Pular para o conteúdo » Realizar busca
Olá, Rapadura. Hoje é sábado, 13 de março de 2010

Besouro

Em “Besouro”, o diretor João Daniel Tikhomiroff dá preferência à técnica do que ao conteúdo. Cheio de lutas empolgantes e uma belíssima fotografia, o filme, no entanto, tem uma trama esquecível.

Avaliação: 5

Besouro- Que tal um filme de ação brasileiro? – Brasileiro? Essa costuma ser a reação da maioria do público quando convidada para uma película desse gênero. Para quem não consegue lembrar de nenhuma obra brasileira de ação, é preciso que se apresente “Besouro”, filme baseado na história de um capoeirista negro que viveu em uma época de extrema exploração de pessoas da sua raça. Mas em vez de contar uma trama de opressão e sofrimento, o diretor João Daniel Tikhomiroff adiciona altas doses de lutas estilizadas e crenças mitológicas, gerando um filme bonito para os olhos como nenhum outro já feito por aqui. Entretanto, o cineasta, que já ganhou inúmeros prêmios em Cannes como publicitário, esquece que não basta apenas uma embalagem atraente, tem que ter conteúdo. E isso faz muita falta em “Besouro”. 

A história da película se passa em plenos anos 1920, no Recôncavo Baiano, época e região marcadas por diferenças raciais. Aos brancos fazendeiros e donos de engenho sobravam dinheiro e terras, além de muitas palavras de ordem. Aos negros, a única opção era trabalhar nos engenhos ou, no caso das mulheres, nas casas dos patrões. Como alternativa para entretenimento, eles jogavam capoeira, dança que, devido a sua semelhança com uma luta, não era de agrado dos fazendeiros que fosse praticada por muitas pessoas. O mestre da dança na área era Mestre Alípio (Macalé), que ensinou os segredos da capoeira aos amigos Quero-Quero (Anderson Santos) e Besouro (Ailton Carmo). Ameaçado de morte pelos poderosos, Alípio é protegido pelo mais talentoso dos dois, Besouro, cuja única falha do garoto leva ao assassinato de seu mestre. 

Besouro passa então a ser o nome caçado pela região. Influenciado pelo orixá Exu (Sergio Laurentini), ele é instigado a refletir sobre a importância de seus atos, adquirindo diversos poderes, além de um posicionamento de liderança entre os negros. Diversas sabotagens contra os engenhos e canaviais são idealizadas pelo ascendente guerreiro, que passa a ser incessantemente perseguido pelos capangas do Coronel Venâncio (Flávio Rocha). Besouro também se envolve num romance com a jovem Dinorá (Jéssica Barbosa), então namorada de Quero-Quero, ocasionado um conflito passional entre a própria raça. Também guiado pelo espírito de Mestre Alípio, o rapaz deverá descobrir os mistérios para se tornar o herói da região, desafiando o domínio dos brancos. 

Adaptação do livro “Feijoada no Paraíso”, de Marco Carvalho, “Besouro” sai do lugar comum ao se utilizar de uma temática social para criar uma trama de ação. Mas aqui não temos lutas de simples socos e chutes. Estamos diante de um filme que tem como principal marca os seus embates idealizados. Para isso, foi contratado ninguém menos que Huen Chu Ku, coreógrafo de “O Tigre e o Dragão” e “Kill Bill”. Por isso não se impressione se vir alguns personagens voando sobre as águas, pulando entre as árvores e dando golpes monumentais. No entanto, tudo faz parte do universo mitológico no qual o longa está inserido. Diversas entidades da crença afro-brasileira constituem a trama do filme, possibilitando que o sobrenatural aconteça, mas que, mesmo assim, pareça estranho aos olhos de vários, principalmente os brancos. 

Complementando o alto padrão de qualidade técnico da produção, deve-se destacar ainda o competente som de Rica Amabis e a incrível fotografia de Enrique Chediak, que transformam Iguatu (BA), onde as gravações foram feitas, em um local de beleza estonteante, com as suas enormes pedras, sol ininterrupto e riachos cristalinos. À direção de Tikhomiroff, inúmeros elogios também têm de ser feitos. A capacidade do cineasta, em seu primeiro longa-metragem, de realizar uma produção que preza pela estética jamais deve ser questionada. As lutas são bem comandadas e tem ritmo de sobra e a utilização de ângulos de câmera ousados impressionam. Mas para se fazer um filme de qualidade é preciso bem mais. 

