Scorsese já passeou por quase todos os gêneros cinematográficos possíveis, mas estava ausente dos suspenses desde 1991, quando comandou o ótimo “Cabo do Medo”. Após ganhar o Oscar em 2006 com o remake “Os Infiltrados” e comandar um mega-show dos Rolling Stones em “Shine a Light”, o diretor resolveu revisitar esse tipo de filme com “Ilha do Medo”, novamente acompanhado por Leonardo DiCaprio, astro dos seus três últimos filmes de ficção.
Baseado no romance de Dennis Lehane, o filme é ambientado na primeira metade dos anos 1950 e conta a história de Teddy Daniels (DiCaprio), um policial federal que, acompanhado de seu novo parceiro, Chuck Aule (Mark Ruffalo), é enviado para uma remota ilha que serve de sede para o primeiro manicômio judiciário dos EUA. O motivo dessa visita é a fuga de uma perigosa paciente.
Atormentado por visões de sua falecida esposa (Michelle Williams) e de seu violento passado na Segunda Guerra Mundial, Daniels sabe que existe algo errado na instituição comandada pelos doutores Cawley (Sir Ben Kingsley) e Naehring (Max Von Sydow) e resolver esse mistério pode lhe custar sua sanidade ou até mesmo sua própria vida.
A despeito do ótimo elenco, que ainda conta com pequenas participações de Jackie Earle Haley, Emily Mortimer e Patricia Clarkson, o grande destaque da fita é realmente o próprio Scorsese, que utiliza o componente psicológico da fita para brincar o máximo possível com o filme, algo fascinante de ser acompanhado para qualquer fã da sétima arte.
Mesmo contando com belas tomadas mais “convencionais” (vide o maravilhoso travelling usado no translado entre o barco e os portões da instituição), com toda certeza, esse é o mais experimental dos filmes do diretor nos últimos 15 anos, não só visualmente como também em sua narrativa, com o cineasta inserindo pequenas pistas sobre a narrativa em meio a pequenos detalhes visuais e explorando ao máximo o diretor de fotografia Robert Richardson.
Scorsese e Richardson se utilizam muito do jogo de luz e sombras para ilustrar a realidade (ou a não-realidade) do que é mostrado em cena, além de ampliar a tensão em determinados momentos do filme, como a visita de Daniels à temida Ala C. A película ainda conta com várias tomadas em ângulos bem fechados, contribuindo bastante para o clima claustrofóbico e paranóico desejado pelo realizador.
Já algumas sequências quase colocam o espectador dentro do filme, como a chegada dos policiais ao manicômio judiciário, que é simplesmente espetacular. Outro fator a ser louvado é a ótima direção de arte, comandada por Max Biscoe, Robert Guerra e Christina Ann Wilson, que faz um maravilhoso trabalho ao criar o ambiente assustador no qual o filme se passa. Vale ainda a pena citar a trilha sonora opressiva do longa, que também contribui na homenagem de Scorsese aos filmes b.
Há uma sequência em especial, que mostra um campo de extermínio nazista, no qual diretor, cinematógrafo, elenco e direção de arte funcionam de maneira estonteante, nos mostrando cenas belas e chocantes. Esses poucos minutos focados na 2ª. Guerra conseguem ser mais pesados que do que muitos épicos baseados nesse conflitos. Destaco ainda as cenas oníricas entre Daniels e Dolores, todas plasticamente bastante interessantes.
O mais interessante é que até mesmo aparentes falhas da produção ou do elenco podem ser explicadas pelo próprio filme. Sim, é um recurso que pode irritar muitas pessoas, mas que encontra um eco até mesmo em uma determinada fala da personagem de Patricia Clarkson. Por falar no elenco este se apresenta de uma maneira homogeneamente eficaz.
A despeito do foco do filme não ser exatamente nos personagens, e sim na narrativa per si e em sua execução, os atores se mostram bastante a vontade na estranha realidade apresentada por Scorsese, sendo Leonardo DiCaprio é o destaque óbvio dentre as interpretações, já que está em praticamente todas as tomadas do filme.
