Avaliação: 3

Ainda em 1975, Sidney Lumet lançou “Um Dia de Cão”, uma de suas obras-primas. O filme, baseado em fatos reais, além de apresentar uma dramaticidade comum a produções que retratam assaltos a banco, possui um tom cômico particular que o faz uma longa especial. Se “Assalto em Dose Dupla” não tenta fazer exatamente o mesmo trinta e seis anos depois, busca ao menos transformar semelhante fato tido como trágico em motivo para gargalhadas. No entanto, a falta de um humor refinado do roteiro e a pouca habilidade do diretor Rob Minkoff com as câmeras fazem do longa algo bem mais doloroso para o espectador do que para os próprios reféns.

A trama centra-se em uma rara coincidência: dois grupos de bandidos decidem assaltar o mesmo banco no mesmo dia e na mesma hora. Uma falha provocada por um programa de atualização da segurança do local permite o inicial sucesso de tais tentativas. Mas os ladrões não poderiam ser mais diferentes. Enquanto o trio, mais equipado e especializado, deseja arrombar o cofre principal, uma dupla caipira mal intencionada está de olho no dinheiro dos caixas eletrônicos.  A falta de organização dos planos das “gangues”, porém, faz com que os reféns sejam obrigados a presenciar as mais medonhas cenas, como explosões precipitadas e flertes inconvenientes.

Escrito pela dupla responsável pela franquia “Se Beber, Não Case!”, Jon Lucas e Scott Moore, o roteiro é o que há de pior nesta comédia de mau gosto. Adotando o mesmo caminho de bizarrices que os guiou no filme citado, os roteiristas encontram na ocasião uma oportunidade para desconstruir valores e situações. No entanto, suas escolhas cômicas são tão pobres que torna-se difícil encontrar razões para gargalhar, ainda mais com um protagonista desastrado e nada carismático que não passa de um escopo didático da trama para explicar a si mesmo quando ela já está completamente perdida.

A função fica a cargo de Patrick Dempsey, no papel do desconhecido Tripp, um homem que inexplicavelmente (advérbio que circunda todo o filme) adora moedas em detrimento de cédulas. Completamente perdido em sua interpretação, Dempsey é obrigado a ficar circulando por todos os espaços do banco em busca de respostas para alguns fatos “intrigantes” deixados pela história. Mas o que mais incomoda é a sua inquietude artificial, que chega ao ponto máximo de estresse depois de um repentino, mas simples, beijo na boca dado por Ashley Judd (a melhor em cena). Sim, a sequência soa ridícula.

O mesmo pode ser dito da construção do suspense pelo roteiro. Na verdade, a impressão é de que perceberam que a comédia não renderia tanto e resolveram criar um desconhecido e verdadeiro articulador do crime, que seria ninguém menos do que o maior e mais procurado ladrão de banco dos EUA. São tantas pistas e tão poucas explicações que ficaria impossível se deparar com um desfecho não tão ruim como o apresentado. A surpresa acontece, juntamente com uma enorme decepção pela falta de graça da resolução exibida.

Falando no assunto, “Assalto em Dose Dupla” é permeado por piadas que raramente funcionam. A maioria delas fica a cargo do quase “casal” de bandidos interioranos, que se denominam experientes na “arte” que desempenham. A opção é por um humor mais escrachado, que começa pelo próprio nome da dupla: Geléia e Manteiga de Amendoim. Isso mesmo!  Logo percebemos que a nomenclatura é o de menos graças aos seus atos imbecis, que incluem permitir que um refém roube sua arma e desmaiar ao perceber que a própria orelha foi decepada.

A situação fica ainda pior devido à falta de talento do diretor Rob Minkoff, que parece ter mais sucesso no comando de bichos no cinema (é responsável por “O Rei Leão” e “O Pequeno Stuart Little”). Sem ritmo algum, o filme é daqueles que cansa já em sua primeira hora. Aceitando todas as brincadeiras propostas pelos roteiristas, Minkoff faz de seu assalto a banco uma ação nada crível, que mais parece articulada por ladrões treinados por Renato Aragão. A comparação com “Um Dia de Cão” é, definitivamente, o melhor elogio que esta péssima comédia pode receber.

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Darlano Dídimo é crítico do CCR desde 2009. Graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC), é adorador da arte cinematográfica desde a infância, mas só mais tarde veio a entender a grandiosidade que é o cinema.