Seguindo a corrente de filmes fantásticos lançados e que ainda vão chegar aos cinemas brasileiros no início deste ano, está em cartaz “O Lobisomem”, o ousado remake do diretor Joe Johnston para o clássico que assustou plateias do mundo inteiro em meados de 1941.
Ao lado de vampiros castos, criaturas de coloração azulada e jovens ladrões de raios, o lobisomem de Johnston pode ser encaixado no rol dos seres fantásticos dos últimos lançamentos do cinema, mas o tratamento que o diretor conferiu ao filme garante à trama uma maturidade não presente nas outras produções do gênero. A carga emocional que permeia a narrativa consegue colocar o canino raivoso em um patamar superior aos seus colegas míticos, e a intensidade de suas sensações foi bem trabalhada nesta adaptação.
A história é a mesma da produção original. Na Inglaterra Vitoriana, o ator de teatro Lawrence Talbot (Benicio Del Toro) retorna à cidade em que nasceu para tentar solucionar o mistério que ronda a morte do seu irmão. Ao reencontrar seu pai (Anthony Hopkins), percebe que suas vidas estão diretamente ligadas às circunstâncias do crime, e que seu irmão pode ter sido apenas uma das vítimas de uma verdade que não tarda a ser revelada.
O que garante destaque e diferencia o personagem do que seria previamente imaginado pelo público é a relação familiar desenvolvida na trama. Todos os acontecimentos carregam um peso que ultrapassa gerações e nada pode ser explicado antes que laços sejam restabelecidos e verdades domésticas sejam reveladas. Todo o terror anunciado pelos trailers divulgados se transforma em drama cotidiano, absolutamente comum aos mortais que não sofrem alterações ao luar.
A opção do roteirista Andy Walker (“A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”) foi sábia por contextualizar a licantropia junto ao seio familiar, garantindo embasamento e excluindo uma possível superficialidade da trama. Sua falha reside no lapso temporal existente entre o início e o final da produção, que torna as ações e relações um tanto descompensadas, ou ainda injustificadas. A agilidade na descoberta dos fatos e na apresentação ao público de tudo o que ainda estava escondido é exagerada e incômoda.
Emily Blunt, ao lado de Del Toro e Hopkins, formam o elenco de estrelas de “O Lobisomem”, com interpretações seguras, embora um tanto contidas, como se estivessem guardando o melhor para um segundo ato que não existe. Hugo Weaving, no papel do detetive que investiga as mortes, é o ator que merece destaque por oferecer uma atuação mais vivaz e bem definida.
O maior mérito de “O Lobisomem” reside no que diz respeito ao trabalho dos envolvidos na produção e direção de arte. O vilarejo em que se desenvolve a narrativa foi perfeitamente trabalhado e as sequências de perseguição realizadas entre as árvores da floresta assustadoramente monocromática revelam um empenho dos profissionais de arte que merece ser citado. O clima sombrio foi construído de forma equilibrada: não parece falso, mas também não alcança os exageros estéticos de Tim Burton.
A fotografia cinzenta também é responsável pelo equilíbrio estético do filme e ajuda na construção dos dramas vividos pelos personagens. Ela parece reafirmar o sentimento de solidão e desamparo que cada um vivencia, colocando cada pessoa em uma posição de possível vítima do monstro.
“O Lobisomem” é falho no ponto em que deveria ter acertado. Ter incluído um drama familiar em uma narrativa fantasiosa foi uma escolha inteligente do roteirista, que conseguiu humanizar o personagem e oferecer uma explicação plausível para seus atos. Agilizar tal explicação e atropelar as revelações em prol da construção dos sentimentos do personagem, porém, não foi uma opção sensata. Para aqueles que prezam pelo equilíbrio entre fantasia e realidade, e que esperam por conforto estético e uma pitada de originalidade, o filme é uma boa pedida.



























1 Comentário
Recentemente assisti no Cine Olimpia de Belém, – o cinema em funcionamento mais antigo do Brasil – o clássico The Wolf Man.
Um grande filme, sinceramente me senti nos anos 40, morrendo de medo de um tal lobisomem! hahahaha.. uma sensação impagável.
Não há mais filmes de terror assim, infelizmente são poucos os remakes que vingam. Porém, estou extremamente ansiosa para assistir este. Espero ter a mesma sensação que tive ao assistir ao original.
Abraços