Avaliação: 8

Um Sonho PossívelComo falar de “Um Sonho Impossível” sem soar piegas? É meio complicado, pois o longa, que conta a história do jogador americano Michael Oher, abusa do politicamente correto. Oher é um jovem problemático. Calado e de rosto inexpressivo, ele praticamente vagava pela vida como um Buda ou algo parecido até que Leigh Anne Tuohy, uma mulher de classe alta cheia de personalidade, o adotou como filho. O jovem rodava pela rua procurando um lugar quente para dormir quando sua futura mãe o acolheu.

Sem família e nem rumo certo, Oher estava morando com os pais de um amigo (o único talvez), quando eles se mudaram, não o avisando para onde iriam. Estudando em Mississipi, na escola do filho de Leigh Anne, ele era figura conhecida de todos, pois se tratava de um jovem negro muito alto e forte, de pouquíssimas palavras e amigos. Um tipo inusitado em um local que já foi um epicentro de preconceito racial. Com diversos problemas de aprendizado, era considerado problemático entre os professores, que não viam como ensinar o garoto. Acabaram descobrindo que, por trás das poucas palavras, havia um ouvinte, e métodos especiais levaram a escola e entender e aceitar este novo aluno como um deles. Ele começou a se sair melhor na escola.

A amizade entre Oher e o jovem S.J, filho de Leigh Anne, foi um dos catalisadores desse resgate corajoso, aliado também à total falta de preconceito e somada a uma imensa bondade e solidariedade. Afinal S.J é um garotinho, enquanto Oher tinha vinte poucos anos (não sabem ao certo, pois ele não possuía quase nenhuma documentação). A realidade é que a família que o acolhe, composta pelos já citados S.J e Leigh Anne, juntamente ao pai Sean e a filha Collins, são espécies em extinção neste mundo de hoje, ou seja, pessoas verdadeiramente boas. Elas não são santas, cometem seus erros, têm suas dúvidas, mas se esforçam para fazer o melhor, e realmente o fazem. Verdadeiros cristãos republicanos.

Claramente que o porte físico avantajado de Michael foi um dos fatores de ele ter sido aceito na escola em que estava estudando. Ele realmente se mostrava apto à prática de esportes, mas seu jeitão seria um problema na hora dos treinamentos. Entretanto, o rapaz acaba encontrando seu caminho e, como já sabem, se torna um profissional do futebol americano cobiçado pelos treinadores.

O diretor Lee Hancock se sai muito bem à frente do longa. Capturado pela fantástica história que contou, o cineasta segue um caminho clássico, que mantém o clima do filme de forma eficaz. Devido ao passado sofrido do jovem, o drama é parte fundamental da obra, constantes choques de realidade que são sentidos pela família rica, que percebe a distância deles de um universo que se esgueira a margem da sociedade.

Ainda assim, alguns momentos são de uma alegria tão perfeita que chegam a soar piegas, como na cena em que os dois irmãos treinam e fazem exercícios, se divertindo e dando risadas. Praticamente um comercial de margarina. Mas não me entendam mal, somente os mais rabugentos se incomodariam com tal felicidade alheia. Um humor saudável e de bom gosto. Em paralelo, Hancock inova e mostra toda sua criatividade e coragem em certas situações, como os excelentes primeiros minutos, nos quais, de uma forma didática e explicando por meio de cenas reais de um jogo de “football”, avisa que estamos entrando em um mundo esportivo admirado por seus realizadores.

Sandra Bullock se destaca nesta produção como Leigh Anne. Encabeçando o elenco e segurando com força o status do filme, a atriz se sai muito bem como esta personagem, com seu vigor e atitude praticamente se mostrando mais uma exteriorização de comportamento do que uma interpretação em si. É difícil personificar alguém realmente bom sem parecer forçado, e atriz consegue isso. Este com certeza é o motivo da repercussão de sua atuação no filme, que já foi premiada com o Globo de Ouro e o Oscar. Todo o simbolismo de sua personagem real tem uma força inquestionável.

Quinton Aaron, que interpreta o jogador Oher, teve uma tarefa ingrata. O personagem, que é aparentemente simples, traz diversas camadas capturadas muito bem pelo ator. Apesar de um Q.I baixo, o jogador parece ser um gênio na escola da vida. Por de trás de uma infância sofrida, está um homem bom e protetor, um grande irmão urso.

O elenco traz ainda Tim McGraw, interpretando o cúmplice marido Sean. Com carisma, o ator entregou um homem que é submisso a sua mulher, mas como ela está sempre certa e suas lutas são dignas do esforço, ele apóia sua companheira de forma incondicional. Assim também temos a filha Collins, interpretada por sua xará Lily Collins, que alcança também o tom exato para esta linda adolescente que se vê em uma encruzilhada social em sua escola, claramente seguindo pelo caminho correto e sempre mais difícil.

Por fim temos a surpresa do filme, o jovem S.J. O ator mirim Jae Head que o interpreta dá um show com seu personagem, que também é bom com atuação (ele se sai muito bem no teatro da escola) e é apaixonado por esportes. Suas cenas são as mais engraçadas, um alicerce fundamental no filme.

No time de coadjuvantes está Kathy Bates como a professora particular Miss Sue, uma democrata cheia de filosofias e de bem com a vida. Também com um humor de qualidade temos Ray McKinnon como o treinador Burt Cotton, outro que acaba sendo submisso aos conselhos irritantemente corretos da mil e uma utilidades Leigh Anne.

“Um Sonho Impossível” causou certa surpresa ao ser indicado entre os dez candidatos a Melhor Filme na premiação do Oscar. Isso mostra como a história tem sua força própria. Sendo finalizado de uma forma que se tornou padrão para os filmes atuais que reencenam fatos verídicos, os créditos finais são acompanhados de fotos e vídeos da família em questão. Simetricamente representados, reais e ficcionais se confundem. Nada mais comum em mundo onde a vida real é boa demais para ser verdade.