Avaliação: 5

O escritor que melhor retrata a diversidade brasileira. Jorge Amado não é conhecido assim por acaso. Ele não se restringe a falar das elites e suas respectivas “frescuras” e vitórias. As feiúras da pobreza, em que se escondem as prostitutas, os bêbados e os vagabundos, são o principal foco de seus livros, mas tudo com muito bom humor. Essa realidade já ganhou diversas traduções cinematográficas, algumas delas de sucesso estrondoso. “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de 1976, permanece como o maior recordista de público em toda a história do cinema nacional, com nada menos do que 12 milhões de espectadores. “Gabriela Cravo e Canela”, de  1983, e “Tieta do Agreste”, de 1996, são outras adaptações do texto de Jorge Amado. Entrando para essa lista está agora “Quincas Berro d’Água”, que não traduz nem de perto a qualidade do livro de 1961.

Baseado no romance “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água”, o filme traz a história de um ex-funcionário público que deixou a família há alguns anos e que agora pertence a boemia de Salvador.  Rei dos botecos, bordéis e gafieiras, o antigo Joaquim Soares da Cunha agora vive ao lado dos mais fieis amigos, que repartem com ele as inúmeras garrafas de cachaça e as mais diferentes camas. No dia de seu aniversário, uma festa surpresa o aguarda, mas quem os surpreende é o próprio Quincas (Paulo José): ele acaba morrendo.

Avisada da morte de seu pai, a jovem Vanda (Mariana Ximenes) prepara um enterro nos padrões comuns, planejando manter a mentira que criou sobre Joaquim para os vizinhos mais invejosos. Para esses, ele era um comendador cheio de dinheiro e status. O destino, porém, se mostra bem mais aventuresco e revelador. Os melhores amigos de Quincas tratam de roubar o seu corpo durante o velório e dão a ele um último dia regado a festa e muita bebida. O boêmio tem, então, a morte que sempre desejou.

Quincas Berro d’Água é mais conhecido como o homem que teve três mortes. A primeira é decretada pela própria família, que, para evitar humilhações perante a sociedade, decide matar moralmente o pai e marido de um lar agora abalado, mas que tenta fingir que nada demais ocorreu. A segunda morte ocorre de fato, descoberta por uma amiga de Quincas quando vai visitá-lo no seu sujo quarto. A terceira e última acontece quando, em um conturbado passeio de barco com os amigos, o corpo dele cai no mar, encontrando um fim definitivo.

O diretor Sérgio Machado, responsável pelo elogiado “Cidade Baixa”, respeita os falecimentos de seu protagonista. Aliás, o roteiro dele mesmo é bastante fiel aos fatos do livro de Jorge Amado, com quem possuia uma ligação de amizade. Sabe-se, porém, que as linguagens do cinema e da literatura são bastante distintas. O que parece atraente em uma leitura descompromissada, pode não captar o grande público na tela grande. O fato é que Machado faz um longa-metragem “arrastado”, com pouco ritmo, que não encontra um tom adequado em nenhum de seus três atos.

Com uma introdução lenta, “Quincas Berro d’Água” chega a dar sono. A narração do personagem principal nos apresenta ao cenário em que toda a trama se passará. As belas e antigas ruas da capital baiana serão o cenário de uma história que dialoga com o fantástico, mas que tem na crítica social uma de suas principais intenções. A verdadeira morte de Quincas logo ocorre, e a partir de então, o roteiro se perde, demorando a perceber qual a melhor hora para dar início a insanidade idealizada por quatro bêbados que decidem subir e descer ladeira com um corpo na mão.

São quase quarenta minutos de duração para que cheguemos a ver a tal correria. Nesse ínterim, o filme já demonstra que também não escolheu se optará pela magia da temática do livro, pela comédia escrachada ou pelo “drama” vivido por Vanda e seu marido ao tentar esconder a realidade de seu pai e sogro. A confusão de tons, porém, permanece até o desfecho da película. E o pior é que nenhum deles convence o público. O filme não diverte nem emociona como poderia.

A edição de Márcio Hashimoto o transforma em uma longa e torturante adaptação que mescla diversos núcleos, sem desenvolver nenhum deles apropriadamente. Vanda tem suas pernas mostradas em vários momentos em vez de suas relações já prenunciarem a contradição em que se envolverá. O caso de Quincas, a cantora Manuela (Marieta Severo), suge em flashes curtos e sem expressão. O mesmo acontece com o passado do protagonista, cujas causas de sua saída de casa mais parecem atitudes de um rebelde com um pouco mais de idade.

Se a direção e o roteiro não retratam a malemolência da Bahia, o elenco faz questão de compensar. Paulo José realiza um trabalho impressionante ao viver um morto cujas expressões se limitam a esboçar um mísero sorriso. Trata-se de uma performance física que merece aplausos. Mariana Ximenes demonstra sensualidade e seriedade em uma interpretação que felizmente se afasta daquelas realizadas na televisão. Quem rouba as cenas, porém, são os verdadeiros baianos que acompanham Quincas, além dos atores que fazem participações especiais. De Frank Menezes, o Curió, a Luís Miranda, o Pé de Vento, eles dão um show de timing cômico.

Sem criticar nem fazer rir como deveria, “Quincas Berro d’Água” é uma tradução limitada do livro de Jorge Amado. Encontrando nos offs narrados por Quincas os seus melhores momentos, o filme se limita a trazer uma parte técnica elogiável. Agora é esperar que as adaptações de “Capitães de Areia” e “Os Velhos Marinheiros”, que estão previstas para estrear neste e no próximo ano, sigam por caminhos menos tortuosos e sonolentos.