Avaliação: 9

Em comum, deve existir nas relações humanas algum tipo de obsessão que pode não ser escancarada, mas que pode ocorrer. Ser uma pessoa obsessiva não faz parte exatamente da modernidade e do mundo em que vivemos. Muito pelo contrário: ter uma personalidade como esta é sinal de que você nunca vai conseguir se inserir nos meios sociais (ou que vai ser tratado sempre como algum tipo de maluco). Ao contrário do que possa aparecer, “Fale com Ela” é um filme que transcende de uma maneira simpática e meio complexa. O diretor Pedro Almodóvar, que também é o roteirista do longa-metragem, trata da amizade entre dois homens como pano-de-fundo para falar sobre a obsessão do amor ou, ainda, sobre a questão que envolve a solidão e o que as pessoas são capazes de fazer para não viverem dessa forma.

Benigno (Cámara) é visto logo na primeira cena da película sentado em uma poltrona e assistindo a uma peça de teatro. Aos poucos, as lágrimas começam a escorrer do seu rosto. Quando ele sai do espetáculo, parte para o hospital onde trabalha para contar a experiência que teve para uma paciente. Alicia (Waitling) é o grande amor da vida de Benigno. Quando a história de Almodóvar volta no tempo, acaba mostrando a obsessão que o personagem tinha por aquela linda dançarina de balé que o fazia ficar horas e mais horas em pé na janela observando-a dançar. No entanto, um acidente de carro faz com que Alicia fique gravemente ferida e entre em coma. Por causa disso, Benigno se torna enfermeiro e passa a cuidar da garota, conversando e mantendo uma relação com ela como se os dois fossem casados e tivessem uma vida pela frente.

Já Marco é um jornalista que escreve para o El País e também chegou a assistir à mesma peça que Benigno havia se emocionado. Naquela época, os dois não se conheciam, mas parece que o destino deu um jeito de uní-los para que eles pudessem construir uma bela amizade. Marco se vê em uma situação parecida quando Lydia (Flores), toureira profissional, acaba sofrendo um acidente na arena e também entra em coma. Benigno e Marco passam a se encontrar regularmente no hospital conversando com as suas mulheres, mas, em um determinado momento, Marco acaba deixando essa vida de lado para continuar viajando e escrevendo guias de viagem, enquanto Benigno pensa em se casar, constituir uma família e viver para sempre com Alicia.

Ainda que o filme mostre sempre as duas mulheres em coma e extremamente mórbidas, Almodóvar sabe deixar a obra sensual o suficiente para que possamos entender a obsessão de Benigno, principalmente. Em um determinado momento, quando ele vai dar o banho em Alicia, ele acaba se lembrando de um filme-mudo que havia assistido e as cenas começam a ficar sobrepostas em sua cabeça. A sua atração por Alicia já vinha desde os tempos em que ela era bailarina e, naquele instante, havia aumentado com a possibilidade que ele tinha de realizar os seus desejos. Por isso que, no final, “Fale com Ela” acaba não se tratando exatamente de uma amizade, mas também desta obsessão que se nutre por um amor, fazendo com que o ser humano aja de maneira descontrolada e impulsiva.

Grande parte das cenas do longa se passa dentro da clínica, mas constantemente o roteiro dá giros no tempo. Vai ao passado e complementa uma determinada história para depois retornar ao presente e complementá-la de alguma forma. São nestas idas e vindas que Marco e Benigno acabam constituindo um laço de amizade muito forte. E mesmo quando o enfermeiro se encontrava em uma situação difícil, Marco tenta salvá-lo da obsessão que ele tinha. Talvez neste momento Almodóvar possa deixar o público com um pouco de dúvida em relação ao que acontece. Se talvez Marco tivesse contado a verdade, será que o futuro de Benigno poderia ser diferente? Como se pode imaginar no início da película, o destino é feito de acontecimentos inesperados e “Fale com Ela” deixa isso claro ao se aproximar do encerramento da sua narrativa.

No longa, não se vê tanto das cores vivas e fortes utilizados por Almodóvar em seus filmes (algo que também inexiste em “Má Educação”). No entanto, o resultado da fotografia de Javier Aguirresarobe é marcado por tons azuis que expressam um pouco da depressão vivida por conta da solidão de Benigno. Este é um outro tema muito bem retratado durante o filme porque, ao contar melhor a história deste personagem, Pedro Almodóvar deixa claro que podem existir “motivos” para ele fazer o que está fazendo. Isso não quer dizer, no entanto, que as suas ações e os seus atos são corretos. E ele se mostra tão depressivo e longe da sua realidade que isso contrasta exatamente com o seu amigo Marco, um cara que consegue ter mais equilíbrio e sabe lidar melhor com as perdas e os momentos ruins. Neste jogo de duas personalidades distintas, “Fale com Ela” se torna um filme muito mais masculino do que feminino.

Nesta linha tênue entre a loucura e a insanidade, o longa se sai como uma obra praticamente perfeita. De alguma forma, “Tudo Sobre a Minha Mãe” e “Fale com Ela” parecem estar interligados. O primeiro acaba quando se revela um palco teatral, exatamente como o segundo começa. Mas as coincidências podem parar por aí. É claro que Pedro Almodóvar nos coloca em uma posição para refletir acerca do que acontece com os seus personagens, principalmente pela amizade inesperada que é formada. Mais do que isso, mesmo quando ele quebra o seu filme e exibe o curta do cinema-mudo espanhol de Amante Minguante, a metáfora principal para a relação do curta com o filme de Almodóvar está exatamente na atração que os homens possuem para estarem na companhia do corpo de uma mulher. “Fale com Ela” é cheio de emoção e conta a sua história nas entrelinhas, como um monólogo contado da forma mais sutil possível.