Avaliação: 9

Quando se pensa em filmes acerca do uso de drogas por jovens, duas produções antagônicas se destacam. De um lado fica “Trainspotting”, obra de 1996 dirigida por Danny Boyle que, em seu tom politicamente incorreto, realiza quase uma apologia aos entorpecentes. Do outro, está “Réquiem para um Sonho”, longa de 2000 do cineasta Darren Aronofsky, no qual são exibidas as péssimas consequências do vício para os usuários e sua família. Gus Van Sant, porém, ainda em 1989, dirigiu “Drugstore Cowboy”, seu segundo longa, que opta por não levantar bandeiras ao buscar entender os motivos que levam quatros jovens a nunca encararem a responsabilidade de frente.

São eles os casais: Bob (Matt Dillon) e Dianne (Kelly Lynch); Rick (James LeGros) e Nadine (Heather Graham).  Sob liderança do primeiro, a “gangue” organiza bizarros roubos a farmácias locais em busca de saciar seus vícios por drogas pesadas. Depois da tensão e do risco, vem o momento de prazer secreto, que supera qualquer outro compartilhado com a namorada(o). No entanto, a polícia já conhece bem a estratégia do grupo, passando a vigiá-los constantemente. Por isso mesmo, os quatro decidem partir para o interior em busca de novas aventuras e libertação. E realmente encontram, juntamente com muita adrenalina e reflexões que fazem alguns deles reverem seus conceitos de vida.

Mas não pense que o filme se trata de uma obra que acompanha dramaticamente o amadurecimento de seus personagens. O roteiro de Van Sant e Daniel Yost, adaptado de livro de James Fogle, propõe uma história leve que acompanha os dias de dois casais de adultos que ainda não se deram conta que cresceram. Os momentos de curtição ainda não passaram. Nem mesmo a prisão de alguns deles despertou-os para a realidade. Sem julgá-los ou condená-los, a trama exibe jovens inocentes que não querem saber de nada além de ter em mãos seus miligramas de entorpecentes quando sentem vontade de utilizá-los. Chegam até a ser carismáticos.

A simples direção de Gus Van Sant, que ainda não havia se arriscado em suas experimentações narrativas e técnicas, colabora para que entendamos e até achemos graça das loucuras articuladas por Bob e companhia. Não há maldade em nenhum deles. Desejam apenas se divertir. Até a forma em que organizam seus roubos revela que não passam de um bando de crianças, que estranham quando têm de lidar com a morte pela primeira vez. E o que dizer de suas superstições e causos? Simplesmente hilários. Chegam ainda a armar uma armadilha para os policiais que os vigiam apenas para apreciar a engraçada confusão da janela do apartamento.

Em alguns momentos, o cineasta embarca em suas viagens, especialmente nas do protagonista, que não esconde seus traumas e medos. Mas Van Sant faz tudo de maneira bem descontraída, utilizando-se de estratégias visuais pobres que condizem com o tom leve da narrativa. Até mesmo as cenas de ação, quando a trupe se arrisca por farmácias e laboratórios de hospitais, guardam seus momentos cômicos, como a instantânea melhora de Nadine depois de um fingido ataque de epilepsia ou quando a mesma não sabe o que fazer com uma gaveta abarrotada de remédios usurpados.

Contando com a melhor atuação de Matt Dillon em toda a sua carreira, “Drugstore Cowboy” sabe ainda demonstrar a reabilitação de seu personagem principal sem soar piegas (não temos clínica ou coisas do tipo, apenas semanas longe da metadona, como sempre gosta de ressaltar Bob). Na verdade, é exatamente nestes momentos em que começa a ironia do filme e quando verdadeiramente a obra revela suas intenções. Com um desfecho que dialoga com sua primeira sequência, o longa universaliza a condição dos jovens e mostra que eles acabaram de viver o momento da vida deles, o que jamais retornará. As drogas foram apenas um elemento coadjuvante.

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Darlano Dídimo é crítico do CCR desde 2009. Graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC), é adorador da arte cinematográfica desde a infância, mas só mais tarde veio a entender a grandiosidade que é o cinema.