DiCaprio se sai muito bem ao transmitir ao espectador a crescente paranóia e o pânico pelo qual seu personagem passa. Daniels é um homem que já passou por muitos traumas em sua vida e a sua estadia em Shutter Island acaba por expô-los para nós e para ele mesmo de uma maneira arrebatadora.
Mark Ruffalo se apresenta de uma maneira bem contida, a despeito de ter uma cena na qual o ator se solta bastante em uma importante cena entre ele e DiCaprio. Michelle Williams, que aparece apenas em flashbacks e nos sonhos de Teddy, surge bastante artificial em cena, sendo o ponto fraco do elenco.
Ben Kingsley volta à boa forma com o ambíguo Dr. Cawley, uma surpresa agradável, considerando que o veterano ator anda em uma fase bastante turbulenta em sua carreira. Max Von Sydow, com sua voz poderosa, tem pouco menos que uma ponta, sendo triste vê-lo tão pouco em cena, mesmo tendo um ótimo diálogo com DiCaprio.
A falta de tempo de cena também prejudica Emily Mortimer e Patricia Clarkson, que mal aparecem na tela, com as atrizes recebendo pouco destaque dentro do filme. Já Jackie Earle Haley e Elias Koteas, mesmo aparecendo pouco, acabam chamando a atenção do espectador pela natureza bizarra de seus personagens, bem como pelo belo trabalho de maquiagem neles realizado.
Scorsese é um diretores que não possui nada a provar para mais ninguém, razão pela qual o cineasta pode se dar muito bem o direito de realizar o filme que quiser do modo que quiser. Assim, ele pôde realizar um projeto desses, que certamente desagradará uma porcentagem significativa de sua audiência.
Para os fãs do cineasta, bem como para os admiradores das técnicas cinematográficas, “Ilha do Medo” é simplesmente imperdível. No entanto, não estranhem se a pessoa sentada ao seu lado sair frustrada e irritada desta produção, que deverá polarizar opiniões entre os cinéfilos.



























2 Comentários
Mais um filmaço do Scorsese! Atuações, trilha incidental, fotografia (uma das melhores do Scorsese), edição e movimentos de câmera primorosos (dignas de um mestre em plena forma). O filme tem um ritimo lento, que com certeza irá afastar os preguiçosos que só querem ver mais um suspense comum. Shutter Island é tudo menos comum, se não pelo roteiro, pelas técnicas empregadas pelo melhor diretor em atividade. É muito recompensador para mim como fã, ver que o Scorsese não se acomodou nem um pouco após ganhar seu Oscar.
SPOILER abaixo:
Psicodrama.
Gostei muito do filme! A reviravolta do fim não surpreende até porque o próprio trailer e a tagline do postêr já deixavam claro qual era a história.
Fui sabendo do desfecho (pelo menos achando que sabia e se confirmou), mas isso não atrapalhou a andamento do filme pra mim. Talvez seja essa a diferença de se ter um Scorcese na direção. Ele consegue te por na história de maneira que, mesmo você sabendo para onde a história vai ser levada, você consegue se envolver com ela e ansiar sempre pela próxima cena.
Uma bela fotografia, uma direção de arte que coloca em cena não só a caracterização da década de 50, mas também ajuda a criar a sensação de dúvida do que é real ou não. A trilha sonora cria um clima pesado, arrastando sempre consigo a pergunta, “quem está falando a verdade e o que é a verdade?”.
A sequência da balsa de aproximando do cais e depois o carro chegando até os portões da instituição é muito boa e simples. A trilha alta ressoa nos nossos ouvidos de forma a nos fazer adentrar, junto com o personagem de DiCaprio, naquele “universo paralelo”.
Falando em DiCaprio, ele está muito bem. Acompanho a carreira dele deste o começo e a cada trabalho, ele demostra mais maturidade e compreensão de seu trabalho.
Ilha do Medo é muito bom, eu recomendo aos fãs de Scorcese, aos de DiCaprio. Enfim, recomendo aos fãs de uma boa história bem contada, que se não surpreende no seu desfecho, surpreende no cuidado e na beleza de sua realização.