Cinebiografias já são algo complicado de se fazer sem a glorificação exarcebada do biografado quando este já deixou esse mundo, imaginem quando o objeto do filme não só está vivo, mas é o Presidente da República do país onde o longa é realizado, como é o caso deste “Lula, O Filho do Brasil”.
Deixo claro que, com algumas exceções, este filão cinematográfico raramente me agrada justamente por conta do quase messianismo encarnado nos protagonistas desse tipo de produção. Dito isso, a produção aqui em análise até que se esquiva disso, mas o peso de retratar a história do nosso Chefe de Estado presente parece ter sido um pouco demais em determinados momentos.
Os realizadores tinham em mãos um arco narrativo de fazer muitos roteiristas de Hollywood corarem; material rico e repleto de viradas e esperança. Mas o roteiro de Fernando Bonassi, Daniel Tendler e Denise Paraná, baseado na biografia escrita por essa última, acaba deixando muita coisa de fora e, combinado com a direção pesada de Fábio Barreto, leva o filme muito para o melodrama.
O longa começa em 1945, com o nascimento de Luiz Inácio da Silva em um pobre casebre no interior de Pernambuco. Após uma infância em meio à pobreza, ele e sua família acabam indo para São Paulo, onde são recebidos com nenhum carinho pelo pai do protagonista, o bêbado Aristides (Milhem Cortaz). Após abandonarem o pai, Luiz e seus irmãos são criados com muito sacrifício apenas por sua mãe, a valente dona Lindu (Glória Pires), figura central na vida do futuro político.
O tempo passa e o menino se transformou no rapaz Lula, que estuda para se tornar um metalúrgico e acaba, meio que sem querer, se envolvendo com o movimento sindicalista, enfrentando a opressão da Ditadura Militar para dar melhores condições de vida aos companheiros. No meio de tudo isso, Lula enfrenta a tragédia que assolou o seu primeiro casamento com Lurdes (Cléo Pires) e encontra alento nos braços de Marisa Letícia (Juliana Baroni).
A despeito da própria trajetória de Lula já ser uma vitória sobre si, os realizadores resolveram dar um ar de “novela das oito” para o projeto, sempre carregando demais na emoção, fazendo com que alguns momentos, que deviam ser fortes por si mesmos, soassem estranhamente exagerados. Como exemplos, cito as sequências de embriaguez de Aristides (com closes horrendos na boca de Milhem Cortaz), o acidente sofrido pelo protagonista junto ao torno mecânico ou a trágica notícia recebida por Luís Inácio no hospital. Nessas cenas, o melodrama simplesmente impera, sem espaço para emoções verdadeiras.
Há ainda outro detalhe sobre a interpretação de Rui Ricardo Dias no papel do Lula adulto. Por várias vezes, o sotaque e a dicção característicos do personagem simplesmente não existem, quase lembrando ao espectador que ele está vendo uma reencenação de algo, quebrando a imersão do público. O ator se sai bem no papel, mas boas cinebiografias exigem mais do que simplesmente interpretações razoáveis, mas verdadeiras encarnações cênicas das figuras mostradas, vide Jamie Foxx em “Ray” ou Marion Cotillard em “Piaf – Um Hino ao Amor”.
Não é só um evento histórico que está sendo retratado pelo filme, mas uma figura histórica cuja trajetória está sendo esmiuçada e parece que Dias simplesmente não se deu conta de sua importância dentro do projeto. Por outro lado, temos Glória Pires cuja Dona Lindu impressiona por sua força e coragem. Até por ser uma personagem menos conhecida pelo grande público, temos a oportunidade de nos surpreender por aquela mulher que tanto se sacrificou pelos filhos, sendo a interpretação de Pires o grande destaque do filme.
As demais mulheres da vida de Lula, seus interesses amorosos, não são tão bem exploradas assim. Cléo Pires e Juliana Baroni fazem apenas o básico vivendo Lurdes e Marisa Letícia, com Baroni surgindo apenas no último ato do filme e sua personagem tendo pouco tempo para se mostrar para o público.
