Peter Jackson e suas colaboradoras Philippa Boyens e Fran Walsh tomaram o mundo de assalto com sua adaptação de “O Senhor dos Anéis”, uma daquelas obras literárias que muitos acreditavam ser intransponível para as telas. O diretor e suas co-roteiristas tentaram repetir a façanha com este “Um Olhar do Paraíso”, versão fílmica do romance “Memórias de Um Anjo Assassinado”, escrito por Alice Sebold. No entanto, o resultado desta vez foi um filme bem irregular.
A trama nos é narrada pela jovem Susie Salmon (Saoirse Ronan). Aos 14 anos, ela é uma feliz garota vinda de uma família bem comum, que está enamorada pela arte da fotografia e sonha em dar seu primeiro beijo com o charmoso e sensível estudante inglês Ray. No entanto, Susie é assassinada por um pedófilo, seu vizinho George Harvey (Stanley Tucci). É do meio-termo entre o Céu e a Terra que a jovem nos conta sua história, bem como observa como as vidas de seus pais, de seu amado e de seu assassino prosseguiram sem ela, ao mesmo tempo em que sua alma procura descansar em paz.
Não precisa dizer que se trata de uma história tremendamente ambiciosa, mas Peter Jackson parece ter uma paixão por desafios complicados. Sua bela visão do Paraíso (ou do “Meio-Termo”) me lembrou um pouco de “Constantine”, com o outro mundo sendo uma versão onírica da Terra, com ambos podendo ser afetados pelo outro, algo bastante interessante, mesmo que pouco desenvolvido. Outra similaridade com aquele filme é que os espíritos podem, de alguma maneira, influenciar o comportamento dos vivos, algo também não mostrado em muitos detalhes.
Essa falta de explicações sobre como funciona a passagem entre os mundos incomoda bastante, mas faz sentido, já que o filme não é sobre essa influência, mas sobre como prosseguir vivendo após uma grande tragédia. Nesse sentido, o personagem de Mark Wahlberg, Jack Salmon, é o grande destaque. Pai de Susie, Jack sofre uma perda inimaginável, já que era extremamente ligado à menina. Vindo de uma sequência de filmes fracos, fiquei impressionado com a capacidade de Wahlberg em retratar essa dor de uma maneira nada caricatural.
A morte de Susie desestabiliza todo o núcleo familiar, principalmente por conta desta tragédia ter colocado Jack em uma busca quase obsessiva pelo assassino da garota. Rachel Weisz vive Abigail, mãe de Susie. Honestamente, não consegui me ligar muito a esta personagem. Weisz tem pouquíssimo tempo em cena e, por consequência disso, Abigail nunca é desenvolvida de maneira adequada, levando o público até a sentir certa antipatia por ela quando esta toma uma atitude que chega a ser infantil.
Aliás, a infantilidade é um dos maiores traços do maior erro desse filme, a vovó Lynn, interpretada por Susan Sarandon. Aparecendo em 90% das suas cenas com um cigarro na mão (certas vezes até com dois), Sarandon tem aqui uma das piores performances de sua carreira, com momentos de canastrice que chegam a rivalizar o de John Travolta em “A Reconquista”. O pior é que as sequências onde a atriz está realmente desastrosa podiam ter sido podadas sem nenhum problema, pois simplesmente cortam o ritmo da história e só servem para constranger o público e seus companheiros de tela.
No entanto, devo destacar o ótimo trabalho de Saoirse Ronan e Stanley Tucci. A primeira, que vive nossa narradora e protagonista, é uma promissora jovem atriz com um futuro potencialmente brilhante pela frente. Conquistando-nos nas cenas “terrestres” de Susie, Ronan ainda consegue levar de maneira coerente sua personagem nas cenas do paraíso onírico idealizado por Peter Jackson.
Tucci, por sua vez, cria um personagem realmente assustador e complexo. Não obstante possuir um monstro dentro de si, George Harvey ainda é um habilidoso artesão e cuidado que tem em esconder sua verdadeira persona e seus atos cruéis chega a dar calafrios no espectador. Cada inflexão, gestos e até mesmo a respiração de Stanley Tucci foram medidos cuidadosamente na composição deste fantástico vilão. Ressalto ainda o bom trabalho de Michael Imperioli como o detetive Ray (lembrando muito seu papel na série “Life on Mars”) e de Rose McIver, que vive a irmã mais nova de Susie, Lindsey.
A cinematografia inspirada de Andrew Lesnie funciona bem nos dois fronts. Enquanto com suas cores mais estouradas dá um clima setentista para a fita, nos moldes de “Zodíaco”, os tons mais brilhantes dão o tom do Paraíso de Susie, surgindo uma paleta mais sombria quando necessário.
Nesse mesmo departamento, ainda louvo o bom trabalho da equipe de efeitos especiais em criar o mundo da protagonista, mesmo que aquela rosa dentro do gelo tenha ficado um tanto quanto cafona. Já a montagem do filme não convence, sendo um tanto quanto arrastada (algo agravado pela metragem excessiva da produção), enquanto a dinâmica da transição entre os dois mundos é deveras inconstante. Assistir ao filme, em alguns momentos, torna-se cansativo, justamente por conta das alternâncias constantes de ritmos, tons e realidades.
Peter Jackson e sua equipe cometeram mais acertos do que erros em levar o belo livro de Alice Sebold para as telas. No entanto, os escorregos foram bastante acentuados, resultando em uma fita aquém do seu talento, podendo decepcionar os fãs tanto da obra literária original, quanto do cineasta.
P.S.: Espectadores mais atentos podem achar um pôster de “O Senhor dos Anéis” em uma livraria e uma rápida ponta do próprio Peter Jackson em dado momento da película.



