É preciso, principalmente, que o longa conte com um bom roteiro, o que não acontece aqui. Assinado pelo próprio Tikhomiroff em parceria com Patrícia Andrade, o argumento é incapaz de contar uma história interessante. O desenvolvimento do personagem principal em direção a se tornar o herói da região é raso e confuso. Mesmo com uma narração em off (às vezes explicativa demais), a fita deixa aqueles que desconhecem as crenças abordadas um pouco perdidos. O contexto histórico também decepciona. O filme parece ter medo de chocar, principalmente ao apenas insinuar e posteriormente ignorar a exploração sexual ao qual as mulheres eram submetidas. Além disso, a importância da capoeira, que deveria ser o foco da película, não é tratada adequadamente.

No entanto, é o triângulo amoroso entre Dinorá, Quero-Quero e Besouro o grande erro do filme. Em meio a uma luta épica por sobrevivência, o roteiro insere a temática de maneira brusca e desnecessária, demonstrando a inocência dos dois escritores ao desenvolverem uma trama histórica. Baseada em desejo e nunca em paixão, o relacionamento entre eles é dos mais infantis, mas felizmente ainda conta com atuações convincentes, em especial de Jéssica Barbosa. O elenco, aliás, até que está bem para uma produção composta por atores desconhecidos. Não há destaques, mas todos fazem o seu trabalho com qualidade. Apenas o protagonista, Ailton Carmo, poderia ter um pouco mais de carisma.

Misturando mitologia com ação, mas esquecendo de todo o resto essencial, “Besouro” é um verdadeiro desperdício de R$ 10 milhões. Entre os diversos patrocinadores do filme (e eles são vários) alguém poderia ter exigido que, além de um coreógrafo renomado e um competente diretor de fotografia, fossem contratados um diretor e escritores que saibam que a arte cinematográfica é muito mais profunda do que uma publicidade de poucos minutos e que entendam que a estética é apenas a cereja do bolo de um filme.

Últimas Críticas do Autor

Últimas Críticas do Portal

22 Comentários

  1. Alessandro Correia disse:

    Discordo que Besoura seja um verdadeiro desperdicio, tudo que você falou é uma grande verdade, mas existem algumas coisas que devem ser levadas em conta para se dizer que é um desperdicio. Estou escrevendo esse comentario logo após assistir ao filme, não tem uma hora que acabei de ver. Gostei do filme mas concordo com você sobre a fraca historia, sem querer ser “Anti-Globo” eu aposto que o narrador em off e as cenas de amor entre Besouro e Dinora foram ideias do Daniel Filho. Se não foram tudo bem mas que parece ideias dele parece. Até mais abraço.

  2. Ivan disse:

    Ahh! Mas agora é que quero mesmo ver esse filme , e conferir se meses de expectativas foram desperdiçados, ou não.

  3. Rafah disse:

    Eu ainda nuam vi o filme, mas de boa, afirmar q eh desperdício nuam seria exagero? Se o filme fosse barato e naum tivesse primor técnico iam reclamar dizendo o filme carece de investimento e por isso as cenas são toscas.
    Eu acho que em se tratando deste filme, temos sim que criticar seus aspectos como todo filme, mas temos que levar em consideração a iniciativa de fazer algo diferente, de orçamento maior e que chame mais atenção de outros públicos inclusive os rapadurianos.

  4. Saulo disse:

    Com todo respeito à crítica lançada, até achei estranho, pq elogia tudo no filme, criticando apenas a atuação do protagonista e a ausência de foco na questão do exploração sexual e situação dos negros e depois diz que foram milhões jogados fora.

    Beleza, mas creio que o foco do filme não era esse. O filme mostrou, ainda que de uma forma não chocante, a opressão, exploração sexual, humilhação, dicriminação, etc, da época. Eu não sou um retardado metal que precisa ver no filme, em cena explícita, um branco fazendo sexo com uma negra para saber que existia exploração sexual na época. As cenas que foram colocadas no filme, sobre este tema, deixam clara a existência de exploração sexual, humilhação e, até mesmo, o oferecimento de criadas aos mais chegados.

    O legal do filme é todo o contexto da época: exploração, cultura, religião, luta, capoeira, discriminação, coronelismo. É uma pincelada de tudo isso, sem se aprofundar em nenhum deles. Eu curti muito.

  5. Exatamente Saulo, como vc disse, o filme não se aprofunda em nenhum desses assuntos abordados. Falei explicitamente da questão sexual porque a trama apenas cita e não mais toca no assunto durante todo o resto do filme, além de não se deter a todas as outras formas de exploração ao qual os negros eram submetidos.

    Sinceramente esparava que “Besouro” fosse um filme que soubesse mesclar a proposta estética com a histórica, mas apenas a primeira recebe atenção devida. Deve-se com certeza louvar a iniciativa de ser fazer uma produção diferente, mas eu ainda prefiro um filme comum de qualidade do que um diferente ruim.

