Que Jason Reitman é um cineasta talentoso, todos sabemos. Vindo de ótimos filmes como “Obrigado Por Fumar” e “Juno”, esse jovem diretor de apenas 32 anos já carrega nas costas o peso de ser um nome premiado no cenário hollywoodiano. Neste seu terceiro longa, “Amor sem Escalas”, Reitman aprofunda o tema do crescimento emocional, algo que se torna recorrente em sua curta, porém vigorosa, filmografia.
O filme é baseado no romance escrito por Walter Kim e adaptado pelo próprio Reitman ao lado de Sheldon Turner. Retornando ao cenário empresarial americano, que havia apresentado com sucesso em “Obrigado Por Fumar”, o realizador agora retrata esse mundo como um em ruínas graças à crise econômica.
As lojas varejistas estão em queda, a indústria automobilística pouco produzindo e o ramo imobiliário está na sarjeta. Nesse contexto, conhecemos Ryan Bingham (George Clooney), um profissional do desligamento, que trabalha para uma empresa que o “empresta” para outras para realizar o processo de demissão dos empregados, uma ação absolutamente brutal que ele tenta realizar com certa dignidade.
Esse emprego (função que, pelo que sei, é fictícia) o mantém viajando quase onze meses ao ano, algo perfeito para seu estilo de vida desapegado, tendo fidelidade apenas às companhias aéreas e clubes de cliente. Ele é uma figura praticamente inexistente à sua família e não tem relações relevantes em sua vida, carregando em sua vida apenas o que cabe em sua bagagem.
No entanto, seu chefe (Jason Bateman) anuncia que irá suspender as viagens de todos os empregados da companhia para implementar um sistema demissional via internet, algo proposto pela jovem executiva Natalie (Anna Kendrick). Após demonstrar que a garota não conhece muito da arte de demitir pessoas, fica decidido que Natalie acompanhará Ryan em suas jornadas por um tempo, para aprimorar seu novo sistema.
Assim, os dois acabam por formar uma relação de amizade, para surpresa de ambos. Ao mesmo tempo, a executiva Alex (Vera Farmiga), uma mulher que o protagonista encontra em suas andanças pelos EUA e que viaja quase tanto quanto ele, acaba conseguindo, aos poucos, ganhar um espaço no seu coração. Aos poucos, uma dinâmica de relacionamentos é criada entre Ryan e essas duas novas figuras em sua vida
É interessante que nada sobre Ryan é escancarado para o público, com Reitman e Clooney nos apresentando as nuances do personagem de maneira orgânica. Desde a explicação da ocupação de Ryan, passando pela exposição do estilo de vida do protagonista até a sua rotina atípica. Tudo isso é apresentado de uma maneira dinâmica, não só por meio de simples diálogos expositivos, mas também da própria direção de arte e do figurino prático do personagem.
George Clooney, aliás, dá um verdadeiro show como o demissor profissional. Em suas mãos, Bingham se torna um ser absolutamente complexo, não uma pessoa aborrecida como poderia ser caso o papel caísse para um ator menos capacitado. Veja o tom como ele fala da morte dos pais e avós, seu flerte com Alex quando os dois se conhecem e, principalmente, as cenas que mostram Ryan em ação no seu trabalho.
Bingham é uma pessoa que realiza o proverbial trabalho do encarregado em dar más notícias. No entanto, ele realmente acredita na importância do que faz, vide a defesa feita por ele frente ao seu chefe do seu modo de agir profissional. Nesse ponto, o filme faz uma crítica mordaz à coqueluche mundial em realizar ações brutais, sejam pessoais ou no trabalho, de maneira virtual. Assim, o filme realiza uma defesa muito forte do contato humano e dos relacionamentos presenciais, mas escorrega ao tentar forçar demais essa mensagem em alguns momentos do seu terceiro ato.
Mas se Clooney não tivesse companhia a sua altura em cena, seu desempenho seria irrelevante. Neste sentido, Anna Kendrick e Vera Farmiga não deixam a peteca cair. A jovem Kendrick, vinda de participações pequenas na franquia “Crepúsculo”, se mostra bastante capaz, com uma personagem que passa por um arco dramático bastante interessante, apresentando até mesmo um timing cômico surpreendente. Vera Farmiga, por sua vez, se mostra bastante segura como sua Alex, uma mulher forte que realmente consegue ser uma parceira para Ryan em sua filosofia de vida.
Farmiga e Kendrick possuem uma ótima química com Clooney, com uma das melhores cenas do filme vindo justamente de um momento de interação dos três em um aeroporto, gerando uma dinâmica quase familiar (pai, mãe e filha) para o trio. Em participações menores, vale destacar as aparições de Jason Bateman, mais contido que de costume como o chefe de Ryan e Natalie, e J.K. Simmons, que já se mostra como um dos atores favoritos de Jason Reitman, vivendo um dos empregados demitidos pelos personagens de Clooney e Kendrick.