Devo dizer que a escalação de Cléo Pires para o papel da primeira esposa de Lula fora um grande equívoco por parte da produção. Nada contra a atriz, mas não pude deixar de pensar durante as cenas nas quais aparecem Luiz Inácio, Lurdes e Dona Lindu juntos que nosso Presidente sofria de um imenso complexo de Édipo. Afinal, Glória e Cléo Pires são mãe e filha na vida real e se parecem muito, sendo este um grande problema de casting.
O filme conta com uma ótima direção de arte, recriando bem os momentos históricos vividos pelos personagens, além de uma fabulosa trilha sonora do talentoso compositor carioca Antônio Pinto. No entanto, há os citados exageros melodramáticos na condução da narrativa por parte de Fábio Barreto, mas devo dizer que o diretor também acertou em certos pontos, como na boa inserção de imagens de arquivo e nas ótimas sequências no interior do Nordeste brasileiro, logo no começo do filme, que captaram bem a essência dos retirantes.
Falando na narrativa, devo ressaltar o bom trabalho do departamento de montagem, que imprimiu um bom ritmo ao longa, mas devo dizer que a produção simplesmente não conta com um bom epílogo, se encerrando abruptamente e sem um desfecho coerente com a trama, não mostrando os esforços políticos de Lula nem o resultado de sua luta sindical.
No final das contas, temos um filme bastante falho, mas com uma premissa extremamente forte. Deverá agradar à grande parte de seu público mais pela trajetória de Lula do que por suas virtudes cinematográficas. Para aqueles que quiserem realmente saber mais sobre a luta daquele retirante nordestino para assumir a presidência, recomendo assistir ao documentário “Entreatos”, lançado em 2004 e que mostra muito mais do homem Luiz Inácio Lula da Silva que este filme.



























17 Comentários
Companheiros,
A burguesia quer derrubar o filme que todos esperamos a vida inteira para ver!
Não se deixem levar pelas palavras desse playboyzinho capitalista que fala do alto do seu imóvel de classe média alta de alguma capital brasileira.
Assistam ao filme, que é simplesmente fenomenal e emocionante!
Vai levar a crítica pro lado pessoal?
Foi totalmente educado, profissional e mostra a opinião dele claramente.
É difícil ver crítica assim hoje em dia…
E se você fala desse jeito de playboyzinho, pensa no Lula hoje.
Haha. Playboyzão.
Tirando Gloria Pires, o resto da pena, muita por sinal, pois o filme cansa e tem uma hora que mesmo você não querendo acreditar que o filme foi feito pra criar um mito falso, você sai da sala frustado por pensar nisso, mesmo não querendo ser o chato contra esses tipos de filme, não deu, forçaram a barra.
não perco o meu tempo vendo esse tipo de filme. eca!!
Concordo totalmente co a lolla ! Um filme que pode ser ate “tocante” para alguns, mas que contem extremos exageros, e que nem fez o sucesso que todos’ esperavam. Acho esse filme é mais uma propaganda do que uma lição de vida. E aos que talvez respondam a minha mensagem a opinião é minha !
Concordo com o clima melodramático, mas também preciso ser honesto em dizer que fiquei comovido em várias cenas. Há oportunidade de tomarmos conhecimento de partes da vida de Lula que muitos de nós não conhecemos, como a importância de sua mãe, cuja fibra da mulher nordestina foi muito bem representada. Sem dúvida Glória Pires se destaca no elenco.
Sinto em dizer que depois de BESOURO eu não assisto mais filme brasileiro no cinema, a nao ser que saia algum filme ao nível do tropa de elite, não falo em cópia e sim em revolucionar e agradar, o dinheiro é curto eu sei, mas da dificuldade nasce a criatividade…Espero um dia nosso cinema abordar a nossa verdadeira história que encontra-se ainda somente nos livros de histórias…
Questões político-eleitoreiras à parte, o filme é bem ruinzinho enquanto cinema mesmo. O que é aquela barriga de grávida e aqueles atores olhando para a câmera? Com a grana injetada no filme poderiam ter, pelo menos, caprichado na barriga, né não?
