“Garoto conhece garota”. Esse é o mote de um número incalculável de comédias românticas, das fenomenais às imbecis. O que pega em tais histórias é que, quase que invariavelmente, os protagonistas destas são almas gêmeas que logo perceberão que foram feitos um para o outro e viverão felizes para sempre.
Vamos e convenhamos, as chances disso acontecer na vida real são as mesmas de ganhar na Mega Sena duas vezes seguidas. Dai veio “500 Dias Com Ela”, fita despretensiosa, roteirizada por desconhecidos e dirigida por um novato que, mesmo mantendo a fé no romance idealizado, mostra uma história mais pé-no-chão.
Tom Hansen é o nosso personagem principal. Vivido por Joseph Gordon-Levitt, Tom é um romântico arquiteto que estacionou na vida, abandonando sua vocação por não se achar bom o suficiente e parado há quatro anos em uma agência de cartões, encontrando modos de outros expressarem seus sentimentos em poucas linhas. Certo dia, o jovem conhece Summer Finn (Zooey Deschanel), a descolada nova assistente de seu chefe que, simplesmente, não acredita em amor.
Com uma “ajudinha” de seus amigos, Tom deslancha um relacionamento com Summer, que acaba terminando em desastre. Durante os 500 dias que sua ligação com a garota durou, o rapaz passa por uma verdadeira montanha-russa emocional, que acompanhamos durante o filme. Aí é que entra o diferencial do longa: não é sobre o romance de Tom e Summer, mas sim sobre os sentimentos dele durante esse período de um pouco mais de um ano.
Como acompanhamos o filme pelo ponto-de-vista de Tom, conhecemos Summer pelos olhos idealizados dele, o que joga boa parte da responsabilidade em fazer o filme crível nos ombros da intérprete da garota. Afinal, se não nos apaixonarmos por ela, toda a película vai abaixo. Nesse sentido, Zooey Deschanel foi uma escolha perfeita. Longe de ser uma bonequinha de luxo hollywoodiana, a atriz é linda de um modo mais “comum”, embora seus olhos sejam simplesmente hipnotizantes.
Além disso, a personalidade direta e extrovertida de Summer casou muito bem com a atriz, lembrando levemente sua personagem em “Quase Famosos”. A soma desses fatores nos faz compreender porque Tom a viu como “a sua escolhida” logo de cara. Por falar no nosso protagonista, a função dele é a de nos representar dentro do filme.
Um tanto introvertido, mas ainda passional, as reações de Tom à medida que o relacionamento entre ele e Summer avança conseguem realizar um elo de identificação entre ele e o público que simplesmente carrega o filme, algo que acontece graças ao carisma e simpatia do talentoso Joseph Gordon-Levitt. Seja nas partes mais alegres ou (principalmente) nas mais melancólicas, muita gente vai se enxergar nos sapatos do escritor de cartões. Ora, quem não chorou, se deprimiu ou se embaraçou por conta do amor de outra pessoa?
Diretor de primeira viagem, Mark Webb abraça a premissa do filme em acompanhar não o casal, mas o contraste entre os sentimentos durante a relação. O recurso da narrativa não-linear foi aplicado justamente para nos fazer navegar de um modo mais interessante por esse verdadeiro mar revolto pelo qual Tom passa durante esses 500 dias. Em mãos menos sensíveis a isso, certamente esse projeto se tornaria apenas mais um na imensidão de comédias românticas por aí.
Webb lança mão de recursos visuais deveras interessantes para nos mostrar o interior do coração de Tom, como dividir a tela entre as expectativas e a realidade do protagonista em relação a uma situação e também “apaga” o mundo de Tom quando este aparentemente se vê no fundo do poço. Algumas cenas, que podem ser um tanto quanto “surreais” demais, como a musical ou o sonho de Tom, são relevantes para nos mostrar o estado de espírito do rapaz, com tais sequências citadas servindo até como contraponto uma para a outra.
Outro momento de destaque são os depoimentos de Tom em relação a certas características de Summer durante diferentes dias do relacionamento, mostrando como o ponto de vista de alguém em relação à outra pessoa pode mudar, dadas as circunstâncias. No entanto, Webb também escorrega em determinados pontos.
Dentre tais problemas temos a narração, que se mostra intrusiva por algumas vezes, simplesmente falando o óbvio em certos momentos. Já uma sequência na qual alguns personagens falam um pouco sobre o amor soa, se não totalmente inútil, deslocada em meio à narrativa. Tratam-se de pecadilhos que ocorrem durante o filme que, considerando a inexperiência do cineasta, são perfeitamente compreensíveis.
Mais um belo acerto do longa é a sua trilha sonora, que casa perfeitamente com a trama. Considerando que uma das coisas que aproxima Tom e Summer é o amor dos dois pela música pop, a trilha realmente teria de ser escolhida a dedo. A direção de arte e os figurinos do filme também estão de parabéns, nos ajudando a adentrar e acreditar no mundo daqueles indivíduos.
Embora não seja a oitava maravilha do mundo como alguns indies de plantão conclamam, “500 Dias Com Ela” é sim um belo filme, assim como uma ótima terapia para os românticos sofrendo com corações partidos.



























9 Comentários
DA 10 SIQUEIRA DA 10!
A cena Espectativa/Realidade é simplesmente genial. Admita.
