Críticas   sábado, 03 de Abril de 2010

Chico Xavier

Chico Xavier é o tema do novo filme de Daniel Filho, que, ainda longe de ser memorável, talvez seja a obra mais marcante do cineasta desde “A Partilha”.

No ano do centenário de um dos líderes religiosos que mostrou ao Brasil e ao mundo a doutrina espírita, nada mais justo a produção nacional homenageá-lo com uma cinebiografia. Em “Chico Xavier”, é possível acompanhar, desde cedo, a sensibilidade do menino órfão de mãe e que era alvo de chacota e dúvida devido ao seu dom. Passando por três fases de Chico, vividas por Matheus Costa (1918 a 1922), Ângelo Antônio (1931 a 1959) e Nelson Xavier (1969 a 1975), o longa consegue, de uma forma rasa, nos dar a ideia da complexidade do personagem. Tal problema, identificado facilmente em outras cinebiografias, não prejudica a obra em si, mas as escolhas do diretor Daniel Filho e algumas ações do roteiro de Marcos Bernstein não são suficientes para fazer do longa inesquecível.

Depois que “Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito”, de Glauber Filho e Joe Pimentel, arrebatou grande bilheteria nacional com um longa simplista e mais clássico, filmes com temática espírita são uma nova opção para os produtores nacionais. Chico Xavier, uma das figuras mais importantes da religião, logo foi alvo de Daniel Filho. Baseado no livro “As Vidas de Chico Xavier”, do jornalista Marcel Souto Maior, este longa conta com maravilhosas atuações de Chico. Matheus Costa se revela uma grande surpresa, trazendo a docilidade do menino maltratado pela madrinha e acalmado pelo espírito de sua mãe. O talentoso Ângelo Antônio sustenta praticamente o filme sozinho e cria um elo com a performance de Nelson Xavier, narrador principal do longa. Ainda merecem destaque as aparições rápidas das atrizes Letícia Sabatella e Giovanna Antonelli, em participações fundamentais.

As atuações de Matheus, Ângelo e Nelson contribuem para o filme jamais se tornar desinteressante, mesmo frente aos problemas técnicos. O roteirista começa a contar a história de Chico por meio de uma entrevista que o líder religioso participa no programa Pinga Fogo, da TV Tupi. Então, memórias da vida de Chico são apresentadas. Até aí tudo bem. O roteiro, porém, erra principalmente ao estabelecer uma trama paralela interpretada por Tony Ramos e Christiane Torloni. A ideia de mostrar o envolvimento e a dúvida deles em relação à capacidade de Chico até teria dado certo, se houvesse um pouco mais de espaço para seus personagens conquistarem o público. Toda vez que eles chegam perto de emocionar o espectador, volta para a vida de Chico; e a recíproca é verdadeira. Resultado: momentos de emoção são raros, justamente porque o filme não se deixa acontecer, não respeita o momento de seu drama. Chico é um personagem praticamente unilateral, que não tem conflitos per si. Para piorar, o roteirista ainda inclui ações constrangedoras “de humor” que afastam mais ainda o envolvimento do espectador.

Daniel Filho é ajudado por uma edição razoável que não deixa o filme, juntamente com o carisma do elenco, cansar. São 125 minutos bem distribuídos e, em sua maior parte, eficazes. O cineasta, que é conhecido por não ter pegada cinematográfica e levar às telonas o mesmo do que faz nas telinhas, em “Chico Xavier” tenta meter a mão em tomadas mais ousadas e menos televisivas. Não dá certo. Daniel Filho tenta criar uns planos transcendentais, esteticamente duvidosos e quase risíveis, mostrando que ele está longe de trazer um filme mais autoral ao cinema brasileiro. Ainda que isso aconteça na primeira hora de projeção, depois disso parece que ele percebe que o know how para fazer algo novo na direção não funcionou muito bem e volta, então, a fazer um pouco do mesmo: uma condução mais quadrada e pouco emotiva. Neste caso, somente neste caso, foi uma decisão adequada.

A fotografia de Nonato Estrela se alia a uma preocupada direção de arte para compor três cenários da vida de Chico e trazem os elementos necessários para o visual do filme. O mesmo não pode ser dito da trilha sonora que, quando aparece, tenta forçadamente criar um clima de suspense que, muitas vezes, nem existe. Os ruídos dentro da trilha são constrangedores. Assim, este é mais um elemento que evita o envolvimento do espectador, o que é fatal para qualquer filme, ainda mais aqui, que fala sobre lições, paz e espiritualidade. Aliás, o ateu Daniel Filho merece elogios por ter aceitado um projeto incomum em sua filmografia. O cineasta, ainda que desagrade chamá-lo assim, mostra que não é só de “Se Eu Fosse Você” que se vive. “Chico Xavier” acaba sendo seu melhor (ainda que imperfeito) trabalho no cinema desde 2001, quando realizou o ótimo “A Partilha”.

Em um cinema nacional tomado pela violência e sexualidade gratuitas, uma nova leva de tramas está programada para trazer ao público, acima de qualquer lição, o conforto. Não precisa ser espírita ou abdicar da própria religião para que filmes que preguem a bondade sejam bem vistos. Daniel Filho realiza um longa mediano que é riquíssimo especialmente por suas atuações. Ainda que não seja ruim, peca pelo exagero em tentar emocionar e não conseguir isso durante toda a projeção. Ainda assim, vale pela tentativa de imortalizar no cinema a figura de Chico.

Diego Benevides
@DiegoBenevides

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