Cinema com Rapadura

OPINIÃO   sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 (2010): incompleto, mas épico

A primeira parte do fim da série é um presente aos fãs.

Harry Potter, o garoto  que sobreviveu. J.K. Rowling, a mente bilionária por trás do bruxo mais famoso da história do Cinema. A Warner produziu, nos últimos anos, o que pode ser considerada a franquia de maior sucesso nas telonas. O público devoto assistia, todos os anos, a evolução da trama e as aventuras do trio de amigos na busca de acabar com as maldades de Lord Voldemort. Em “As Relíquias da Morte – Parte 1”, vemos o começo do desfecho que, certamente, entrará para a história e, mais ainda, para a vida de muitos cinéfilos.

Há algum tempo falamos que “Harry Potter” não é mais coisa de criança. Foi um dia, mas hoje não é mais. Desde que Alfonso Cuarón digiriu o belíssimo “O Prisioneiro de Azkaban”, vemos filmes que se distanciam da ingenuidade dos dois primeiros dirigidos por Chris Columbus. A partir de “A Ordem da Fênix”, David Yates assumiu um cargo de difícil posição, tendo que finalizar a série literária mais querida desses adultos. Esta evolução, da ingenuidade para as trevas, é notável não só na forma que Rowling escreve seu texto, mas também na transposição para as telonas.

Por uma questão mercadológica, o último livro foi dividido pela Warner em duas partes. Entretanto, o mercado nunca pareceu ser tão positivo! Com a escolha, temos uma primeira parte rica em detalhes, que certamente irá agradar aos fãs de Rowling e, talvez, desagradar o público somente cinematográfico. Isso porque o roteiro de Steve Kloves se apropria de forma sensata de inúmeras referências da franquia, sem precisar de uma forma didática de explicar suas ações. Isso acontece da coisa mais básica, como o efeito de um Expelliarmus, até mesmo à desordem em que se encontra o mundo bruxo e o mundo trouxa, principalmente após a queda do Ministério.

Aos não leitores de Rowling, pode ficar um pouco difícil acompanhar a riqueza de informações que este sétimo longa carrega, ainda que seu maior charme nem seja a fidelidade à obra (o que não deixa de ser exemplar e satisfaz os fãs que sempre reclamavam dos cortes existentes nos filmes anteriores). A magia do longa está, principalmente, em ser um prólogo para  o que foi guardado para 2011. Não espere uma trama fechada, muito menos que tudo se resolva rapidamente. Aqui, o importante é preparar o território para a Parte 2, que será épica.

Apesar disso, em alguns momentos a magia se dissolve devido a grandes ambições. Ainda que o detalhismo da história original seja mantido, é incoerente que em determinados momentos tudo pareça tão rápido em tela que não surte efeito. Um exemplo disso pode ser visto logo no começo do longa, quando Harry precisa ser transportado com segurança para a casa dos Weasley, que culmina na morte de dois personagens. A sequência de ação é quase incrível, não fosse o pouco tempo que temos para superá-la, ficar de luto e pensar no que os protagonistas realmente estão enfrentando. Acaba que a primeira perda de Harry, talvez a mais inaceitável (após Sirius Black, diga-se de passagem) criada por Rowling, parece insignificante.

Como esse, outros momentos são pouco tragáveis por não promoverem essa reflexão das consequências vistas em tela. E não foi falta de espaço para esse alívio de tensão. É perceptível que a primeira parte do longa é quase enfadonha, o que não necessariamente é negativo. Este sétimo filme é muito mais psicológico do que didático (note as câmeras maravilhosas utilizadas por David Yates nas cenas de ação e nas cenas dramáticas). O roteiro cria sequências contemplativas, muito paisagismo e alguma fuga, o que, por vezes, nos faz esquecer o objetivo dos protagonistas: encontrar as Horcruxes. Seria um desastre anunciado, mas se tais sequências não existissem, pouco aprenderíamos com os personagens e talvez nem fosse possível perceber a evolução que eles passaram desde “A Pedra Filosofal”. Então daqui é possível tirar a conclusão de que aquilo que falta em ritmo narrativo é compensado por outras infinidades de acertos da dupla Yates-Kloves.

O sucesso dessa ambiguidade também se dá à competência  do elenco, desta vez inteiramente afiado e em harmonia. O filme é de Emma Watson, como Hermione, que serve de catalisadora aos outros dois protagonistas. O próprio Daniel Radcliffe se apaga quando ela está  em cena: é dela todo o conhecimento, é ela a bruxa mais forte e é ela que permite tudo acontecer. Radcliffe, desde o sexto filme, mostra um pouco mais de versatilidade nos momentos dramáticos, seguindo neste longa de uma forma mais coerente. Já Rupert Grint continua como o alívio cômico da história, ainda que ganhe mais espaço ao lado de sua amada. Os outros amigos bruxos de Harry pouco ou nada aparecem, sem grandes destaques. Como sempre, neste quesito de coadjuvante o troféu continua com Evanna Lynch como Luna Lovegood que é reverenciada como o tipo de personagem que “não tem como não gostar”.

No elenco adulto, Ralph Fiennes continua sádico e irônico na pele de Voldemort. A forma como ele assusta até seus próprios aliados é incrível, mostrando que suas aparições rápidas nos outros filmes não atrapalharam para a construção da verdadeira face do mal. Destaque também para Helena Bonham Carter que mais uma vez dá um show na pele de Bellatrix Lestrange. De sua responsabilidade o ato final desta primeira parte, Carter mostra que não precisa ser Voldemort para ser a melhor vilã da franquia. As cenas de Carter com Emma Watson são fantásticas. Já Alan Rickman deixa seu Snape um pouco de lado, mas em suas poucas aparições ele só precisa sacar a varinha para arrepiar qualquer um.

Nas mãos de David Yates, o elenco não escorrega em momento algum. O cineasta, que já se familiarizou com a trama de Harry, transforma, finalmente, este longa no mais sombrio da franquia. Auxiliado pela direção de arte e fotografia, Yates não precisa de muito para situar o público de que nenhum lugar é seguro e mostrar esse clima durante a película. A trilha sonora de Alexandre  Desplat é discreta, porém eficiente nos momentos certos. Os efeitos visuais, grande destaque dos últimos filmes, começam perdidos, quase beirando ao bizarro com o uso indiscreto do chroma key, mas depois reaparecem espetaculares. Vale ressaltar aqui a volta de Dobby, que continua perfeito em sua concepção visual, além de carregar os momentos mais emocionantes.

Ainda que a equipe técnica, como sempre, receba grandes elogios, o principal destaque de “As Relíquias da Morte” é a inserção de animação que explica a origem de tais relíquias. Um acerto em cheio e inquestionável que dáum toque especial ao conto registrado no livro de Beedle e narrado por Hermione. Apesar de todos os atrativos, este pode não ser o filme do ano, mas sem dúvidas está entre os melhores por seu compromisso em lidar com os detalhes e com a importância da história criada por Rowling. Por ser incompleto, não o consideraria um épico, mas aposto facilmente que, com o lançamento da Parte 2, teremos os melhores filmes da série. Agora é esperar julho…

Diego Benevides
@DiegoBenevides

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