É bastante interessante a fascinação humana quanto ao fim do mundo. Retratado diversas vezes nas mais variadas mídias, o colapso da nossa civilização é quase um fetiche de artistas das mais diversas áreas, com o cinema sendo um dos meios mais impactantes para se retratar esse tipo de trama. Paradoxalmente, quanto menor a escala das histórias desse tipo a serem contadas, mais pessoas e assustadores elas se tornam. É o caso deste ótimo “A Estrada”, comandado por John Hilcoat e baseado no romance homônimo escrito por Cormac McCarthy.
Na história, um evento de origem nunca mencionada transformou a Terra em um deserto árido, cinzento e sem vida. Um Homem (Viggo Mortensen) e seu Filho (Kodi Smit-McPhee) vagam pelos destroços do que já foi os Estados Unidos, sempre rumo ao litoral sul, em busca de algum sinal de vida e de meios para sobreviverem. No caminho, encaram a falta de esperança, a sede, a fome e o predador mais perigoso que existe: o próprio ser humano.
O roteiro de Joe Penhall é bastante cuidadoso ao mostrar essa visão hobbesiana da humanidade, do homem como lobo do homem. Em um planeta moribundo, sem animais a serem caçados ou plantações a serem colhidas, a vontade animalesca do homem em sobreviver consegue suplantar anos de evolução lógica ou de qualquer senso de moralidade adquirido por nossa espécie ao passar das eras. A própria falta de nomes dos protagonistas indica certa desumanização do indivíduo. É por isso que a jornada do Homem e do Filho se torna tão importante. Quando eles falam em “manter a chama acesa”, é uma referência direta à bondade inerente à visão idealizada da humanidade.
O Filho é particularmente relevante nesse aspecto. Criado pelo Pai com o alento de histórias sobre coragem e valor, ele por diversos momentos funciona como o compasso moral de seu progenitor, a despeito de seu desejo intenso em encontrar alguém semelhante a ele. Congratulações são devidas ao jovem Kodi Smit-McPhee, que consegue transmitir isso sem transformar o Filho em mais um dos infantes adultos tão comuns no cinema.
O Pai, por sua vez, sofre com as lembranças que carrega de um mundo outrora luminoso. Levando consigo a responsabilidade de criar da melhor maneira possível uma criança que simplesmente não deveria existir em um mundo tão desesperado, ele muitas vezes se vê tentado a matar seu filho e a si mesmo, apenas para livrarem-se do sofrimento daquela existência.
Cabe aqui ressaltar o belíssimo trabalho de Viggo Mortensen na criação de seu personagem, não apenas em sua caracterização física esquálida, mas também em nos mostrar todo esse sofrimento e até o amor que ainda carrega por sua esposa. Por falar nela, a personagem é brevemente interpretada por Charlize Theron, que entrega uma das mais fortes performances femininas dos últimos tempos.
Mostrando uma sensibilidade incrível, o diretor John Hilcoat nos apresenta a cenas marcantes, como a passagem dos protagonistas pelos restos de uma grande cidade, pisoteando bens hoje valiosíssimos, mas que, naquele mundo, não possuíam valor algum.
Outra sequência magnífica envolve Pai e Filho encontrando um lugar onde podem se sentir mais humanos por um tempo. A felicidade que envolve os dois é tão palpável que chega a contagiar o espectador, mesmo com o conhecimento de que aquela situação não perduraria por muito tempo.
O cineasta, além disso, mostrou dominar as técnicas de suspense, mantendo o espectador em estado de tensão durante boa parte do filme. Duas cenas que valem a pena ser citadas são a passagem de um caminhão repleto de “sobreviventes” e a visita dos protagonistas a uma casa, que acaba tendo resultados aterradores.
O visual do filme é simplesmente perfeito, com sua fotografia sendo o principal elemento de criação daquele mundo em ruínas, em um tom acinzentado cada vez mais morto e decadente. Vale a pena ressaltar o contraste da paleta de cores nos breves flashbacks que retratam a vida do Homem antes do evento que destruiu o mundo, mostrando um lugar feliz, em cores quentes e iluminadas.
Nesse sentido, a montagem da fita lembra um pouco a primeira temporada do seriado “Lost”, principalmente na forma em que os supracitados flahsbacks são inseridos dentro da narrativa. Não posso deixar de citar a excelente direção de arte do filme e a criação dos mais diversos ambientes desolados. Apesar da simplicidade destes, o impacto que eles transmitem junto ao público é devastador.
A maquiagem da fita, a despeito de uma aparente falta de complexidade, é um dos fatores mais importantes na imersão do público naquele universo, com todos os perigos e pesadelos enfrentados pelos personagens estando presentes em cada partícula de poeira e sujeira presentes em seus corpos. O desespero e os breves momentos de alento do Homem e do Filho acabam encontrando um eco perfeito na fantástica trilha sonora da película, composta por Nick Cave e Warren Ellis.
Contando ainda com pontas inspiradíssimas de Robert Duvall e Guy Pearce (ambos praticamente irreconhecíveis), “A Estrada” possui uma conclusão agridoce bastante apropriada para um filme tão ancorado no verdadeiro oceano de contradições que é o espírito humano. Recomendado.



























