A recente iniciativa do Deputado Jair Bolsonaro em distribuir panfletos homofóbicos me remeteu à uma HQ do Lanterna Verde, intitulada “Intolerância”. Escrita por Judd Winnick e com arte de Dale Eaglesham, a trama é estrelada por Kyle Rayner, naquele ponto o único Lanterna Verde existente. Um dos melhores amigos de Rayner e seu assistente na sua identidade secreta como desenhista, o jovem Terry Berg, é brutalmente espancado por um bando na saída de uma danceteria pelo simples fato de ter beijado seu namorado em público.

Na trama, Winnick retrata o desespero de Kyle por, apesar de seus grandes poderes, ter sido incapaz de salvar um amigo desse ato de barbárie. O desespero se transforma em ira e, depois de quase ir longe demais na captura dos criminosos que atacaram seu amigo, na esperança de vê-lo novamente recuperado. Sentimos o sofrimento de Kyle enquanto este vê indefeso seu amigo inerte em um leito hospitalar.

Durante a história, a namorada de Kyle, Jade, testemunha a ira do pai de seu amigo para com o parceiro deste e aqueles que aceitavam a opção sexual do rapaz, os vendo como culpados da situação de perigo de morte no qual seu filho se encontrava. Winnick não faz uma propaganda de agenda, mas se foca, através de recursos fantásticos, em mostrar ao leitor como um ato irracional de preconceito pode afetar tantas pessoas.

É interessante notar que uma mídia não levada tanto a sério como os quadrinhos mainstream, mais especificamente os de super-heróis, tenta realizar um trabalho contra o preconceito sem, muitas vezes, este ser notado pelo grande público, com o tema fugindo apenas das Graphic Novels alternativas. Na própria DC Comics, um dos casos que acho mais interessante é o da policial Maggie Sawyer, que ganhou destaque nas histórias do Superman nos anos 1990.

Competente e dedicada, Sawyer era um dos membros mais importantes da Unidade de Crimes Especiais, setor da polícia de Metrópolis dedicado a lidar com criminosos extra-normais, tendo liderado informalmente a Unidade por algum tempo. Durante a saga “A Morte do Superman”, a policial foi promovida a Inspetora, cimentando sua liderança da UCE em um período no qual a cidade estava sem o apoio do Homem de Aço. Posteriormente, ela assumiu uma posição de comando no departamento de polícia de Gotham, sendo chamada para a cidade dos morcegos para tentar repetir o êxito da UCE por lá, contando com a ajuda de alguns policiais locais.

Lésbica assumida, Maggie teve retratado seu relacionamento com a repórter Toby Raines desenvolvido de maneira bastante discreta e sem muito alarde, mas tratado pelos autores de maneira especial. Inclusive, Toby apareceu cuidando de Maggie quando esta foi ferida durante o ataque de Darkseid na série animada “Superman – The Animated Series”, tendo tal participação sido um lembrete dos produtores Paul Dini e Bruce Timm da sexualidade da personagem. Uma atitude corajosa da dupla, considerando a abrangência da série, voltada primariamente para o público infanto-juvenil.

Ainda na DC, temos Renee Montoya, antiga policial do Departamento de Polícia de Gotham que, atualmente, assumiu o manto do herói Questão, em tramas desenvolvidas por Greg Rucka. Originalmente criada para a série de TV “Batman – The Animated Series”, Montoya foi uma das personagens de maior destaque na maxissérie “52”, na qual vimos sua evolução saindo de um inferno pessoal até assumir seu destino heróico com a ajuda do misterioso Charlie, que atua como seu mentor nesta jornada de superação pessoal, tendo-a encontrado em um momento bastante frágil para os dois.

Durante este arco narrativo, conhecemos a história de amor entre Montoya e Kate Kane, a vigilante de Gotham conhecida como Batwoman. Inicialmente “no armário”, algo que atrapalhou o já tumultuado relacionamento entre ela a Renee, a bilionária Kate agora já sai publicamente em encontros com mulheres. Em sua identidade civil, ela adota um estilo mais ousado ao se vestir, mostrando-se um tanto mais fetichista que a maioria das personagens femininas da DC.

