Quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anuncia seu vencedor de Melhor Filme Estrangeiro, os olhos mais ambiciosos de Hollywood costumam mirar o cineasta que recebe a estatueta mais cobiçada do mundo. Projetos, então, chovem em suas mãos, e é preciso muito controle para resistir aos altos salários e grandes orçamentos oferecidos, enquanto, inevitavelmente, a qualidade pulsa e clama por talento em outros escassos trabalhos, que poderão contar com a participação dos atores mais renomados do planeta.
É preciso dizer que a maioria resiste, como o espanhol Alejandro Amenábar (“Mar Adentro”) e a alemã Caroline Link (“Lugar Nenhum na África”), preservando sua independência cinematográfica. No entanto, outros se entregam à indústria, sendo o caso de Gavin Hood o mais explícito deles. O sul-africano, depois de “Infância Roubada”, mudou-se definitivamente para os EUA e realizou dois péssimos longas: “O Suspeito” foi o primeiro, e a bomba “X-Men Origens: Wolverine” veio posteriormente.
O alemão Florian Henckel von Donnersmarck decidiu seguir o mesmo caminho comercial de Hood. Diretor do espetacular “A Vida dos Outros” (em uma das melhores escolhas da Academia nos últimos anos), ele optou por refilmar a película francesa “Anthonny Zimmer – A Caçada”, substituindo Sophie Marceau e Yvan Attal pelos astros mais populares do mundo, Angelina Jolie e Johnny Depp. No entanto, a direção insegura e o roteiro fraco de “O Turista” fazem da estreia hollywoodiana de von Donnersmarck uma enorme decepção.
A trama nos apresenta primeiramente a Elise (Jolie), uma linda e sensual mulher que é observada pela Interpol por toda a capital francesa. Companheira de um dos mais perseguidos ladrões do mundo, Alexandre Pearce, ela precisa despistar a polícia para reencontrá-lo. Para tanto, Elise participa de um plano que coloca o inofensivo professor de matemática Frank Tupelo (Depp) no lugar de Pearce, já que inúmeras cirurgias plásticas teriam modificado completamente suas feições. Sem saber de nada, Frank, então, embarca em uma caçada internacional que inclui muitos tiros, sustos e uma grande reviravolta em plena Veneza.
“Charme” parece ser a palavra de ordem na direção de Von Donnersmarck na primeira meia hora de filme. Explorando toda a beleza estonteante de Angelina Jolie, que praticamente desfila por Paris, o cineasta alemão dá início a uma trama cheia de mistérios, que prefere deixar o desenvolvimento do longa responder a todos eles, enquanto sua eficiente trilha sonora busca dar ritmo a narrativa. De forma cativante, “O Turista” conquista com seu bom primeiro ato, prometendo intensificar sua ação e explorar o talento de seus protagonistas ao máximo.
Mas tudo fica na promessa. A primeira delas fracassa completamente. Tudo porque von Donnersmarck revela-se um péssimo diretor de cenas de ação, utilizando lanchas lentas como principal meio para filmar suas perseguições. Então, quando Elise surge comandando a charmosa embarcação em plena noite veneziana com o intuito de salvar Frank, esperamos que a aceleração da trilha seja acompanhada por cortes rápidos e muita velocidade de câmera. Mas o que vemos é uma espécie de versão em câmera lenta daquela imaginada e sonhada por qualquer espectador. E a mesma sensação se repete quando Frank foge de pijama pelos telhados das construções locais, e até mesmo na decepcionante sequência final.
Em relações aos personagens, não poderia haver definição melhor do que a dada por Ricky Gervais na última edição do Globo de Ouro, da qual o longa participou inexplicavelmente. “Parecia que tudo era 3-D (em referência aos filmes de 2010), menos os personagens de ‘O Turista’”, disse o apresentador da cerimônia, arrancando risos de alguns e provocando o espanto de outros. Dispensando qualquer profundidade ou um mínimo de dubiedade (necessária para a conclusão da história) a Frank e Elise, o roteiro faz de Jolie e Depp um casal sem qualquer química.
Torna-se espantoso observar que o script tenha sido escrito por Julian Fellowes e Christopher McQuarrie (em colaboração com o próprio Donnersmarck), responsáveis, respectivamente, pelo magnífico “Assassinato em Gosford Park” e o ótimo “Os Suspeitos”. Sem saber mesclar intensidade com comédia, os roteiristas fazem um longa frágil, que se esfacela quando sua trama policial tem continuidade e seus mistérios vêm à tona. A inclusão de vilões russos donos da mais exagerada das caricaturas não poderia ser mais desastrosa, assim como a justificativa dada para dar fim a investigação policial e permitir o final feliz.
Com orçamento de US$ 70 milhões, a produção tem uma competente equipe técnica que sabe como aproveitar as belas locações europeias, seja nas cosmopolitas Paris e Veneza ou até na curta viagem de trem feita pelos protagonistas, ao mesmo tempo em que a trilha sonora de James Newton Howard busca dar ritmo às peripécias dos astros de Hollywood.
Pena que tanto dinheiro e aparente talento sejam desperdiçados em um filme tão comercial quanto passageiro. Pode até nem ser a tragédia que se anunciou pela crítica norte-americana, mas “O Turista” fica devendo em ação, comédia e romance. Florian Henckel von Donnersmarck começa sua carreira internacional com muita pretensão e pouco resultado. Mais uma vez Hollywood seduz e vê mais um grande potencial perder-se em algo irrelevante.
