Nova-iorquino com orgulho, Woody Allen se consagrou escrevendo, dirigindo e atuando em comédias situadas, na grande maioria das vezes, em sua própria cidade natal. Porém, recentemente o cineasta tem se aventurado por terras europeias, de onde a cultura sempre o fascinou. É fácil perceber o quanto esses novos ares têm feito bem à sua criatividade enquanto roteirista, libertando-se de certos temas centrais e estruturas narrativas que o definiram ao longo das décadas, sem que com isto perca seu tom característico.
O enredo de “Para Roma, com Amor” segue diferentes histórias independentes que ocorrem na capital italiana. O que parece uma trama confusa e sem relação entre os eventos, na verdade é uma bela homenagem à cidade que Allen tanto ama. Isto é realizado a partir de sua incrível capacidade de transformar o ambiente em personagem. As pessoas, a arquitetura, as pequenas ruas, os espaços aparentemente banais, etc. funcionam como ponto de partida e posterior sustentação dos arcos dramáticos, além de marcar presença frequente e de forma mais explícita nos próprios diálogos.
Após seis anos reservando-se apenas ao trabalho por atrás das câmeras, Woody Allen volta a atuar em seu estilo costumeiro – fato este que anima mais do que entedia, visto a diversão garantida que sua persona oferece. Neste caso, sua personalidade é desmembrada entre vários protagonistas, possibilitando um maior desprendimento do artista na construção e desenvolvimento destes. O tipo neurótico-ateu se limita apenas ao personagem de Allen, distribuindo as características de maior destaque na trama entre vários outros alter-egos: Antonio (Alessandro Tiberi), o inseguro; Jack (Jesse Eisenberg), o apaixonado; e Leopoldo (Roberto Benigni), o monótono. Todos os três atores – principalmente Benigni, cujas expressões e trejeitos naturais já lembram muito os de Allen – representam bem seus tipos, guardando sutis semelhanças entre si. Junto à atmosfera da cidade, essa congruência nas atuações forma o elo entre as diferentes histórias, sendo muito útil na manutenção do caráter “tragicômico” do longa.
O nível do humor está alto como sempre. A psicanálise, o vazio existencial e outras temáticas, que sempre têm um espaço reservado nas obras de Woody Allen, desta vez são mais pontuais e menos evidentes. Apesar da funcionalidade de algumas piadas depender de um conhecimento prévio sobre determinados temas, a grande maioria é totalmente acessível ao espectador comum, sendo fruto da própria situação em que os personagens se encontram. A comédia física, tão marcante na primeira fase do diretor, também encontra espaço aqui, divertindo ainda mais quando se manifesta em meio a diálogos convencionais, variando o tom de modo bastante oportuno.
O roteiro satírico, inusitado e, por vezes, surreal, mostra uma desenvoltura criativa imensa, brincando com subgêneros que vão desde o realismo fantástico até a comédia pastelão. Sua estrutura, que passeia por um “conto” e outro sem definição temporal, renova o interesse do público constantemente em cada sequência. Isto também é mérito da montagem rítmica, que resolve as gags de momento em cada arco ao mesmo tempo em que suspende a ação principal deste para retornar posteriormente de forma menos brusca, intermediado por outras histórias que trabalham segundo a mesma lógica.
Talvez o único elemento frustrante no longa seja o modo como o arco dramático de alguns personagens encontram resolução, sendo exposta uma lição de moral totalmente desnecessária. O didatismo destas ocasiões não chega a comprometer a validade do brilhante desenvolvimento do conteúdo, mas certamente é vazio de sentido quando tenta esclarecer o óbvio.
O solo europeu tem rendido boas obras a Woody Allen, que se atreve mais do que se atém e nos presenteia anualmente com uma obra imperdível. “Para Roma, com Amor” é a prova mais recente de que o velho cineasta ainda possui uma alma jovem que gosta de experimentar e está longe da acomodação. Brincando com as diversas formas de abordar conteúdos pessoais que nós já conhecemos há muito, Allen ainda desperta o interesse e a expectativa dos fãs.
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Thiago César é formado em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), mas aspirante a cineasta. Já fez cursos na área de audiovisual e realiza filmes independentes.



























4 Comentários
O filme é maravilhoso. Roteiro, direção, atuações, momentos cômicos. A única coisa que me incomodou foi realmente o que você disse, o didatismo na resolução de alguns núcleos. Principalmente no caso do personagem do Benini, aquela explicação sobre celebridades instantâneas é desnecessários, pois fica clara durante todo o desenvolvimento do personagem.
Mas isso não compromete a qualidade do produto final que vale a pena ser conferido. Mas confesso que ainda prefiro “Meia Noite em Paris”.
Eu vi o filme hoje e me decepcionei um pouco.
O arco que tinha o Woddy Allen foi muito engraçado e o cantor de opera foi genial.
Mas as partes do Roberto Benigni foi desnecessaria e sem nexo nenhum, assim como as lições de moral no final que eu dispenso.
Fui com uma expectativa muito alta pq tinha visto Midnight In Paris e Noivo Neurotico antes e mesmo gostando do filme esperava mais. =)
O filme é de fato brilhante, mais uma obra prima de Woody Allen, mais um presente e homenagem dele a Europa. No entanto, o que me incomodou no filme foi a tentativa de atribuir sensualidade ao personagem da Ellen Page. Acho ela uma gracinha, uma fofura, linda, mas tão sexy quanto um pão integral. Tirando isso, tudo ok.
Também imaginei isso, mas depois pensei que ela seria alguém sexy para a persona de Woody Allen. Ou mesmo mais um sarcasmo dele.