No Universo Wildstorm, o casal Apolo e Meia-Noite jogam para escanteio qualquer estereótipo. Criados por Warren Ellis basicamente como versões politicamente incorretas de Superman e Batman, os dois personagens logo cresceram durante suas participações nas HQs do grupo “Authority”, conquistando público e crítica com o amor genuíno que sentem um pelo outro e pelo seus modos nada gentis de lidarem com os pouco convencionais inimigos que encontram em seus caminhos. Há uma cena particularmente chocante em determinada HQ na qual Meia-Noite aplica um castigo brutal em um inimigo que havia surrado Apolo.

Enquanto isso, na Marvel Comics, o mais conhecido personagem homossexual da editora é o velocista mutante Jean-Paul Beaubier, o Estrela Polar. Aventureiro e desportista, Jean-Paul assumiu sua sexualidade em uma autobiografia chamada “Nasci Normal”. Atualmente, é um dos membros dos X-Men, tendo sido recrutado para a equipe por Wolverine, que deixa claro para Estrela Polar que ele não está ali apenas como “garoto-propaganda”.

Em “Jovens Vingadores”, equipe criada pelo roteirista Allan Heinberg (“Grey’s Anatomy”), o modo como foi retratado o relacionamento entre os heróis adolescentes Hulkling e Wiccano rendeu à série um prêmio da GLAAD (Aliança Gay e Lésbica Contra a Difamação). Hulkling, também conhecido como Teddy Altman, é filho do falecido Capitão Marvel e Anelle, uma princesa da raça Skrull, possuindo superforça e uma habilidade transmorfa. Já Wiccano, ou Billy Kaplan, é um mago de futuro promissor e possível reencarnação de um dos filhos perdidos da Feiticeira Escarlate. Interessante notar que o relacionamento dos dois foi bem aceito pelos pais adotivos de Wiccano, em um exemplo positivo de compreensão.

A homossexualidade também ganhou espaço nas HQs do Justiceiro. O arco “As Ruas de Laredo”, escrito por Garth Ennis e desenhado por Cam Kennedy, mostra Frank Castle tentando desbaratar um cartel de venda de armas em uma cidadezinha do Texas chamada Branding.

No decorrer das edições, um dos personagens de maior destaque é o xerife Steve Southal, que enfrenta o preconceito do Pastor local justamente por conta de sua orientação sexual. Nessa mesma história, Castle fala de seu respeito quanto a dois ex-companheiros de exército que, segundo ele, “morreriam um pelo outro”.

Interessante ressaltar que o Pastor, figura que simboliza o preconceito dentro da história, tem um final bem ao estilo Ennis, pagando por seus pecados com sangue.

Enfim, o rol de personagens aqui elencado não é exaustivo, com o universo dos quadrinhos demonstrando que a diversidade faz parte do cotidiano dos grandes heróis. É uma pena que, no mundo real, o fantasma do preconceito ainda seja tão perigoso quanto os vilões da ficção.

Leitura Recomendada:

- “Lanterna Verde – Intolerância”: Arco de histórias escrito por Judd Winnick e ilustrado por Dale Eaglesham, publicado no Brasil nas edições 15 e 16 da revista “Liga da Justiça” pela Panini Comics;

- “A Morte do Superman”: Arco de histórias escrito e ilustrado por diversos autores, publicado no Brasil em dois volumes pela Panini Books;

- “52”: Maxissérie em 13 edições, escrita e ilustrada por diversos autores, publicada no Brasil pela Panini Comics;

- “Camelot 3000”: Maxissérie escrita por Mike W. Barr e ilustrada por Brian Bolland,  publicada pela Panini Books em encadernado homônimo;

- “Authority – Sem Perdão”: Série escrita por Warren Ellis e ilustrada por Bryan Hitch, publicada em encadernado no Brasil pela Devir;

- “Jovens Vingadores”: Série escrita por Allan Heinberg e ilustrada por Jim Cheung, publicada no Brasil nas edições 27 à 34 de “Os Novos Vingadores” e 1 à 3 de “Avante Vingadores”;

- “Justiceiro – As Ruas de Laredo”: Arco de histórias escrito por Garth Ennis e ilustrada por Cam Kennedy, publicada no Brasil nas edições 4 à 7 da revista “Demolidor – O Homem Sem Medo”.

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Thiago Siqueira é crítico de cinema do CCR e participante fixo do RapaduraCast. Advogado por profissão e cinéfilo por natureza, é membro do CCR desde 2007. Formou-se em cursos de Crítica Cinematográfica e História e Estética do Cinema.