A história também é muito fraquíssima. Focaram tanto no Lula sindicalista que o filme perdeu o interesse humano.
Adivinha se o longa foi bem no Nordeste?
O filme é um lixo. Junto com outro lançamento como o famigerado filme da XUXA esse filme é uma bomba.
Demorado, história fraca, desempenho dos atores lembra a novela Tieta(novelão legal, a mulher de branco…), forçaram a barra.
Ano de eleição, maior propaganda não há.
Ouvi por aí que estão pensando em lançar um filme do “Serra”, cujo título será: “Serra, a minha a sua e a de todos”.
ê Brezilzaço….
Melhor comentario de todos.. hahahahahah
Bom, como sou anti-Lula, anti-PT e anti-comunista (além de anti-capitalista), não tenho pretensão nenhuma em assistir ao filme!!!!!!!!
Dizem que o filme é focado na história da vida dele, mas eu duvido muito que o filme não tente incutir ideologias e pregar / incentivar determinados comportamentos a serem tomados pela Sociedade!!!!!!
Se fosse tão somente uma biografia, quem sabe valesse a pena assistir, já que, querendo ou não, a vida do Lula pode servir de exemplo de persistência, determinação, perseverança, coragem, luta e foco em determinados objetivos!!!!!!!!
Ano de eleição, maior propaganda não há.²
Bicho, na boa. Tú ainda divide o Brasil em burguesia e proletariado???? de onde tu saiu? Outra tu ainda achas que Lula é do proletariado, na boa mermão…se liga!!! Você já viu no TSE a declaração de renda do barbudão burgues? fala serio mérmão!
agora sobre o filme, olha, na boa, o filme é muito ruiim, uma historia mal contada e atrapalhada…ruim demais…deveria ter curtido os outros filmes, nao vi porq nao tinha dinheiro para tanto. Talvez se eu fosse um burgues como voce eu teria visto. Quem sabe quando serra derrubar a casa dos PTralhas eu nao volto a ver 5 filmes só paara analizar, né?
COM CERTEZA ABSOLUTA É MAIS UMA PROPAGANDA POLÍTICA FINANCIADA PELAS EMPRESAS INTERESSADAS EM MANTER PRIVILÉGIOS JUNTO AO GOVERNO.
Bem, para começar, não acho que seja um filme com “propaganda política”. Ele NÃO irá concorrer nesta próxima eleição. No máximo, o filme deixará uma imagem boa dele quando sair do poder. E mesmo assim, o filme não mostra a trajetória política dele no PT.
Besouro foi uma grande bomba! Roteiro péssimo e protagonista sem carisma, a melhor coisa dele foi o trailer do filme do Lula, o que me incentivou a ver “Lula, o Filho do Brasil”.
E fui ver o filme indo contra todas as pessoas que caçoavam de mim e que torciam o nariz pelo filme, só por ser nacional. Acho que valeu a experiência de ver no Cinema e isso para mim é o que importa. Podemos dizer que Biografias são sempre cheias de clichês e não mostram os podres… mas vale lembrar que é uma adaptação de uma biografia vinda de um livro e não um documentário.
Quanto às atuações, gostei muito da atuação de Rui Ricardo Dias. Mas muito bem lembrado mesmo Siqueira, eu também notei isso:
” Por várias vezes, o sotaque e a dicção característicos do personagem simplesmente não existem”
Sobre a interpretação do Milhem Cortaz, no papel de pai do Lula, achei boa, mas meio “over acting” demais. Acho esse cara um puta ator, mas neste filme seu trabalho foi regular.
É isto, a mensagem que deixo é: Se não estiverem com vontade, não vejam na marra. Mas se estiverem afim, assistam! Deixem de ter preconceito só porque o filme é nacional e porque não é um mega blockbuster.
Um grande abraço à todos.
!
Realmente não é só propaganda política, é uma política de propaganda (enganosa)