Avaliação: 5

O que seria do cinema e, principalmente, de Hollywood sem os vilões? Uma imensa chatice. A cada ano um novo personagem faz história na sétima arte indignando o mocinho, mas satisfazendo o público com seus atos maléficos. Não há como esquecer o Coringa de Heath Ledger, o coronel Hans Landa de Christoph Waltz ou o Daniel Plainview de Daniel Day-Lewis, apenas para citar alguns nomes mais atuais (não por acaso os três ganharam o Oscar por suas atuações).

Pois é, há algo de fascinante nos vilões que os faz ficar marcados na nossa memória em detrimento das ações conservadoras do retrógrado protagonista. Se no mundo live-action eles precisam ser construídos com profundidade para convencer, no mundo da animação a caricatura é a tônica. Explorando essa característica, “Meu Malvado Favorito”, primeira produção dos estúdios Illumination Entertainment, busca graça no mau-humor e na sina diabólica desses personagens, mas se rende a uma fórmula gasta, estragando uma premissa original que poderia ter rendido um belo filme.

No centro da história temos Gru, um genuíno vilão que jamais hesita em realizar suas maldades em público. Se algo o prejudica, ele age, seja congelando a enorme fila de um fast food ou colidindo com outros carros para estacionar seu gigantesco veículo. Mas ele não se satisfaz com pouco. Quer ser o maior de todos, o pior de todos. E assim ele se classifica, até que o ato mais maquiavélico já realizado acontece: uma das pirâmides do Egito é roubada. O autor foi um franzino nerd de nome Vetor, dono de engenhosas invenções e morador de uma fortaleza intransponível.

Insatisfeito com a situação, Gru, então, decide superá-lo. Sua missão passa a ser roubar nada mais nada menos do que a Lua. Em seu laboratório secreto, localizado abaixo de sua casa, ele planeja cada passo para colocar seu plano em ação, sendo o primeiro deles  roubar uma máquina encolhedora. Vetor, no entanto, se adianta, e o protagonista acaba precisando da ajuda de três garotinhas para desafiá-lo. Margô, Edith e Agnes, porém, terminam por ver um pouco de bondade no coração daquele homem, além de um enorme potencial para a paternidade.

Dirigida pelos desconhecidos Pierre Coffin e Chris Renaud, a animação começa bem ao explorar as atitudes mal-humoradas do protagonista e conseguir convertê-las em risadas para o público. A aposta no exagero e na total falta de pretensão contam a favor do longa, que parece estar ali apenas para proporcionar uma hora de meia de puro entretenimento, sem contar com reflexões filosóficas ou emotividades exageradas. Como é agradável assistir à sequência inicial e perceber que ela serve apenas para introduzir o mistério e cujos personagens não mais aparecerão durante todo o resto do filme.

O desenvolvimento da trama, no entanto, enfraquece sua originalidade. As piadas deixam de funcionar, a criatividade cessa e o didatismo toma conta da narrativa. Ao introduzir as três garotas na vida de Gru, o roteiro de Ken Daurio, do bom “Horton e o Mundo dos Quem”, começa por cair no lugar comum. As situações originais são substituídas pela comédia de costumes ao exibir a adaptação das meninas na casa do agora padrasto e a posterior aproximação entre a meiguice delas e a brutalidade dele. O longa, em suma, torna-se previsível.

Além disso, o confronto entre antagonista e protagonista, na incessante tentativa de roubar a Lua, jamais empolga. Vetor é um vilão extremamente sem graça, começando pelos atributos físicos, incapaz de atrair o carisma ou o ódio dos espectadores. Suas invenções tecnológicas são tantas e tão mal selecionadas que não nos impressionamos quando ele saca uma arma de lulas na sequência final. A cena, aliás, é de um desleixo tão grande por parte dos diretores e roteirista que parece ter sido feita às pressas.

A única boa atração de “Meu Malvado Favorito” são os pequenos assistentes amarelos de Gru, os chamados minions. Com um linguajar indecifrável e uma vontade louca de realizar desordens, os seres são incluídos em situações hilárias, que vão desde uma ida inesperada ao supermercado da cidade até servirem de cobaias para experiências científicas do nem tão engraçado Dr. Nefário.  Em uma comparação entre animações, não seria inapropriado dizer que os minions funcionam como os pinguins de “Madagascar”.

Em termos técnicos, a animação deixa a desejar, principalmente no setor sonoro. A qualidade ruim do som prejudica, por várias vezes, o entendimento apropriado das falas dos personagens. As incessantes explosões também perdem em grandiosidade com isso. Já a trilha sonora é de uma irrelevância só. Para um primeiro filme, a Illumination mostra-se um estúdio de ótimas intenções, mas falho ao colocar o projeto em prática, tanto tecnicamente quanto narrativamente.

O sucesso de bilheteria de “Meu Malvado Favorito” nos Estados Unidos, porém, já teria garantido uma continuação para o longa. Mas são os prometidos dois curtas-metragens centrados nos minions que devem gerar uma maior expectativa nos já inúmeros fãs dos pequenos vilões. Eles sim podem entrar pra lista dos seres maléficos queridos pelo público. O restante dos personagens são tão esquecíveis quanto os mais “quadrados” mocinhos que surgem aos montes no cinema.