É engraçado notar que, a despeito da crise econômica ser apenas o pano de fundo do filme, o longa faz um trabalho extremamente relevante ao mostrar como a vida nos EUA fora afetada por isso. Novamente destaco a competência da direção de arte do longa, que nos apresenta a escritórios acabados pela falência de empresas e avisos de execução de hipotecas em diversos pontos da fita, demonstrando realmente quão devastador fora o efeito deste desastre econômico no país mais rico do mundo.
Há uma cena em especial que ilustra a sensibilidade de Reitman ao lidar com o tema, quando nos mostra Natalie sentada em meio a um mar de cadeiras jogadas e emocionalmente acabada após “desligar” diversos empregados em uma empresa. Além disso, o cineasta se utiliza de diversas pessoas que realmente foram demitidas para contracenarem junto a Clooney e Kendrick, dando um tom mais realista (e triste) ao momento das demissões.
“Amor sem Escalas” é o trabalho mais maduro deste jovem cineasta, não apenas comandando um filme com um roteiro complexo e com diversas camadas, mas também nos mostrando essa história com um apuro visual incrível como a abertura do longa e a rotina de viagem de Ryan. Particularmente, achei a sequência das mochilas lado a lado uma das coisas mais românticas que vi nos últimos tempos. O diretor ainda insere uma ótima trilha sonora, que encaixa muito bem não só com os momentos específicos, mas com os personagens e com a fita como um todo.
O longa é uma fusão perfeita entre roteiro e estilo que gera um filme tocante e poderoso, mas que consegue divertir seu público, com um humor bastante integrado à sua história. A despeito de alguns problemas em seu terceiro ato, a fita conta com uma conclusão nada convencional, coroando mais esta ótima produção de Jason Reitman, que prova que seus filmes anteriores não foram sorte de principiante. Recomendado.



























9 Comentários
Voce ta segurando seus 10 ein siqueira haheahah
de qualquer forma, otima critica, e o filme eh excelente msm
abraço
Dá 10 Siqueira!!!
Brincadeiras a parte, também gostei bastante do filme.
Achei que ritmo cadenciado que ele impõe caiu muito bem aqui. Tem um tempinho que não vejo um filme “devagar” assim me agradar tanto.
Sobre as atuações, o Clooney realmente dá show, o que acaba por confirmar seu posto entre os maiores atores “atuais”, porque convenhamos, depois de belos papéis em Syriana, Queime Depois de Ler, Conduta de Risco… é difícil não coloca-lo como tal. Por outro lado, a Anna Kendrick está surpreendentemente bem no filme. Confesso um pouco de preconceito com esses atores de franquias mais “pop”, mas aqui ela realmente mostra competência e um futuro promissor.
Gostei muito do filme concordo com vc Thiago
Gostei tb do "rapacast" dele!
Abrço
Achei o filme lento, não é ruim de assistir mais tinha maiores expectativas por se tratar do Clooney. Com certeza não botaria um nove, faz o que tem que fazer mais não asombra com um 7 estava bom para mim.
DÁ 10 SIQUEIRA!
Amei esse filme, fazia muito tempo que um filme me pegava desse jeito….
Gosto de filmes que se fazem a partir de roteiro competente, atuações seguras e direção detalhista e esse é um exemplo clássico do trio que é receita de sucesso.
Contudo fico com o Thiago e dou 9, porque o dez só podemos atribuir a clássicos que vemos nascer……
O que esperar de uma película em que a parte fotográfica e visual é bem feita (levando em conta as características, os objetivos e as ideias do filme), todos os atores (protagonistas, secundários, etc) atuam super bem, o roteiro é extremamente bem elaborado e estrategicamente arquitetado, o enredo é simplesmente fantástico e completamente imprevisível, além de toda a complexidade da trama envolvida e das relações humanas em questão, que dificultam prever qual será o próximo passo dos personagens envolvidos???????
SIMPLESMENTE, UM FILME FANTÁSTICO!!!!!!!!!
Grande destaque para o ROTEIRO e para o ENREDO, competentíssimos, como os colegas já falaram por aqui em suas postagens!!!!!!!
É realmente de se ficar sem palavras!!!!!!!
Só não é possível dar 10 pois, como a colega falou anteriormente, não se trata de um filme completamente inovador e revolucionário ao ponto de se tornar um clássico!!!!!!!!
Entretanto, é excelente no sentido de que inova em alguns aspectos sobre o ponto de vista abordado acerca das relações humanas, outras perspectivas, bem como uma nova abordagem para algo que já é relativamente conhecido, mas que ainda assim é de difícil previsão e dedução: as relações humanas!!!!!!!!!
Excelente!!!!!!!!
Siqueira, pq vc deu 9 para Up in the Air e 10 para Spiderman 3?
Uma palavra resume bem o que foi esse filme pra mim: Inesquecível!
É ótimo quando surge no cinema uma obra magnífica como essa, em que todo o conjunto brilha, é uma oprtunidade única para aproveitar aos máximo esse presente.
Concluindo, o cinema mundial se enche de esperança novamente com Jason Reitman sendo um dos carros chefes desse processo de renovação e não há como não falar de George Clooney, um dos melhores atores da história – a trilogia 11 Homens e 1 Segredo e o próprio Amor sem Escalas comprovam isso.