Avaliação: 4

Ideias para bons filmes podem vir de qualquer fonte. É só olhar o caso de “Piratas do Caribe – A Maldição do Pérola Negra”, que veio de uma atração dos parques da Disney. Mas é conceitualmente muito difícil se tirar uma trama decente do conceito do jogo Batalha Naval. Por mais que a Hasbro e sua assessoria digam o contrário, o que originou este “Battleship – A Batalha dos Mares” foi aquele joguinho que ficou marcado pela punchlineAfundou meu encouraçado!”.

Com o sucesso comercial de suas marcas “Transformers” e “G.I. Joe” nos cinemas, a Hasbro resolveu investir no lançamento de outras de suas propriedades na telona. No entanto, ao contrário das já citadas franquias, que tinham histórias criadas junto dos lançamentos das respectivas linhas de brinquedos (além de diversos desenhos animados e HQs), nunca ninguém se incomodou muito em criar uma narrativa que justificasse o porquê das frotas do jogo original estavam se enfrentando.

Assim, olhando para os bilhões que os longas com Optimus Prime e Bumblebee renderam nas bilheterias, os executivos tiveram a brilhante ideia de fazer desta nova empreitada mais um longo espetáculo de recrutamento para as forças armadas norte-americanas, com toneladas de efeitos especiais e não ligando muito para essas coisas de roteiro, atuações ou lógica interna.

Focando a propaganda militar na Marinha estadunidense, os roteiristas Erich Hoeber e Jon Hoeber (do eficiente “Red – Aposentados e Perigosos” e do fraco “Terror na Antártida”) foram chamados para escrever o arremedo de história que liga as cenas de ação extremamente dispendiosas que vemos durante a projeção, enquanto o diretor Peter Berg (“Hancock”) se reduziu a fazer um cover de Michael Bay para os produtores.

Na “trama”, o problemático Alex Hopper (Taylor Kitsch) é arrastado para servir na Marinha junto de seu irmão, o Comandante Stone Hopper (Alexander Skarsgård), depois que este desiste de aturar as confusões do caçula. Alex se torna rapidamente um oficial, mas não consegue conquistar o respeito do seu irmão e do Almirante Shane (Liam Neeson) que, além de ser seu superior, é pai de sua namorada, Sam (Brooklyn Decker). Durante uma série de exercícios navais envolvendo várias nações, ocorre um ataque alienígena e começa todo o caos.

Os aliens chegam à Terra e… pronto. Jamais sabemos qual o interesse deles no nosso planetinha azul. Aliás, eles não teriam muitos motivos para invadir um lugar cuja luz solar é NOCIVA para eles. Sim, mais uma raça de seres tecnologicamente avançados que atacam um ambiente inóspito para eles. Devem ser primos dos ETs de “Guerra dos Mundos” (derrubados por micróbios) e dos de “Sinais” (cuja fraqueza era APENAS água).

Sem jamais criar um antagonista que desperte pena, raiva ou simpatia, a narrativa se mostra completamente unilateral, algo parecido com o que ocorreu em “Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles”. Considerando que os personagens humanos  são completamente rasos e suas falas e “dramas” consistem unicamente de clichês, provavelmente não foi a melhor das ideias.

Alex é um protagonista extremamente aborrecido e suas ligações com os demais personagens jamais ganham qualquer destaque. O romance do protagonista com Sam não decola e mesmo seus relacionamentos com Stone e com o Almirante não são bem explorados. Isso porque o filme trata logo de separá-lo de suas figuras de autoridade e interesse amoroso sem muita cerimônia.

Stone e Shane jamais têm muita chance de fazer qualquer coisa com Alex além de gritar com ele – justificadamente, aliás. A culpa realmente não jaz em Taylor Kitsch, Alexander Skarsgård ou Liam Neeson. Por melhores atores que sejam, eles estão presos a um roteiro simplesmente morto, que não lhes dá a menor chance de brilhar em momento algum.

Na ala feminina, temos a muito alardeada estreia no cinema de Rihanna, que é triste, para dizer o mínimo. Além de atuar sempre no mesmo tom, sua personagem serve basicamente para participar de pobríssimos diálogos expositivos (“Ele não gosta nada dele!”) e de momentos em que os roteiristas pareciam não ter noção do que estavam escrevendo, como quando a colocaram dizendo, em frente do corpo de um alien morto, que o pai dela sabia que existia vida extraterrestre, em uma cena deslocada e constrangedora. A impressão que fica – e que provavelmente corresponde à realidade – é que a cantora foi escolhida para o papel apenas para atrair público, não por ser a melhor opção para este.

Já Brooklyn Decker está lá para propósitos estritamente masturbatórios, como comprova a cena que a coloca em cima de Alex, com a câmera de Berg ressaltando seu belo conjunto de comissão de frente e ala das baianas sempre que possível. Interpretação passa longe dos propósitos do diretor para a guria aqui. A moça ainda passa boa parte do filme interagindo com Gregory D. Gadson, militar que perdeu as pernas servindo no Iraque e que ganhou um papel de destaque na fita representando os soldados que sofreram ferimentos graves em combate. Por mais que Gadson mereça nosso respeito, ele simplesmente não é um ator, apresentando um desempenho sofrível na tela.

As cenas de ação, o que realmente interessa para mais de 70% do público pagante desse tipo de filme, são maçantes e repetitivas, sem trazer nada de novo para quem já viu qualquer película do gênero nos últimos tempos. Há ainda o agravante que o público, por não conhecer ou se importar os personagens de nenhum dos lados da batalha, não sente o peso dos conflitos, sem ocorrer tensão no decorrer dos confrontos. Sem contar que tentar quebrar a janela de uma nave espacial alienígena à bala é meio difícil de engolir até para o que vinha sendo mostrado até ali.

As únicas vantagens de “Battleship – A Batalha dos Mares” sobre a franquia “Transformers” é o fato de que, aqui, os marinheiros veteranos ganham um tratamento mais digno que o dado a Buzz Aldrin em “O Lado Oculto da Lua” (embora a cena destes andando em câmera lenta chegue bastante perto do risível) e a ausência de patéticas tentativas de alívios cômicos escatológicos ou racistas, como Bumblebee “urinando” ou os gêmeos do segundo longa dos robôs disfarçados.

Peter Berg até mereceria algum crédito, haja vista que filmagens aquáticas são realmente complicadas, mas considerando a falta de originalidade com que emprega a pirotecnia na tela e o resultado final da fita, esse crédito é anulado e a única coisa que este “Battleship – A Batalha dos Mares” consegue atingir é… água.

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Thiago Siqueira
 é crítico de cinema do CCR e participante fixo do RapaduraCast. Advogado por profissão e cinéfilo por natureza, é membro do CCR desde 2007. Formou-se em cursos de Crítica Cinematográfica e História e Estética do Cinema.