Em 2007, uma tal de Diablo Cody lançou despretensiosamente sua primeira obra cinematográfica. “Juno”, estrelado por Ellen Page e Michael Cera, logo se tornou um filme cultuado por nove entre 10 cinéfilos. A história clichê permeada por diálogos rápidos e eficientes, que tanto mexiam com a emoção quanto divertiam, rendeu a Cody um Oscar na categoria Roteiro Original, entre vários outros prêmios. Ex-stripper, a roteirista foi vista como um novo nome promissor na indústria.
Dois anos depois, Cody se juntou a ninguém menos que Steven Spielberg para criar uma série de TV para a Showtime. A premissa de “United States of Tara”, um pouco estranha de início, usa a psicologia e um pouco de o realismo fantástico para mostrar uma mãe de família com múltiplas personalidades. Os episódios curtos e temporadas de 12 episódios aproveitaram as inúmeras possibilidades que a trama podia seguir, até ser cancelada prematuramente pela emissora após 3 temporadas. O motivo: a baixa audiência em seu horário de exibição, não satisfazendo os executivos, que colocaram Cody e Spielberg para fora do circuito.

Muitos ainda perguntam o que a série tinha de tão espetacular, já que também se tornou cultuada por série-maníacos que prezam por boas histórias, longe dos holofotes das grandes produções. O argumento é simples. Os Gregsons formam uma família americana comum que tenta sobreviver às situações convencionais do cotidiano. Tara (Toni Collette, premiada com o Globo de Ouro e o Emmy pela personagem) e Max (John Corbett) são os pais de Marshall (Keir Gilchrist) e Kate(Brie Larson). Em torno deles, temos Charmaine (Rosemarie DeWitt), irmã de Tara, e seu caso amoroso incomum Neil (Patton Oswalt).
Os seis personagens servem de material para Cody desenvolver, durante as três temporadas da série (36 episódios), um complexo paralelo entre o realismo fantástico e a vida real. Tara sofre com seu distúrbio, transitando entre uma dona de casa tradicional (Alice) a uma garota de 16 anos (T.). Vista como louca pela vizinhança e até mesmo por alguns familiares, Tara não tem o controle de seus alteregos, que aparecem nas horas mais constrangedoras e, geralmente, causam estragos. No decorrer dos episódios, Tara passa a conviver em maior harmonia com suas outras personalidades e tenta descobrir não somente uma cura, mas também o que a transformou nessa metamorfose ambulante.
A grande sacada é perceber como essas alterações de comportamento enfraquecem (ou fortalecem) as relações dessa família, que sofre junto com a protagonista. Dessa forma, as múltiplas personalidades podem ser vistas também como uma metáfora ao comportamento humano, sempre instável e que atinge quem está ao nosso redor. Em paralelo, a vida do marido dedicado e dos filhos em fase de conhecimento do mundo vão se articulando, transformando todos os personagens em cena objetos interessantes de apreciação.
O principal trunfo de “United States of Tara” foi a performance de Toni Collette. Sua competência em cena é de tirar o fogo. Por ser uma veterana e acostumada a papéis que exigem mais de sua capacidade, Collette transporta o público ao seu universo de uma forma mágica. Não é qualquer atriz que pode interpretar seis ou mais personagens diferentes em um único show de TV, sempre muito bem caracterizados e convincentes ao espectador. A veterana usa não somente seu potencial cômico, mas principalmente o dramático para construir todos os alteregos de forma brilhante. Vale destacar principalmente quando Collette sai de uma transição e volta a ser Tara. Quando ela percebe que fez algo de ruim, o olhar triste denuncia sua impotência frente aos acontecimentos.
John Corbett, que interpreta o marido de Tara, é seu contraponto principal. Tomado pelo amor à esposa, o trato de Max com a esposa é sempre admirável. Muitas vezes ele pensa em desistir, e talvez até tenha desistido algumas vezes, mas a pureza dos sentimentos e a crença de que aquela é a vida que lhe foi determinada o fazem um homem maior. Seus filhos, Marshall e Kate, tentam se encontrar nesse mundo veloz em que vivemos, ao passo que sofrem com uma família particularmente desequilibrada.
Nesses 36 episódios, o público pôde acompanhar uma história deliciosa de relacionamentos familiares, sempre galgada no texto e na supervisão de Cody e Spielberg. Não existe um momento da série em que a trama caia de qualidade ou se torne interessante ou mesmo repetitiva. As ideias brotam e se encaixam com perfeição, facilitadas pelo tempo certo de seus episódios e pelas temporadas curtas, que aproveitam bem mais suas tramas e subtramas.
“United States of Tara” deixa, prematuramente, uma legião de fãs órfã de produções de qualidade, cada vez mais escassas nas emissoras, que gastam fortunas para criar épicos e atrair audiência. Os estúdios também estão certos. Eles precisam lucrar e a série que não dá retorno vai direto para o limbo. Mas os fãs também estão certos ao lamentar o cancelamento, principalmente aqueles (a maioria) que não aparecem nos indicativos da audiência durante a exibição da série. De toda forma, há uma certeza que faz Cody e Spielberg superiores à Showtime: enquanto durou, a série foi um simples deleite semanal ao público. E ela ficará para a história.
De quem sentiremos falta?
Alice e T.
Buck e Shoshana.
*Franguinha e Gimme podem ser considerados mais distúrbios de comportamento do que de visual.
Mesmo após o cancelamento, ainda me perguntam se vale a pena assistir à série. Bom, eu não perderia a chance de acompanhar tudo de novo.
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Diego Benevides é editor geral, crítico e colunista do CCR. Jornalista graduado pela Universidade de Fortaleza (Unifor), atualmente é pós-graduando em Assessoria de Comunicação e estudioso em Cinema e Audiovisual. Desde 2006 integra a equipe do portal, onde aprendeu a gostar de tudo um pouco. A desgostar também.


























4 Comentários
Sempre tive curiosidade por essa série mas nem imaginava que o roteiro era de Diablo Cody. Agora já quero assistir haha
teh mais
Essa série é uma das melhores que já acompanhei.
Sinto muito por seu cancelameto…
Referente a quem sentirei falta? Todos os alters é claro… mas adoro Shoshana.
essa serie e horrivel um verdadeiro lixo
Adorava essa serie era muito doida!!!
o roteiro era muito simples mais cheio de sentimento
vou sentir muita falta de T e da Shoshana
e tb da incrível atuação de Toni Collette