Sempre temos o mesmo enfoque em filmes catástrofes, fazendo dos EUA a capital do planeta e seus presidentes os grandes salvadores da pátria. E, é claro, é comum que Roland Emmerich esteja conduzindo esse projeto. “2012” carrega parte dessas características sim, mas o diferencial é que, depois de tantas produções do gênero, podemos dizer que finalmente achamos a obra definitiva sobre o mesmo.
Emmerich é especialista em destruição global. Ele estava lá em “Independence Day”, “Godzilla” e “O Dia Depois de Amanhã”, e não obteve total êxito em nenhum deles. Mas foi gritante a evolução que ele teve no desenvolvimento de cada um deles. E com “2012”, talvez Emmerich não consiga fazer o que um Steven Spielberg faria, mas é bem provavelmente que conquiste o ápice de sua competência como diretor do gênero.
É até compreensível que considerem que o máximo do diretor não passa de medíocre. Não há suficiente desenvolvimento dos personagens, há clichês de extremo mau gosto postos de propósito, além de ser um filme longo – mas não muito cansativo – que dá o máximo de si durante os primeiro e segundo atos, como em “O Dia Depois do Amanhã”, e que todo o resto é só uma consequência um tanto arrastada do que aconteceu. Mas o trunfo de verdade é como o diretor avança um degrau no patamar que ele mesmo criou. Ou seja: vemos o mesmo de sempre, mas bastante melhor.
O filme tem sua história baseada em uma crença Maia, que afirma que o planeta sofrerá graves disfunções climáticas no ano de 2012. Hipótese pouco conhecida, mas que é vastamente estudada por cientistas e geólogos, que começam a advertir com comprovações físicas da culminância dessas teorias. Com isso, temos várias histórias que se interligam na fuga desesperada do caos que o planeta se transforma. O grande plano é pôr uma parte da população em “naves” – plano semelhante ao de “Dr. Fantástico” de Stanley Kubrick ou “Wall-E” -, juntamente com animais, na intenção de propagar a raça humana, como na arca de Noé.
O truque para conseguir tirar proveito dessa experiência é justamente estar ciente das verdadeiras intenções do mesmo. A questão é: Emmerich ainda preza por usar seu tempo de projeção para focar nos dramas dos personagens rasos e em frases de efeitos inócuas. Ainda aproveitando-se de situações absurdas em série, que são divertidas de acompanhar, mas que perdem sua força por utilizarem fórmulas semelhantes. Ainda mais com 158 minutos de duração, que desenvolvem-se em uma boa proporção, mas que mostram um ego desnecessário do cineasta.
Contudo, é gritante a experiência que o diretor adquiriu ao longo de todos os seus trabalhos. A sequência da fuga de Los Angeles é absurdamente bem filmada, com efeitos especiais fantásticos e edição perfeita. Além de utilizar-se de planos fechados, Emmerich ainda se mune provavelmente da câmera digital para filmar algumas cenas – como em “Império dos Sonhos” de David Lynch -, que habitualmente dá um ar de veracidade para as filmagens. E ele ainda abusa de imagens icônicas e planos belíssimos do cataclismo global, utilizando praticamente todos os meios de destruição em massa como mini-meteoros, tsunamis, vulcões, terremotos, e saindo-se bem sucedido em todos eles.
O roteiro tem uma premissa bastante interessante, mas não aproveita quase nada, explorando superficialmente diversos aspectos, mas sem aprofundar nenhum deles. Poderíamos ter um conteúdo religioso mais forte, que ainda tem imagens significativas como a separação de Deus e do homem na capela Sistina, mas que não há o debate que necessita. A política é um tema explorado nos primeiros atos também e tem até um conteúdo relevante, mas sem destaques. Se o discurso fosse um pouco mais distinto, os diálogos um pouco mais eficazes e as frases mais bem empregadas, certamente o longa seria de completa aprovação.
O elenco é competente e talvez aqui resida parte do sucesso de “2012”. Com talvez o melhor conjunto de atores que o diretor já trabalhou, todos conseguem ser simpáticos e convincentes em suas respectivas atuações. O fato de o filme contar com “um conjunto” de personagem e não “o” personagem central, favorece com que cada profissional tenha seus destaques. Não há muito o que se falar individualmente, mas sim do funcionamento do conjunto. Seja por John Cusack que consegue ser simpático, por Woody Harrelson que talvez fez o melhor personagem da trama, por Danny Glover que faz o presidente, pela dupla de beldades Amanda Peet e Tandie Newton ou pelos atores mirins, temos um grupo em boa interação aqui.
A parte técnica não é nada menos que fantástica. Se essa era a intenção real do filme e se os espectadores forem assisti-lo nesse propósito, será completa a satisfação. Emmerich utiliza-se tão bem dessa ralação cena/efeito, que faz até Michael Bay cair em desespero; porque aqui temos efeitos que contam alguma história e com relevância. Com uma plataforma de inúmeras possibilidades para exploração de efeitos, provavelmente a melhor desde “Matrix”, somos apresentados a um espetáculo visual. E essa é a prova mais concreta que temos atualmente de como a diferenciação em tela entre o que é real e o que não é, torna-se uma árdua tarefa.