10 Comentários
Me decepcionou… Não satisfez a expectativa que o trailer tinha me deixado. Até achava que eu iria encontrar algo tão bom quanto Ghost, mas passou longe. Foi uma idéia muito boa, só que mal aproveitada.
O filme começou bem na apresentação dos personagens, me identifiquei com a garota, com a família e até com a atuação meio doentia do assassino… Mas isso foi se perdendo a medida que o tempo ia passando.
Nem sei se considero um easter egg o poster do Senhor dos Anéis. Tá tão gigante que é quase impossível não notar! Hehe Achei bem bacana a homenagem.
Boa crítica, cara.
Concordo com o Diego e com o crítico!!!!!!!
Entretanto, daria uns 4,0 ou 5,0 pontos, ao invés de 6,0!!!!!!!
Eu amei o filme!! Pra mim foi melhor que aquele besteirol do Ghost.
acho que compriu com o prometido para quem já leu o livro na qual ele é baseado parabéns mas que ainda não leu não critique de forma baixa.
o filme é EXELENTE e pra mim merece 10
Um bom filme! Meus destaques: Uma bela fotografia que retrata os anos 70. Mark Walhberg em uma atuação que foi uma agradável surpresa. Saoirse Ronan tem talento e carisma e sem dúvidas pode ter um grande futuro nas telonas. Stanley Tucci com uma excelente performece, fazendo um personagem odioso e plausível. Acredito, depois de assistir ao filme que apenas Stanley Tucci, com este personagem, conseguiria tirar o Oscar de Christoph Waltz.
O paraíso ou “meio-termo” de Susie, apesar de parecer em alguns momentos um tanto confuso, é retratado de forma muito sensível.
Apesar das sequências ficarem um pouco arrastadas, perdendo seu ritmo inicial, por mostrarem os fatos na Terra entrelaçados com os no “meio termo”, o resultado final não ficou prejudicado.
Um filme que acontece em volta de uma tragédia, mas que quer passar uma mensagem otimista. Que é preciso seguir em frente, pois a vida te arrasta pra isso. Que os fatos acontecem por um motivo maior que talvez você nunca conhecerá. E que o que nos espera depois desta vida pode ser algo que jamais imaginamos e que a única coisa que nos compete é apenas não criar barreiras.
Eu recomendo o filme apenas para quem consegue se deixar ser tocado pela essência da história.
“Acredito, depois de assistir ao filme que apenas Stanley Tucci, com este personagem, conseguiria tirar o Oscar de Christoph Waltz.”
Ah, mas não mesmo!!!!!!!!
Eu nunca vi alguém conseguir esconder tanta frieza e mostrá-la no momento certo como fez Waltz!!!!!!!
Stanley foi ótimo e mostrou-se extremamente frio desde o início mas, demonstrar uma certa simpatia de início para depois tornar-se frio de uma hora para outra, é ainda mais difícil do que manter-se frio e calculista desde o início!!!!!!!
Acho que Waltz leva essa e creio que deva levar, até como um estímulo para o jovem e ainda pouco conhecido ator, até porque ele não deixa a desejar em absolutamente nada, assim como Stanley no seu papel de assassino e estuprador!!!!!!!!
Entretanto, além da questão de ser mais difícil representar momentos antagônicos, Waltz teve menos oportunidades e é menos conhecido do que Stanley Tucci!!!!!!!
Essa é uma ótima hora para prestigiar o jovem e talentoso ator de “Bastardos Inglórios”!!!!!!!!
Calma Leandro! Eu disse que Stanley Tucci seria o único que CONSEGUIRIA tirar o Oscar de Waltz. Não acho que vai e sinceramente nunca achei. O que eu quis dizer e talvez não ficou claro, foi que se Waltz não estivesse na lista de indicados, Tucci levaria o prêmio. Ou se preferir, na minha modesta opinião, a segunda opção a melhor ator codjuvante deste ano é inegavelmente Stanley Tucci.
Waltz está sensacional como Hans Landa, é fato!
Eu adorei o filme. Sou uma cinéfila desde criança e não entendo de cinema, do ponto de vista técnico, apesar de já ter feito a metade de um curso de cinema…mas, o filme, para mim, é apaixonante…para quem entende, pode haver defeitos, maas para o espectador comum, como eu, é um excelente filme, com vários ingredientes positivos para que o consideremos assim: bons atores (boa atuação), suspense, e principalmente uma fotografia e efeitos especiais de tirar o fõlego e uma história bem contada, muito bem contada e com uma narrativa inusitada. Muito bo,. Nota 10. Gostei muito de sua vrítica e tomei a liberdade de citá-la como refer~encia de leitura em meu blog, tá? Obrigada.
Pela primeira vez não fiquei muito contente com uma critica do Thiago. Achei o filme muito bom e descordo com ele quando ele diz que o filme as vezes fica cansativo o que em momento nenhum eu senti. Só porque o filme é dirigido por Peter Jackson não quer dizer que tem que ser tão perfeito como o senhor dos anéis. O filme foi muito bom sim, não perfeito, mas bom.
O filme não é esse desastre todo. Talvez esperassem mais de alguém como Peter Jackson, mas é beeeem melhor que as baboseiras de “Além da Eternidade” e “Amor Além da Vida”. Se Jackson mantivesse a sequência de assassinato tal qual no livro, e enxugasse a metragem em 15 minutinhos, elevaria a obra a outro patamar. Do jeito que está, o filme ficou “suave” demais, mas ainda assim é bem acima da média.