10 Comentários
eu quero ver a estrada, mas não porque voces ”críticos” disseram que eram bom,w sim porque realmente me interessei pela história, e pelo pouco que eu vi no trailer a atuaçao do viggo, realmente muito boa
thiago meu velho… vc acertou, pelo menos nessa.. AHueahu
Excelente produção! atuações memoraveis.. a injustiça do oscar esse ano foi a não indicação de viggo mortesen.
Pensei a mesma coisa quanto ao homem ser lobo do próprio homem durante o filme! Chega assustei ao ler essa parte! Pensei que somente eu havia visto isso. rsr
A atuação do Viggo foi boa, mas nada de tão espetacular como citado. E a atuação do menino foi até mesmo bem chata, mas foi proposital, pois era do personagem toda aquela pureza.
Recomendado para quem gosta de filmes que tratam do tema:”filosociologia”
Realmente o filme promete, concerteza estamos vendo o nosso futuro, um mundo em ruinas por causa do Ser Humano,mostrando apenas uma pequena porcentagem dos problemas que irão aconteçer.
Também quero ver como ira atuar o antigo Aragorn(Viggo Mortensen);
Pelo trailer que acabei de ver irei assistir concerteza;
ate!
Um filme muito bem ambientado, digo isso pois assistindo-o tive a real sensação de estar vendo um mundo pós-apocalíptico.
Um mundo sujo, faminto, selvagem, agressivo, onde a esperança é artigo raro assim como a comida.
A esperança em encontrar um lugar onde os homens não sucumbiram ao instinto predador, está bem retratada na personagem de Viggo Mortensen. Este se doando de forma admirável ao seu papel, inclusive fisicamente, tendo emagrecido e ficando com um aspecto cadavérico. Um pai tentando passar ao filho a motivação para continuar lutando não apenas para sobreviver, mas para não perder a essência humana que ele tanto acredita.
Uma fotografia monocromática que expressa bem a falta de alegria, de entusiasmo.
Recomendo para todos que gostam de ter uma experiência audiovisual que vai além da sala de cinema, pois é um filme para ser visto e discutido.
Thiago,você só esqueceu de mencionar o belíssimo trabalho na edição de som, que introduz a todo momento, na história, sons de árvores se queimando e caindo, transmitindo ao público a real extensão da desolação e desesperança. No mais, uma belíssima história contada em um excelente filme. E já passou da hora de Viggo Mortensen ganhar algum prêmio por suas atuações: “A History Of Violence”, “Eastern Promisses” e esse “A Estrada” estão na minha lista de atuações maravilhosas do ator. Certamente, merecia pelo menos uma indicação por este último trabalho.
Abraços
Concordo com tudo Siqueira,até com a nota do filme.. cara… sabe o que ambiente desse filme lembrou? o jogo Fallout 3! onde o protagonista do jogo sai em busca de seu pai em um mundo pós apocaliptico! cara.. pra mim esse filme é o Fallout 3 com outra tematica!…rss filme muito bom mesmo.
Abraços!
Robert Duvall irreconhecível mesmo… e o Guy Pearce sempre teve essa cara meio de mendigo!
Assustador! Um mundo sem esperanças. Não entendia o menino mas depois, realmente, sua situação e atuação ficaram evidentes e excelentes.
Realmente, concordo com as opiniões favoráveis ao filme e também às desfavoráveis (aquelas que se pautam nos “filmes da moda”).
Eu o vi na tela de casa e devo dizer que, se estivesse no cinema, sentiria totalmente o desalento, desesperança e frieza das cenas bem mais (afinal, trilhas são muitíssimo importantes).
Interessantíssimas as visões de moral cogitadas pelo enredo, o aspecto cinzento constante – com pequenas lufadas de cores – e a extrema desesperança – como se nada mais valesse a pena (utilizando-se maravilhosamente do confronto cronologico do presente mortiço e do passado viçoso). Quase uma obra-prima!
Finais são possíveis vários – e concordo ainda -, contudo, o filme continuaria mais intenso se fossem estes finais realizados de modo a nos deixar com mais perguntas ainda.
Aliás, já estudei Astronomia por um tempo e sei que um grande meteorito faria tal estrago sim!
Adorei esse filme. Nota 10, sem sombra de dúvida. Me faz refletir até hoje. Inclusive, fiquei com uma dúvida. Notei durante o filme a falta de polegares em alguns personagens. Seria para que o diretor representasse o estado primitivo em que a humanidade se encontrava? Todos sabemos que o que diferenciou os seres humanos ao longo de nossa evolução foi o desenvolvimento de polegares opositores. Além disso, li muitos comentários criticando a presença do cão ao final do filme. Acredito que o diretor tenha optado pela animal para que o espectador tivesse certeza de que aquela família não queria fazer mal ao garoto, pois se fossem canibais, já teriam se alimentado do animal há mto tempo.