Avaliação: 8

Quatro mulheres bem sucedidas, ricas, influentes e que fazem o que querem. Nenhum exemplar máximo dos padrões femininos de beleza, e algumas até com um pé na “melhor idade”. Charmosas, elegantes e com um guarda-roupa que faria inveja a qualquer mortal. Donas de casa, mães responsáveis e esposas dedicadas, com uma pitada de não-convencionalismo e glamour na hora de preparar o bacon com ovos do café da manhã. Carrie, Charlotte, Miranda e Samantha estão de volta, com um “Sex and the City” mais divertido e exagerado que o original.

Se o sucesso do seriado, que durou seis temporadas (1998-2004), e continua sendo transmitido pela TV paga no Brasil, e do primeiro filme, com US$ 100 milhões arrecadados nos 10 primeiros dias de exibição, é explicado pela projeção que a classe feminina faria nas quatro amigas, não se sabe. O importante é que elas continuam ditando tendências e colocando a mulher no patamar de igualdade de gêneros que sempre mereceu. Desde que ela esteja usando um vestido Chanel e sapatos Manolo Blahnik, claro.

Neste segundo filme, as amigas viajam para a pretensiosa Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, após uma série de pequenos problemas familiares. Filhos descontrolados, maridos preguiçosos e chefes de emprego autoritários são argumentos suficientes para que Samantha, a única sem problemas aparentes, convença o grupo a visitar o “novo oriente médio”. Do outro lado do mundo, entre quilômetros de desertos, sobra tempo e espaço para roupas extravagantes, afirmação feminista, aventuras sexuais e contabilidades afetivas.

O veterano Michael Patrick King, diretor, roteirista e produtor em “Sex and the City 2”, continua cumprindo bem a sua tarefa de colocar as quatro amigas em situações constrangedoras e propícias para demonstrações supérfluas de riqueza e pouca modéstia. Não que isso seja um traço negativo. Pelo contrário, é do exagero e esbanjamento que o filme retira sua principal vertente humorística. E nisso ele é certeiro, faz chorar de rir até os assumidamente anti-consumistas.

A direção é tão plástica quanto no primeiro filme e no seriado, e tudo aqui é convencional, um pouco artificial demais. A fotografia também aposta no “testado e aprovado” e o visual clean das sequências faz toda a história parecer saída de um comercial sofisticado de sabonete.  Muito brilho, iluminação estourada e cores vibrantes dão o tom do filme. Felizmente, qualquer outra opção técnica fugiria demais do que estamos habituados a esperar e a escolha foi adequada para acompanhar o ritmo da narrativa e a personalidade igualmente plástica das personagens.

Entre tantos excessos técnicos não sobra espaço para uma observação minuciosa do trabalho das quatro protagonistas, e qualquer falha de interpretação é  facilmente mascarada pelo acessório extravagante que elas insistem em chamar de chapéu. Mesmo assim, Sarah Jessica Parker, Kristin Davis, Cynthia Nixon e Kim Cattrall oferecem ao público a mesma atuação que imortalizou cada personagem na memória deste início de século. E se a fórmula recebeu aprovação unânime, não há muito que se contestar.

Se bem lembrasse a equação exata de sucesso do seriado, Patrick King teria deixado de lado a irritante pretensão feminista de algumas sequências. As protagonistas exalam a libertação feminina em cada um de seus gestos, e inserir diálogos de reafirmação dessa verdade foi uma decisão constrangedora. A veia humanamente responsável não combina com as personagens, e qualquer tentativa de colocar conselhos e teorias de igualdade de gêneros na boca das atrizes teve o resultado oposto. As considerações sobre a identidade da mulher não se encaixam quando o mote de um filme é, de certa forma, a celebração do fútil.

Como um filme de comédia, “Sex and the City 2” merece ser visto. É impossível não chorar de rir de algumas cenas originalmente bem construídas. Quem espera pelo humor um tanto “erudito” de cineastas como Woody Allen, a viagem das quatro amigas pode parecer irritante. Mas para aqueles que gostam de rir do que provavelmente fariam se esbanjassem dinheiro em Nova York, não existe outro filme mais adequado.