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Darlano Dídimo é crítico cinema do CCR desde 2009. Graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC), é adorador da arte cinematográfica desde a infância, não a substituindo por nenhum outro entretenimento, por maior que ele possa ser.



























15 Comentários
Alguns filmes são como iguarias tao finas que só conseguem ser apreciadas por aqueles que tem um paladar muito especial. A maioria, com o paladar viciado e mal acostumado a porcarias, como o excesso de sal, açúcar e gorduras não consegue sentir certos sabores por perderem a sensibilidade. Assim comparo àqueles que não gostaram de “O Turista”. O filme não tem nada de menos e nem é ruim. Muito pelo contrário: possui muitos “sabores” escondidos que poucos talvez tenham tido o prazer de apreciar. O filme não é comédia, nem ação e nem romance. Tem um pouco de cada um na medida certa. Talvez seja um 007 light. Requinte, beleza, sensualidade, leveza, elegância e sutilidade fazem de “O turista” um prato que se come “com os olhos”. Quem assistir, e se o paladar estiver aguçado, saberá do que eu estou falando. Amantes da espionagem com elegância (e a beleza de Angelina Jolie): corram aos cinemas. “O Turista” é um colírio para os olhos.
Desculpe, preferí degustar um bom cachorro quente do que comer a película. Olhar minha mãe fazendo um bolo é mais “um prato que se come com os olhos” do que esse caça-níquel barato que tenta iludir a todos com seus dois protagonistas de luxo que não tem química alguma e são mais rasos do que piscininha de criança.
“O filme não é comédia, nem ação e nem romance.” …. Resumindo, é um filme que não leva a lugar nenhum por falhar, quase que completamente, em todos os aspectos. Ridículo afirmar que esse filme possui algum encanto… talvez sua imaginação seja fértil demais a ponte de perceber o que não existe, e não os outros que não conseguem observar o implícito…
Pra quem gosta de um bom filme,tendo dois atores de peso como estes,vai se decepcionar com certeza. Vemos Jolie e Depp sendo lançados em uma película,sem vínculos,sem começo e principalmente…sem fim.
meo falaaa serioo essa Angelina Jolie mais linda e charmosaaa do que nunca só de ver essa beleza..ja vale apena ver esse filme aeee urruuu! rsrsr
E aquela reviravolta no final? Uma das coisas mais forçadas que eu já vi no cinema
Fui atraído pelo casal de protagonistas e as indicações ao Globo de Ouro, mas o que eu vi foi um dos piores filmes da minha vida. Fiquei constrangido do começo ao fim. Triste!
Concordo com vc Sergio! Eu adorei o filme, acredito que tudo na medida não tendo nenhum tipo restrinçoes. Mas como gosto cada um tem o seu não vou quetionar a opiniao dos outrso colegas…entao mais uma vez Angelina Jolie me surpreendeu(simplesmente maravilhosa).
Filme mas ou menos, um pouco deecpcionante, ainda mas com esses ótimos atores, esperava bem mais.
Maria-vai-com-as-outras ! É isso que eu digo desses críticos.
O filme procurou não sair da realidade nas cenas de ação, como vc Darlano, quer que pelas “vielas d’água” de Viena passem lanchas “ferozes” e rápidas destruindo tudo? O diretor retratou as embarcações certas sem muita viagem “matrix”, lanchas glamurosas com um design fino… Eu conheço o funcionamento das embarcações e fiquei satisfeito. O filme realmente não é dos melhores mas vale a pena assisti-lo, se mostrou um pouco vazio emocionalmente, mas gostei sim do filme e Johnny Depp atuou muito bem e me fez rir com o estilão que ele tem.
Que crítica fantástica. Concordo plenamente com tudo que foi exposto pelo autor. O que mais me espanta é a indicação que o filme recebeu ao globo de ouro. “O Turista” é um dos maiores caça-níqueis do ano, Jolie e Depp não têm química alguma, as cenas de perseguição e espionagem me proporcionaram muita vergonha alheia. Mas há de se fazer um parentese para elogiar a fotografia e trilha sonora.
Assisti a versão original e dormi quase que o filme todo, agora pra que p#$%@ uma refilmagem desse filme
Quanto mais criticar mais parece inteligente…se critico fosse inteligente não seria critico seria cineasta.
Geekgirl,adorei seu comentário!!!Perfeito!Críticos não constroem,apenas destroem os sonhos e expectativas dos construtores.
Eu aceito um critica feita por tarantino, spilberg, nolan, SHYAMALAN
enfim, diretores famosos, com flmes renomados, com EXPERIENCIA m cinema
notou nome do indiano em caps? nao que ele seja meus favorito, mas na minha concepção ele é a maior pedra no sapatos dos criticos, dirige filme por amor, sem se preocupar se vao gostar, e ainda tem muitos fãs
e ainda bate na cara dos criticos com o RUIM ( e acho que propositalmene) dama da agua
agora quem é Darlano didimo?
jornalista nao é cineasta, e fa de cinema nao é critico