Críticas   sábado, 29 de janeiro de 2011

Inverno da Alma

Ainda que super valorizado, a crueza de uma história simples e a atuação de Jennifer Lawrence rendem uma experiência interessante.

De vez em quando algumas produções independentes se destacam na indústria do espetáculo. Hollywood parece escolher a dedo quais desses filmes serão os mais comentados durante épocas de premiação como o Globo de Ouro e o Oscar, as mais populares. Assim foi com os recentes “Pequena Miss Sunshine”, “Juno” e “Transamérica”, que não deixam de ser ótimos por isso. “Inverno da Alma”, de Debra Granik, entra para essa lista.

Na trama, Ree é uma jovem de 17 anos que cuida dos dois irmãos mais novos e da mãe depressiva. É dela a responsabilidade de manter o controle da casa, já que  aparentemente perdeu sua juventude ao tomar tais responsabilidades para si após o sumiço do pai, que é envolvido com drogas e procurado pela justiça. Quando Ree e a família são avisados de que perderão a casa onde vivem nas montanhas caso o patriarca não se apresente em julgamento, a jovem começa a procurá-lo, em uma caça que tem tudo para dar errado. Os vizinhos e os desconhecidos parecem saber alguma coisa do paradeiro do pai de Ree, mas não estão seguros a dizer onde encontrá-lo.

O grande mérito do filme está na determinação da cineasta Debra Granik em torná-lo misterioso e denso. Ao passo que vemos muitas ações sem tantos significados, ao final tudo se junta na composição de uma narrativa sólida que não se preocupa muito em entregar com facilidade tudo que a protagonista precisa saber. O roteiro, baseado na obra de Daniel Woodrell, não cria uma sequência com informações úteis para compreensão do contexto, deixando apenas o público se levar para qualquer lugar.

Para o público, é importante que a protagonista consiga seu objetivo, já que estamos mercadologicamente acostumados com isso no cinema. Aqui, caso Ree não consiga o que almeja ou acabe tendo um final desastroso, não parece não importar tanto. O público chega a sentir mal por isso. Dessa forma, “Inverno da Alma” é um filme de personagem no qual creditamos a ele toda e qualquer possibilidade de desfecho. Por isso, não largamos Ree de vista (nem a diretora deixa que a larguemos), transformando-a no grande trunfo do longa.

Jennifer Lawrence está impecável na pele de Ree, dando toda a profundidade de uma jovem que tenta não se transtornar com as adversidades da vida. É dela o filme e a principal razão de assisti-lo, sendo sua indicação às premiações bastante merecida. Lawrence consegue reagir à crueza e à crueldade dos seres humanos que entram em sua vida de uma forma fria, assim como o inverno, mas sem perder o olhar adolescente. O foco da garota em sua busca é admirável, seguindo o instinto de sobrevivência. Em destaque no elenco também está John Hawkes, como o controverso Teardrop. A ele cabe ajudar ou não Ree a sobreviver ao ninho de cobras em que ela se mete.

Aliado aos bons personagens e ao elenco desconhecido, a ambientação nas montanhas traz também um clima mais confortável para o desenvolvimento da história. A diretora também acerta na trilha sonora, a  fotografia e a direção de arte, todos singelos pelo orçamento, mas que caem como uma luva para a trama. A edição é pouco exibicionista, mais preocupada em aumentar a frieza da história do que causar um adendo estético inovador à película.

Não há reviravoltas mirabolantes nem desfechos epifânicos, o que há em “Inverno da Alma” é a reflexão sobre o que contrapõe o ser humano ao ser bicho. Quem é selvagem aqui? O caráter indie óbvio da trama pode até prejudicar um pouco algumas decisões fáceis do script, mas não prejudica o desempenho final. Ainda que os críticos internacionais tenham visto no longa um potencial além do que ele possui, este é um filme apenas correto e que cumpre o objetivo de causar desconforto.

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Diego Benevides é editor geral, crítico e colunista do CCR. Jornalista graduado pela Universidade de Fortaleza (Unifor), atualmente é pós-graduando em Assessoria de Comunicação e estudioso em Cinema e Audiovisual. Desde 2006 integra a equipe do portal, onde aprendeu a gostar de tudo um pouco. A desgostar também.

Diego Benevides
@DiegoBenevides

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