  6. Fábio Matos disse:

    Deveria ter ressaltado que o ‘filme de ação’ brasileiro de 10 milhões, apesar de suas deficiências, ainda consegue ser bem superior que alguns modelos do gênero apresentados nesse ano, vide Wolverine e Transformers 2, com orçamentos que faz Besouro parecer fichinha, arrecadaram horrores, mas que são horrorosos.

  7. Leonardo disse:

    Quando eu fiquei sabendo desse filme e vi o trailer eu ja sabia o que esperar do produto final, tudo que eu quero com esse filme é me divertir com as lutas e as demais cenas de açao, eu nao esperava uma historia assim tão bem feita, como fã de filmes chineses, eu sei quando desligar o meu cérebro de vez em quando e apreciar a antiga arte da porrada. SE Besouro for competente nisso, pra mim já vale o ingresso.

  8. Discordo… vendo as entrevistas do diretor e o filme, fiquei muito feliz com o resultado final, o caso do diretor é o mesmo citado no rapaducast sobre os brasileiros lá fora (o elenco de ensaio sobre cegueira filmou aqui). Quando trouxe o coreógrafo chinês de Kill Bill, com certeza não foi somente pela capoeira (que ele não conhecia muita coisa) que o atraiu; o filme ofereceu muito mais e o cara aceitar vir aqui… portanto temos de bater palmas por todo o esforço empregado nessa obra nacional de qualidade e apresenta um pouco de nossa história para o mundo.

  9. josenildo araujo frota josenildo araujo frota disse:

    tambêm nâo concordo em dizer que o filme è um desperdiçio de R$10 milhoes. o filme è muito bom, relmente faltou carisma no ator principal:Ailton carmo.

  10. Rangel (andre) petrobras disse:

    Discordo que Besouro seja um verdadeiro desperdicio, tudo que você falou é uma grande verdade, mas existem algumas coisas que devem ser levadas em conta para se dizer que é um desperdicio. Estou escrevendo esse comentario logo após assistir ao filme, não tem uma hora que acabei de ver. Gostei do filme mas concordo com você sobre a fraca historia, sem querer ser “Anti-Globo” eu aposto que o narrador em off e as cenas de amor entre Besouro e Dinora foram ideias do Daniel Filho. Se não foram tudo bem mas que parece ideias dele parece. Até mais abraço.

  11. Deivid Borges disse:

    Conheço a produção do filme, participei das locações, orçamentos, preparação e etc, e digo:

    Sinceramente, nao concordo com o desperdicio de 10 milhoes, sinto que é chamada de disperdicio por ser um filme nacional de custo alto. Eu gostei muito do filme, sentir sim q o ator principal nao tinha carisma, a atriz estava maravilhosa em sua pele de escrava. Achei o contexto sobre cultura negra MARAVILHOSO. E dava para qualquer um entender bem, a narração ajudava. Dizer q ficou perdido por não ser conhecedor das crenças negras, é assinar que não prestou atenção ou nao tem capacidade de dicernimento, o que o filme falou sobre as crenças foi o necessario, e correto, n tinha porque explicar nada melhor, pois não tinha o que explicar mais… A beleza daqui da bahia fica indiscutivel, e isso eh otimo para nós bahianos! E a intenção do filme, nao foi fazer algo tenso, e climatico pesado, historia densa, e sim um filme leve. O que aconteceu e que você foi assistir esperando algo… ao assistir um filme primeiro limpe a mente, deixe o filme lhe conduzir não tente conduzir-lo. Bezouro, eh um filme leve, que tem como intiuto mostrar belas lutas, divertir. Não chocar, e ficar na cabeça das pessoas, pela historia, pois seria apenas mais um filme sobre negros apanhando… E isso ja deu, depois de tanta novela ae.

  12. Darlano Dídimo disse:

    Não acho que o filme seja leve. E não serve nem mesmo como entretenimento. Sinceramente entrei no cinema esperando por algo que me surpreendesse em todos os âmbitos assim como entro para assistir qualquer filme, mesmo se for estrelado pelo Steven Seagal. Mas Besouro não serviu nem como diversão.
    Eu lamento mas essa é a minha avaliação.

  13. Olha cara, é bom saber que o Brasil estar saindo do velho paradigma de filmes de humor ou de policiais que geralmente exaltam as misérias da nação,e estar se enveredando por estilos diferentes…Isso é uma otima pedida, “Besouro” é um divisor de águas do nosso cinema, eu acredito que deveriamos pegar leve, talvez não tenha um roteiro centrado mais, é um filme que trará um novo olhar do público brasileiro e o retirará da dependencia dos filmes de ação americanos. Eu sou um produtor independente, estou terminando um filme aqui no Rio Grande do Norte, um filme diferente, baseado em uma história real, quem quiser ver o trailler é só acessar no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=1c6qDkkAdL0 , uma drama romantico, “Meu Grande Amor” foi feito com um orçamento de 7 mil reais.

