgênero do jazz caracterizado pelo improviso e viras repentinas que casa perfeitamente com a vida e obra dos beatniks.
A recriação dos ambientes das décadas de 1940 e 1950 é magnífica, capturadas através de muitas tomadas realizadas com câmera na mão e uma fotografia caracterizada por tons mais escuros, ressaltando o caráter underground das andanças de Dean e Sal.
Uma das primeiras perguntas feitas pelo filme é “sabe para onde está indo, ou está apenas indo?”. Pois bem, como em qualquer jornada, o importante não é o destino, mas o que aprendemos pelo caminho. A última e triste troca de olhares dos protagonistas nos mostra que eles finalmente compreenderam um ao outro, de maneira que não seria possível não fosse o período que passaram juntos na estrada.
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Thiago Siqueira é crítico de cinema do CCR e participante fixo do RapaduraCast. Advogado por profissão e cinéfilo por natureza, é membro do CCR desde 2007. Formou-se em cursos de Crítica Cinematográfica e História e Estética do Cinema.



























7 Comentários
Acho que não merece essa nota, o filme é bom sim, mas peca pela “enrolação”, ele é extremamente massante e sem clímax. Não li o livro, mas achei isso do filme.
Concordo plenamente não merece essa nota, eu também não li o livro, aliás deve ser interessante ler mas assistir o filme, foi massante. NÃO GOSTEI. Para ver sexo, abusar de drogas e whisky, é só ir para debaixo de algum viaduto de SP ou RJ.
Apos assistir o filme imaginei que o livro deve ser bem interessante e pesquisei um pouco e so então fui entender da importância daquela historia e então entendi um pouco mais do filme e decidi que vou voltar a ver o filme apos ler o livro.
Quem vai assistir o filme sem conhecer o movimente beat e a importância do livro para a época, perde mais da metade da diversão e acaba achando o filme um pouco cansativo (oque infelizmente foi o meu caso).
ps. impressionado com a atuação de Kristen Stewart e coragem de pegar esse personagem, assim como tambem a atuação de Garret Hedlund, creio que com esses dois exemplos podemos perceber o quanto o diretor pode ajudar na atuação.
Concordo. Acho que esse filme conversa mais com público americano. Quem não for buscar um pouco sobre aquela época ou quem não era dessa cultura vai achar o filme massante.
Vou assistir!
Walter Sales representa bem nossa nacionalidade na arte cinematográfica.
Gostei muito do filme, li o livro antes mas acho que mesmo sendo longo o filme consegue ser muito bom. A história é maravilhosa!
Tipo “você nunca leu On The Road??”!