Zumbis são exagerados por natureza. Desde sua concepção – como mortos que voltaram à vida – até sua caracterização – de roupas rasgadas, manchas de sangue, músculos super-contraídos e olhos dilatados – os zumbis não precisam de mais nada para meter medo. Quando somamos ao tipo outra característica que já tem força suficiente para um novo personagem denso, o resultado é tão inverossímil quanto o que pode ser visto neste “REC 2″.
A aguardada sequência de “[Rec]”, filme de 2007 que fez público no Brasil via download para ser oficialmente lançado no final do ano seguinte, ainda consegue arquitetar o clima claustrofóbico de seu anterior, mas o tom de tensão é desconstruído cena após cena. Na tentativa de descortinar os fatos sem explicação do primeiro filme, a trama se perde em meio ao didatismo do roteiro, atuações fracas, recursos de câmera exagerados e a mistura entre dois pólos sagrados e distintos do horror: os zumbis e os possuídos.
“REC 2” acompanha a entrada de uma equipe da força policial no prédio cenário do filme anterior, alguns minutos após sua famosa última cena. Na tentativa de solucionar o mistério que envolve o prédio e deter a proliferação do vírus para as ruas de Barcelona, a polícia tenta, sob os comandos de um padre pouco ortodoxo, capturar amostras de sangue daquela que seria a primeira infectada do lugar. E então entendemos que a agressividade dos mortos-vivos não é resultado de experimentos falhos, mas sim da possessão demoníaca de uma das moradoras do local.
Elaborar justificativas para o modo pelo qual uma possessão foi transmitida biologicamente é uma tarefa ingrata que nem o didatismo do padre é capaz de resolver. Perdido entre esclarecimentos longos e soluções confusas, o religioso explica que somente uma amostra de sangue da primeira infectada pode servir para o preparo de um antídoto contra o poder do tinhoso.
Quem não viu o primeiro longa pode estranhar a velocidade das cenas iniciais desta sequência. Não como um ponto negativo contra o filme, mas o novo público certamente não participa do clima de tensão engenhosamente construído em seus primeiros minutos, claramente resultado do tom carregado que marca o desfecho do filme anterior. “REC 2” está mais para a segunda parte de seu antecessor e, assim como a sequência lógica da trilogia “O Senhor dos Anéis”, exige um conhecimento prévio do filme de 2007.
Para aqueles que já conhecem o trabalho de câmera do filme que inaugurou a série, esta sequência parece inferior ao projeto inicial. A verdade é que, até para quem nunca teve a oportunidade de avaliar a perspicácia do primeiro filme, a nova versão borbulha de falhas técnicas que comprometem sua execução. A câmera cuidadosamente tremida agora está incontrolável. Pelas mãos de um cinegrafista levado pela polícia, ela insiste em vibrar até nos momentos de relativa tranquilidade e se torna mais violenta nos picos de tensão. O resultado é a perda pelo excesso de um recurso com grande potencial e apuro para o horror.
Mesmo assim, alguns ângulos utilizados pelo cinegrafista, sobretudo nos momentos em que a câmera é lançada ao chão por algum zumbi raivoso, são memoráveis pela originalidade e por acentuar o clima de medo. Em uma das sequências, entre as melhores do filme, acompanhamos o ataque de um zumbi pelas sombras projetadas em uma porta. Ponto positivo para a equipe dos diretores Jaume Balagueró e Paco Plaza.
O time de atores merece uma análise à parte. Os policiais e o padre abusam das caras retorcidas e expressões grotescas, e em nenhum momento conseguem fugir do típico estereótipo de vítimas. O grupo de adolescentes que marca a segunda parte da trama também não escapa dos excessos. Somente a garota da equipe consegue ser mais convincente em sua atuação. Ainda assim, seu trabalho não se compara ao da protagonista do primeiro filme, a premiada Manuela Velasco.
Felizmente, “REC 2” ainda soube fazer bom uso de um recurso de destaque do primeiro filme. A ausência de músicas, o silêncio, e a captação de ruídos acentuam a morbidez de algumas sequências e compensam outras falhas.
Para quem espera por um filme que dê continuidade ao clima único criado pelo anterior há três anos, assistir ao desfecho e soluções apresentadas nesta sequência quase invalida os méritos alcançados por “[REC]“. Mesmo assim, vale a pena conferir o risco que é associar dois mitos do cinema de horror. Então, considerem a opção de retirar a participação das trevas da formação de seus zumbis. Eles são bem mais divertidos sem ela.



























2 Comentários
Um dos filmes de zumbi mais chatos desse ano, Epidemia é melhor que isso só pelo fato de eu poder ENXERGAR o que está atacando os personagens. Quem vai ter medo dos infect…quer dizer POSSUÍDOS (aff) de Rec 2 se nem ao menos os enxergamos? Só se vê vultos e relances dos monstros por conta da câmera tremida em demasia.
Sinceramente tenho medo de REC3 se for ainda nesse nipe de possuídos, que voltem os infectados e esqueçam essa sequencia.
jader foi muito mais sensato na sua critica que os outros 2.
não é melhor que o primeiro,mas é um filme muito divertido
que merece ser visto.