Avaliação: 5

Em época em que a mitologia vampiresca ganha poucos momentos de brilhantismo (especialmente com o sueco “Deixe Ela Entrar”) e outros tantos de pieguice (graças à adaptações de pobre literatura pré-adolescente) nos cinemas, uma visita ao passado revela que uma das mais cultuadas obras sobre o assunto não sobreviveu ao passar dos anos. “Quando Chega a Escuridão”, de 1987, segundo longa-metragem de Kathryn Bigelow, mantém sua essência western, mas deixou de provocar medo, angústia e sorriso no espectador, não passando de um entretenimento descartável bastante inferior a “Os Garotos Perdidos” (mesmo sendo dirigido por Joel Schumacher), filme de contexto semelhante lançado no mesmo ano.

Ambas as películas optam por levar suas tramas ao meio-oeste americano. Os forasteiros aqui, porém, não empunham armas ou montam cavalos. Possuem grandes caninos, instinto selvagem e absoluto terror da luz do sol. Nesta esperta mistura de gêneros, tudo parece possível: a aventura pode dar lugar ao terror, que logo pode ser substituído pela comédia, a qual pode desaguar no trash (que o diga Robert Rodriguez em “Um Drinque no Inferno”). O filme de Bigelow, no entanto, acaba não fazendo bom uso de nenhuma dessas opções, vacilando ainda ao querer contar uma história de amor capenga de desfecho para lá de contraditório com a proposta despretensiosa da história.

Na verdade, uma mera paquera transforma a tranquila vida do jovem protagonista Caleb Colton (Adrian Pasdar) em um conto de terror. Os olhares para a bela e misteriosa Mae (Jenny Wright) viram beijos, que resultam em uma mordida providencial da moça. Caleb, então, não só torna-se um vampiro, como também é forçado a conviver com a família de Mae, um bando formado por mulheres, homens e crianças sem escrúpulos, que aguardam o anoitecer apenas para sair em caça de bons pescoços e, eventualmente, causar incêndios depois de um show de torturas e mortes. No entanto, a natureza mais tranquila do rapaz leva a inevitáveis confrontos entre a gangue.

Assim como seus personagens principais, “Quando Chega a Escuridão” odeia luz, é sujo e, por vezes, sensual. Unindo características típicas da mitologia dos vampiros (retirando o ar aristocrático que muitos deles já exalaram na tela grande) com outras ligadas ao submundo habitado por drogados e prostitutas, a direção de Kathryn Bigelow constrói um universo obscuro que não tem dono nem leis, aonde a polícia dá as caras apenas para ser completamente ignorada pelos vilões. No entanto, as sensações de instabilidade e expectativa para o pior surgem em momentos isolados, que não duram por muito tempo, logo substituídos por diálogos românticos e ameaças repetitivas de mínimo efeito narrativo.

Na tentativa de realizar algo original, que acompanha o ponto de vista dos vampiros, o roteiro da própria Bigelow e de Eric Red (“A Morte Pede Carona”) joga fora o suspense que a história poderia apresentar. A situação fica ainda pior quando percebe-se que não há nada de especial ou atraente na família de Mae. São todos seres desprezíveis, sem um mínimo de humor e carisma, incapazes até de demonstrar uma crível compaixão por quem convive há anos ou mesmo décadas. Por isso mesmo, a trama amorosa perde força por não possuir convincentes entraves que possam impedi-la de acontecer.

Mas é preciso ressaltar que a relação entre Mae e Caleb começa bem. A falta de pudor inicial, porém, é deixada de lado depois que chatos momentos de romantismo e inocência são inseridos. Breves sequências que exibem as mudanças orgânicas sentidas pelo protagonista até chegam a chamar a atenção. A partir de então, a trama exibe situações banais e nada surpreendentes que deixam explícita a inexperiência de seus roteiristas, que ainda tratam de inserir desnecessariamente na história o pai e a irmã de Caleb, ocasionando um climax tão decepcionante quanto todo o restante do filme, só superado pelo medonho final, que está mais para “Crepúsculo” do que para “Deixe Ela Entrar”. Felizmente, o tempo deu a Bigelow amadurecimento suficiente para afastar-se de filmes como este e realizar outros excelentes, como o premiado “Guerra ao Terror”.

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Darlano Dídimo é crítico do CCR desde 2009. Graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC), é adorador da arte cinematográfica desde a infância, mas só mais tarde veio a entender a grandiosidade que é o cinema.