Concordo plenamente com a resenha. Eu gostei muito do filme, mas confesso que analisando friamente, encontro erros e alguns elementos um tanto deslocados, que convenhamos, são completamente esperados (por ser um filme independente, por ser um diretor novato…)e irrelevantes. Porém, um detalhe do hype que se criou em torno do filme me incomoda: que ele seria a salvação para o gênero. Boa parte do mérito do filme é sim o “fazer diferente”, mas duvido que isso “pegue”.
No mais, DÁ 10 SIQUEIRA!!!
Eu gostei muito do filme, ultimamente só se tem feito filmes previsíveis e 500 dias com ela não é nem um pouco previsível! O único problema é que de primeira vista ele não é um filme que atraí o público, os atores não são muito conhecidos.
E talvez as pessoas fiquem com raiva porque as vezes, agente vai ao cinema sair um para sair da realidade e esse filme não foge muito dela!
Vou dá uma de fãzote e dizer…
DÁ 10 SICAS, DÁ 10!
Peraí meu querido, esse filme teve muitos elementos positivos, e tipo, o Marc Webb me lembrou muito o Darren Aronofsky e PTA no início de suas carreiras… A originalidade, estilos e técnicas de filmagens e o principal, fazer algo tão original e grandioso.
Então, DÁ 10, DUDE!
Gostei e recomendo o filme. Confesso que o grande fator que me fez gostar do filme, foi a grande identificação que tive com a personagem Summer.
Acredito que o filme mostra algo inevitável que acontece em quase todo relacionamento. Não importa o quanto sincero você é ao expressar os seus sentimentos, não importa se você deixa claro o que espera da relação, você simplesmente nunca vai conseguir que outro não crie expectativas do que você é ou vai fazer. Então é óbvio que as chances de alguém sair machucado é muito grande.
Joseph Gordon tem carisma, levou muito bem o personagem por todos os caminhos de altos e baixos que ele passou. Em alguns momentos ele me lembrou muito, fisicamente falando ou as vezes no olhar, Heath Ledger e com isso me lembrou um de seus primeiros filmes, “10 Coisas Que Eu Odeio em Você”. Que inclusive conta com os dois no elenco. Zooey Deschanel além de ter uma beleza “comum” como disse o Sicas, o que a deixa mais real, consegue colocar sua visão sobre os relacionamentos de maneira muito pessoal, sem ser do tipo que levanta bandeiras e quer impor suas opiniões.
Um filme que não é mais do mesmo, é por isso mesmo é bom!
NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOO gostei desse filme.É CHATO, LENTO… E BLA BLA BLA.
E pelo fato de mostrar uma comédia romântica pelo lado “masculino” foi só por ter sido um ATOR no papel principal.Pois o personagem dele parecia uma mulher não correspondida…
sei lá, achei século XXI demais p/ o meu gosto. Nem parece filme, parece mais a história d um vizinho, um amigo .. q acordou p-u-t-o um dia, e resolveu filmar a própria história de vida..
dou 2,como nota.
E o final não é supreendente, É PREVISIVEL DEMAIS P/ QUEM SABE O Q É REALIDADE.
Concordo com a crítica!
O filme é muito legal, bom mesmo, mas não entendo também todo o hype feito em cima dele! Do jeito que anteciparam nos fazia parecer que seria uma viagem de outro mundo, algo que jamais vimos antes em toda a vida, que seria impossível esquecer o filme!
No final das contas o hype jogou contra, esperei demais e ao término do filme não pude resistir mas pensar: Ah, é legal, mas eu já vi isso antes.
E na verdade, já vi isso antes e havia sido muito melhor!
Exemplos: “Amor Aos Pedaços” com a linda Famnke Jassen – a Jean da trilogia X-Men – ; e “Pequeno Dicionário Amoroso” da sempre competente Sandra Werneck, com a talentosíssimo Andréa Beltrão. Ambas são deliciosas comédias-românticas que retratam diferentes fases do relacionamento de forma muito mais envolvente e prazerosa!
Não que 500 Dias Com Ela seja ruim, mas realmente a sua “fama” acabou o prejudicando! Mesmo assim a fraca qualidade do cenário cinematográfico atual, principalmente nesse gênero, semânticamente transformou o filme de Webb em cult, desmerecidamente!
DÁ 10 SIQUEIRA!!!
O filme é sim muito bom, diferente e por isso se destaca em meio a tantas e tantas comédias romanticas que são feitas todo ano. E também acho que o fato de os atores não serem tão badalados faz com que a película seja mais “real”, e esse é o triunfo do filme: ser realista.
E como disse o Siqueira, a trilha sonora é excepcional. As músicas se encaixaram perfeitamente com as cenas e o conteúdo emocional de cada uma delas, como por exemplo, “Vagabond”, quando Tom está deitado no seu quarto batendo uma bola de Tenis descoordenadamente, ainda meio depressivo, e a música começa a se intensificar e as batidas da bola começam a se padronizar e surge ali uma motivação de mudar a situação atual.
Eu não sou um expert em técnicas e essas coisas, tenho 17 anos e sou somente um grande fã e acompanho de perto o Mundo do Cinema, ouço Podcasts e pesquiso bastante, e acho que essa é uma das melhores comédias romanticas que já vi, não concordo que ela seja a melhor ou que vá mudar o rumo desse genero daqui pra frente, mas nos mostra que esse genero ainda tem mais para mostrar, e não somente mais do mesmo.