Já os efeitos sonoros são tão eficazes quanto os visuais. Outra sacada foi “calar” a trilha sonora em grande parte das cenas de destruição e deixar que a história seja contada inclusive através dos sons. Apesar de uma trilha manjada em filmes do gênero, quando analisados os instrumentos de sopro, o diretor acerta ao retrair-se e deixar que o espetáculo visual tenha vantagem. A fotografia é algo interessante de ser analisado, com um tom escuro e realista, que acredito ter sido empregada também na intenção de dificultar a disponibilização de cópias ilegais, uma vez que a qualidade das filmagens clandestinas seriam péssimas. Incentivo a ida ao cinema? Ponto para Emmerich!
Portanto o truque é criar as corretas expectativas. Você vai esperando um blockbuster de destruição e irá tê-lo. E como adendo, com tudo aquilo que compõe filmes como esses, mas apresentados com melhor qualidade. Um filme que será referência no gênero que pertence e hibernará as produções nesse âmbito, ainda que o total equilíbrio não tenha sido atingido. Mas o longa tem o poder de nos proporcionar grandes momentos como cinema-evento e consegue causar arritmia, nem que seja por minutos, da nossa respiração. E Emmerich sabe quando isso acontece e brinca com os espectadores. Em determinada cena, o personagem de Woody Harrelson diz que toda aquela destruição é linda e que está arrepiado. Em definitivo ele não foi a única pessoa que sentiu isso.



























11 Comentários
Não teve tanta destruição, eu esperava mais e que fosse mais visceral mostrando mais devastação e caos, achei que Emmerich suavisou e colocou muito sentimentalismo mas a cena do Vaticano ficou maravilhosa, é uma pena que eles tenham cortado a cena da destruição de Meca
Sim, poderia haver mais destruição. Mas a sequência da fuga de L.A. foi divertidíssima e muito bem feita. Acho que só ali já vale o ingresso.
ainda não assisti o filme, mas já esperava essa falta de dramaticidade na construção dos personagens e o enfoque no visual, especiamente da destruição…Só se o Steven Spielberg ficasse com a direção teríamos equilíbrio…Mesmo assim, estou muito entusiasmado em ver um show de efeitos e um verdadeiro bloskbuster!!!
Esse foi o melhor de todos os filmes “catástrofe” que já houveram e acredito que não será superado tão cedo. Abordando assuntos relevantes (mesmo que abordados de forma tão rasa quanto um pires) e se utilizando de fantásticas imagens e fantásticos efeitos sonoros, o filme vale a pena ser conferido. Segurem-se nas poltronas e aproveitem!
A primeira sequencia de eventos desastrosos foi incrível, onde a chamada “arritimia” cardícaca atingiu seu maior ponto no filme inteiro, chegando ao apse de eu me esquecer de respirar por alguns momentos.
Achei o filme foda, e já que não é meu trabalho fazer críticas eu não poupo elogios a ninguém que peça minha opinião. Mas entendo a posição de cada um.
Excelente crítica. Parabéns pelo Texto!
Em seu comentário, Amenar:
“Poderíamos ter um conteúdo religioso mais forte, que ainda tem imagens significativas como a separação de Deus e do homem na capela Sistina, mas que não há o debate que necessita.”
A imagem fala por si só. Não é necessário aprofundar o debate. Que cada sinta em si o que esta imagem transmitiu. É ou não o que ocorre no homem, do homem e pelo homem?
Sim Dennys, essa imagem é realmente significativa, tanto que a citei. Mas ela tinha no Trailer. Entenda: O filme todo tem o mesmo conteúdo religioso que o trailer do filme?
Eu queria é que um longa apocalíptico tivesse o ar de suspense que vemos no prólogo de “Guerra dos Mundos”, com a narração em off de Morgan Freeman, por exemplo. “2012″ tinha que investir mais no caos, no suspense, e no conteúdo dramático que a desorientação da população traz.
Discussões do tipo: Diz a bíblia que Deus nunca mais faria destruição semelhante ao dilúvio. E nem por isso deixou de acontecer no filme. A falta de crença e perda de referenciais religiosos poderiam ser explorados. Foram 02h30min de filme, e ao invés de mostrar fuga de cachorros, poderíamos ver algo assim.
Adorei o filme, nota 10 em ação, aventura, alegorias e adereços! Só um comentário sobre o seguinte trecho da crítica: “E com “2012”, talvez Emmerich não consiga fazer o que um Steven Spielberg faria…”. Se for para fazer o que o Spielberg fez em “Guerra dos Mundos”, vamos torcer para o Roland Emmerich jamais consiga!
Sara, o currículo de Spielberg em filmes Blockbuster é um dos mais ilustres do cinema. “Guerra dos Mundos” é um bom filme, mas perde a mão do meio pro final. Se em “2012″ o que faltou foi explorar a parte humana, em “Guerra dos Mundos” a melhor metade do filme foi justamente a que mostrava a relação de Tom Cruise com os filhos. E se compararmos, você não percebeu que o pequeno garoto que representava o filho de John Cusack era uma cópia idêntica do filho de Cruise em “Guerra dos Mundos”?
desculpe, mas guerra dos mundos é um lixo do começo ao fim… Efeitos especiais de causar bocejos a qualquer um que tenha o costume de assistir filmes deste estilo…
2012 é bem “bobinho”, mas nem se compara a essa droga…
A única coisa que ainda é boa no guerra dos mundos é o trailer, onde as “naves” e os “ETs” não chegam a aparecer…
Adorei o filme, e achei que teve destruição na medida certa, por que se ja não teve espaço para conhecer os personagems durante esse periudo imagina se tivesse mais destruição?
o filme está muito bem feito, certamente é uma evolução e tanto do diretor