Avaliação: 5

Uma das coisas que a Marvel Studios está fazendo de melhor é escolher diretores apaixonados pelo que fazem na hora de adaptar seus personagens para a telona. Favreau, Leterrier, Branagh e Johnston transbordavam entusiasmo para seus respectivos projetos e isso transparece em seus filmes. O mesmo não pode ser dito de “Lanterna Verde”, que passa longe de ter qualquer marca autoral e está mais para blockbuster genérico do que para uma aventura empolgante.

Por mais competente e gabaritado que Martin Campbell seja (e “007 – Cassino Royale” prova que ele é), parece que ele não tinha nenhum compromisso para este longa, feito no piloto automático. A despeito de ter um momento ou outro mais inspirado, nada é aprofundado ou bem explorado, com a superficialidade sendo a regra, algo fatal em um personagem cujo universo rico é sua maior força.

A história básica é a mesma dos quadrinhos da era de prata, com o ousado piloto de testes Hal Jordan (Ryan Reynolds) sendo escolhido pelo moribundo alienígena Abin Sur (Temuera Morrison) para sucedê-lo na força policial intergaláctica dos Lanternas Verdes. Dotados de um anel que canaliza a força de vontade de todos os seres vivos do universo, os Lanternas podem criar construtos de luz sólida, cujo único limite aparente é a imaginação dos usuários.

Lidando com a desconfiança do oficial mais graduado da Tropa, o sério Sinestro (Mark Strong), Jordan enfrenta um batismo de fogo: a ascensão da entidade do medo, Parallax, e o surgimento de um vilão na terra, o telepata Hector Hammond (Peter Sarsgaard), que está deveras interessado na chefa de Hal, a bela Carol Ferris (Blake Lively). Hal deve, então, enfrentar seus medos e descobrir seu verdadeiro potencial para sobreviver a esses desafios.

O ponto do filme deveria ser justamente o amadurecimento de Hal como Lanterna Verde e como pessoa, tanto que o roteiro (muito mexido, por sinal) tenta martelar isso na cabeça do espectador a cada dois minutos. No entanto, as ações que levariam a esse crescimento, como o seu relacionamento com Carol e Sinestro, suas tragédias pessoais ou mesmo seu treinamento com os colegas mais experientes da Tropa passam despercebidos durante a projeção. Figuras como os Guardiões do Universo ou o carismático Killowog passam em brancas nuvens pela projeção. Até mesmo a narração de Tomar-Re fica sem explicação (o personagem, dublado por Geoffrey Rush, é uma espécie de historiador da Tropa, algo que jamais é dito na fita).

O público simplesmente não “compra” que as simples lições de moral passadas por Carol e um tutorial de cinco minutos para o manuseio do Anel bastariam para Hal “cair na real”. A responsabilidade aí cai para o fraco script e para o diretor Campbell, que simplesmente falham em estabelecer qualquer peso ou ligação emocionais na produção, mesmo nas de ação que, em sua maioria, não convencem.

Um exemplo claro da falta de esmero da produção é a cena em que Sinestro reúne um esquadrão com “os melhores Lanternas” e sai à caça de Parallax. Ora, em momento nenhum vemos o potencial daqueles oficiais em batalha, com a tal “cena de combate” sendo mais narrada por Sinestro do que vista pelo público, um pecado gravíssimo em qualquer longa dessa escala.

Não ajuda também o fato de Blake Lively ter (pelo menos neste trabalho) o carisma de uma estátua e alguns dos maiores nomes do elenco de apoio, incluindo Angela Bassett e Tim Robbins, entrarem sem fazer muita coisa e serem postos para fora do filme sem maiores cerimônias.

Ryan Reynolds até que convence como um corajoso herói de ação. Não duvidamos um minuto de sua coragem. O problema está no extremamente artificial dilema de Hal Jordan em abraçar seu destino, algo inexistente nos quadrinhos e nada condizente com o herói. Com exceção dessas cenas (toscas, por sinal), Hal foi bem transposto, com até mesmo a inspiração para seus construtos sendo bem construída.

Também é possível destacar o trabalho de Mark Strong como Sinestro. O mesmo não pode ser dito, no entanto, do aproveitamento do Lanterna veterano na tela, com a sua possível evolução tendo sido enfiada ali de maneira apressada demais. Quem se sai melhor no elenco é Peter Sarsgaard, cujo Hector Hammond possui, de fato, um arco bem desenvolvido, com o ator apresentando uma atuação bastante eficiente, o que se reflete até mesmo em seus trejeitos e no seu andar.

Os efeitos especiais funcionam de maneira razoável. Até mesmo os mais inverossímeis acabam por reforçar o ar de fantasia que a história possui, algo ressaltado por uma direção de arte inventiva. A arrastada montagem do longa também falha ao estabelecer o tempo em que este se passa, com as elipses sendo bastante ineficientes neste sentido. Já a trilha sonora composta por James Newton Howard não empolga, sendo esquecida logo depois que o espectador sai do cinema, com o compositor se mostrando incapaz de criar um tema forte para o personagem.

Aliás, é justamente isso o que acontece com o resto do filme, mostrando a maior falha do diretor Martin Campbell. Mesmo com um universo repleto de heróis espaciais e batalhas em grande escala envolvendo luz e imaginação, o cineasta entrega um longa sem criatividade ou alegria, apenas mais um no meio da multidão de blockbusters desse período. Faltou coragem e sobrou inércia.

___
Thiago Siqueira é crítico de cinema do CCR e participante fixo do RapaduraCast. Advogado por profissão e cinéfilo por natureza, é membro do CCR desde 2007. Formou-se em cursos de Crítica Cinematográfica e História e Estética do Cinema.