Se não fossem as recentes aclamações por parte da crítica especializada e das grandes premiações do cinema (o Oscar inclusive), “Guerra ao Terror” (The Hurt Locker, 2008) teria passado batido pelo grande público. O filme da americana Kathryn Bigelow, assim como o “Redacted” (2007) de Brian De Palma, que também vê com uma perspectiva crítica a guerra no Iraque, foram bem mais negligenciados pelos exibidores e distribuidores brasileiros do que era de se esperar pelo seu impacto. Felizmente, os louros que “Guerra ao Terror” continua recebendo no exterior surtiram efeito aqui, e o filme estreou (tardiamente) em algumas salas do país.
Felizmente também, porque Kathryn Bigelow é uma das poucas cineastas a tratar frontalmente da participação americana nos conflitos no Oriente Médio. Com pouquíssimos personagens, seu filme joga com a tensão em suspenso, ao seguir as empreitadas de uma unidade de desarmadores de bombas no Iraque. Eles são apenas três soldados, e quando o chefe da missão morre, os dois desarmadores restantes ficam perturbados com o seu sucessor, Sargento James (Jeremy Renner), um tipo que não parece ter medo de nada e não hesita em violar os procedimentos habituais ou a driblar as hierarquias para gerenciar as situações de risco de acordo com seus próprios instintos.
Reverenciando o que talvez seja o assunto preferido na sua trajetória cinematográfica, o próprio homem, a diretora constrói uma guerra muito mais ativada pela adrenalina do que pela testosterona. Esse não é o típico filme de ação e combate. O homem aqui não é o guerreiro másculo, um herói ou vilão romantizado, mas algo bem mais próximo do sujeito moderno, visto de perto.
“Guerra ao Terror” se desenrola em uma sucessão de operações anti-bomba cuidadosamente orquestradas para manterem a tensão do espectador sempre em pico. Estamos em um Western, o homem face ao explosivo, uma imagem que se repete ao longo do filme. E ao invés de se lançar nos grandes discursos sobre a guerra no Iraque ou a política Bush, Bigelow prefere se concentrar nesse aspecto particular, bem menos desgastado, do conflito, que é o trabalho cotidiano dos soldados, nesse caso, dos desarmadores. A narrativa se abre, então, para as circunstâncias precisas e minuciosas da vida desses homens no campo de batalha: seu medo, sua espera, sua técnica, suas distrações banais.
A diretora percorre o que é detalhe e concreto na rotina dos personagens. O indivíduo é o centro e é ele que motiva a ação coletiva. Esse é um caminho que vai na contramão da maior parte dos filmes sobre a situação dos americanos no Iraque. Normalmente a guerra é vista mais de longe, em um contexto mais geral, e não encarada tão de frente. O lado político, normalmente, prevalece sobre o individual. No entanto, os movimentos das altas esferas políticas são notavelmente ignorados em “Guerra ao Terror”, cuja principal preocupação parece ser construir uma crônica densa do dia-a-dia de uma pequena equipe de soldados americanos.
Assumindo trejeitos de documentário, a câmera é como um membro da equipe. Em sintonia com a causa dos desarmadores, ela adota o seu ponto de vista, vigia nervosamente sobre os seus ombros durante as operações, filmando seus rostos de perto para captar o menor sinal de perigo. O realismo da câmera na mão é, de certa forma, uma recusa da estética ligada ao gênero e o estilo de repórter de guerra divide com os personagens, e com o público, os momentos de tensão, nos quais o tempo se dilata nos longos minutos que precedem a ação.
A natureza indecisa da linha de frente é também muito bem pensada. Que seja na zona urbana ou no deserto, é difícil ver com precisão onde estão os americanos e onde está o inimigo. A posição que Bigelow dá aos iraquianos parece justa e honesta: eles não são invisíveis, existem no filme, mas a cineasta não tenta nunca se colocar no lugar deles, evitando cair em um ponto de vista que poderia parecer fácil, paternalista. As diferentes figuras de iraquianos que aparecem desenham o mosaico de um povo ocupado, que a cineasta mostra sem julgar.
Da mesma forma, ela também não julga o Sargento James quando entrega a ele a maior problemática do filme, “A guerra é uma droga”. Essa é a síntese e a conclusão da crônica de Bigelow, e é com essa frase que ela começa sua obra. Se a guerra é uma droga, James é um inegável viciado. A diretora despe o conflito do seu contexto maior, para mostrar um soldado tão habituado ao seu cotidiano de desarmador de bombas, que se tornou dependente dele.
Como um workaholic, o Sargento não vê sentido na sua vida se não estiver trabalhando, sempre em contato com uma explosão eminente, não só por causa da necessidade de adrenalina, mas porque é isso que ele sabe fazer bem. Assim, a guerra deixa de ser um dever para virar uma rotina confortável, de certa maneira até um pouco banal, e não uma interminável luta pontuada de heroísmos e demagogia. Sem condenar ou exaltar o conflito, a crítica que o filme coloca não recai sobre o personagem, e sim sobre o próprio homem moderno e sua necessidade de achar escapismos.



























1 Comentário
Estou estupefata, pois não acreditava que este filme teria algo aproveitável.
Sinceramente, pensei que seria mais uma dos americanos querendo dar uma de “policiais do mundo”, mas.. pela crítica acabo de ter uma nova perspectiva.
Estou ansiosa para assisti-lo.
Abraços