  14. Ivan disse:

    Concordo com o Saulo e o Deivid Borges O filme é muito bom no que se propõe , ainda bem que não me orientei por essa crítica pra assistir o filme( boa parte dela é bem embasada e tenho que concordar, mas quando ela encerra dizendo que foi um desperdício,sinto muito mas ficou sem credibilidade, e essa é minha opinião) . O filme não é perfeito, mas não conheço nenhum que seja, e quanto a profundidade aff o que tá querendo com profundidade em filme que se propõe a ser filme de ação?
    Então galera, vão assistir o filme de cabeça fresca , sem pré-conceitos e divirtam-se
    uma coisa que achei interessante é que o filme tem um clima meio de faroeste, hehehe , não sei de onde tirei isso mas foi uma impressão que tive.
    Que venham mais filmes como “Besouro”.
    Se tivesse uma continuação com o filho do Besouro seria bom :D

  15. anderson da costa santos disse:

    a melhor parte do filme realmente eh a fotografia, mas vc me surpreende ao fazer uma critica de filme sem nem saber quem fez o que. O diretor de fotografia do BESOURO chama-se Enrique Chediak, equatoriano, e bastante conhecido no cinema americano e internacional. Parece que vc somente viu o site (que tambem erra quando fala da fotografia) e nao teve paciencia para esperar os creditos no fim do filme que, felizmente, estao corretos. Acho que vc pode se recuperar, restabelecendo o credito correto e denunciando essa mancada imperdoavel do site.

  16. Muito Obrigado, Anderson!
    Peço perdão. Vi os créditos do filme, mas a memória não ajudou. Realmente peguei a informação de uma fonte que achava a mais confiável de todas, o site do filme, mas acontece que ele estava errado. Acontece! A informação será devidamente corrigida.

  17. Marcos disse:

    Kra eu achei o filme show, no início é meio chato mais a sequência final ficou realmente legal, foi muito massa ver os brancos humilhando os negros e depois apanharem em cenas realmente interessantes…a história realmente fica confusa as vezes mas as coisas elogiadas como o som, as coreografias e a direção de arte fizeram do filme algo bem legal…:P

  18. André Coelho disse:

    Discordo.

    O filme é belo, mostra a questão religiosa de maneira pura, livre dos julgamentos cristãos. É um ótimo filme, que não tem como avaliar se é de luta ou não.

    Tem uns quês de experimentalismo, tem umas partes lentinhas, gostosas e imersivas.

    O filme me satisfez.

    A única falha foi o letreiro explicativo do começo. Pareceu um pouco de falta de estratégia pra explicar aquilo no meio do filme.

  19. Elton D. disse:

    O filme trata de uma lenda da capoeira no Brasil e é supostamente baseado em fatos reais. Iniciativa ótima, tomada dentre outras que só retratam o Brasil em favelas, tiroteios, polícia, morte…

    Esse aprofundamento na “ação” deveria ser tomado de que forma?
    Se tem em meio ao combate dos negros e brancos um romance, achei ótimo. Se for mais aprofundado vira um “Ação do começo ao fim”, coisa de americano que recebe mais crítica negativa do que filme de terror chinês.
    Achei certo o triangulo amoroso acontecer.

    O filme É SIM, muito bom!

  20. Rafael disse:

    Eu vi o filme, posso concordar com a maior parte do que voce falou!
    Mas você erra ao afirmar que o filme foi um disperdicio!
    o roteiro é meio confuso as da pra entender. Você submestima a capacidade do plublico de compreender o q se ve na tela!
    mas gostei da critica!

  21. André Gedeon disse:

    Gostei muito do filme, retrata todo o místicismo que envolve a cultura negra e o resultado é extremamente agradável, tudo é muito bem feito, a direção de arte e fotografia são ótimas e as cenas de luta sensacionais. O roteiro, como foi dito, é superficial mas nada que incomode ou atrapalhe na percepção da história.

    “Eu quero ser como o Besouro que é preto e avoa”.

  22. Heury disse:

    Reafirmo que o filme é um gasto de dinheiro, acho que qualquer criança de 10 anos escreveria um roteiro mais inteligente e menos racista, que filme racista da p*rra, com 30 mim de filme eu sai e depois voltei pensando que o filme nao poderia ficar pior, mas infelizmente me enganei, perdi meu dinheiro e perdi a credibilidade com os filmes nacionais…infelizmente isso é brasil…Sexo+violência+Racismo+…

Faça seu comentário

Quer ter uma foto aqui nos comentários? Cadastre o seu e-mail no site Gravatar.com. Se surgir alguma dúvida sobre o portal e quiser sugerir ou reclamar de algo, envie um e-mail.