Colunas   quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Como funciona a narrativa do mistério no cinema

Conheça as diferentes formas de se contar uma história de mistério no cinema.

Histórias de mistério sempre estiveram presentes no cinema. Enigmas para serem solucionados no último ato. Criminosos e assassinos que enganam detetives, policiais ou jornalistas. Essas são narrativas tão antigas quanto a própria ideia do cinema. Principalmente por serem elementos já utilizado antes pela literatura e pelo teatro. O cinema apenas elevou o conceito a outro patamar. Mas como se constrói uma narrativa de mistério? E mais importante, como, depois de tantos anos, ela ainda funciona tão bem?

Agatha Christie foi uma das protagonistas nesta arte de criar mistérios. Com seus mais de 70 livros publicados (fora contos e peças de teatro), a escritora é conhecida como a “Rainha do Crime”. Seu principal personagem, o detetive belga Hercule Poirot, está presente na maioria de seus livros, dentre os quais está “O Assassinato no Expresso do Oriente”, um dos romances policiais mais importantes e influentes da história.

O livro recebe sua terceira adaptação ao cinema, desta vez com direção de Kenneth Branagh (“Cinderela”), que também assume o papel de Poirot. Na trama, pouco depois da meia-noite, uma tempestade de neve para o Expresso do Oriente nos trilhos. Enquanto o trem está preso na neve, um homem é encontrado morto em sua cabine com doze facadas, cabendo ao detetive Hercule Poirot descobrir quem foi o assassino.

Enquanto na literatura, o escritor tem o privilégio de poder narrar sem precisar de imagens, o cinema narra através delas. Dessa forma, para que o clima de mistério possa ser mantido ao longo de um filme, os diretores e roteiristas precisam contornar essa condição.

Durante muitos anos, o mistério no cinema esteve diretamente relacionado com o que não era visto. O público sabia que o crime havia acontecido. Havia um corpo no chão ou um cofre vazio. Ao reverter a lógica de mostrar para contar, por muito tempo o criminoso só era revelado no momento final. Isso permitiu que os diretores colocassem diversos suspeitos, que muitas vezes só serviam para desviar a atenção do público e então, apenas nos momentos finais era possível desvendar o crime e conhecer o responsável.

Um diretor que conseguiu trabalhar muito bem o mistério com o criminoso oculto até o momento final do filme foi Alfred Hitchcock. Logo no início da carreira, em um dos seus primeiros filmes, Hitchcock brinca com a ideia de uma assassino em série que ataca mulheres nas ruas de Londres. “O Pensionista”, lançado em 1927, coloca um personagem que tem toda a cara de ser o culpado dos crimes: é recluso, tem um comportamento estranho e parece sempre estar no lugar errado.

Na trama, o detetive responsável pelo caso reforça as suspeitas por ciúmes apenas, mas Hitchcock vai além. Mesmo podendo ser considerado um filme amador, uma espécie de experimentação do que anos mais tarde viria a ser um estilo próprio, o filme tem ótimas sequências, como o momento em que o principal suspeito dos crimes aparece para o público. A forma como Hitchcock muda de um plano para o outro, intercalando com o olhar de suspeita do detetive e de medo da dona da pensão. Tudo isso nos faz ver o personagem com a mesma suspeita e o mesmo medo. A partir desse momento, o diretor tem toda a liberdade de seguir o filme da forma como preferir, nós já caímos no golpe.

Seria possível, ainda, citar outros tantos filmes de Hitchcock (ou até mesmo apenas filmes dele), mas existem outros dois exemplos que abordam outras formas do diretor trabalhar o suspense. O primeiro caso seria com um dos seus filmes mais técnicos: “Festim Diabólico”. Na trama, dois amigos decidem cometer o crime perfeito. Após matar um colega, eles deixam o corpo dentro de uma caixa e convidam um professor, a namorada e os pais do colega morto para um jantar e utilizam a caixa como mesa para a ceia. Neste caso, Hitchcock inicia o filme com o crime, revelando os culpados, mas nem por isso se perde o clima de mistério. Ao longo da narrativa (muito bem executada em um falso plano-sequência), o público acompanha a preocupação da namorada e a suspeita do professor, enquanto os criminosos tentam provar que jamais serão descobertos.

E o outro caso digno de nota é um dos melhores filmes de Alfred Hitchcock. Durante o auge de sua carreira, o diretor decide nos colocar como o voyeur máximo de sua obra. Uma característica de diversos filmes, mas elevado em um nível muito superior, embora não gratuito, em “Janela Indiscreta” o protagonista é um fotógrafo imobilizado após um acidente, com uma perna engessada e muito tempo ocioso. A abertura magistral do filme nos apresenta o cenário de um possível crime. Um prédio com diversas janelas. Do outro lado, o tal fotógrafo (um voyeurista por definição) observa cada um dos apartamentos até que nota algo estranho acontecer em uma das janelas. E assim somos conduzidos na tentativa do personagem em provar que algo aconteceu naquele quarto.

Naturalmente, o mistério está muito além do cinema de Alfred Hitchcock. Em Hollywood, uma geração inteira de diretores trabalhou com essa narrativa durante a fase do cinema noir. Filmes detetivescos, inspirados na literatura policial, com personagens, situações e técnicas que definiram um período na história do cinema. E, da mesma forma como com Hitchcock, uma lista inteira poderia ser feita apenas com filmes dessa fase, mas há um exemplo que se destaca por diversos motivos.

“Relíquia Macabra”, primeiro filme do diretor John Huston (“O Tesouro da Sierra Madre”) é a adaptação de um dos romances policiais mais importantes já escrito. Com uma mulher desaparecida, identidades falsas, assassinatos e um objeto (misterioso), o longa tem uma narrativa consistente, mas nada óbvia que consegue atingir o clímax e entrega uma interessante solução final.

Há ainda um outro estilo narrativo que utiliza muito bem o mistério: a ficção científica. E quando se trata de mistério envolvendo sci-fi, um dos mestres é John Carpenter. O diretor soube brincar com o tema como poucos e “O Enigma do Outro Mundo” é a maior prova disso. No filme, um grupo de cientistas em uma base isolada na Antártida é atacado por uma criatura alienígena que assume a forma de quem ela matou. O mistério aqui não está na solução do crime, ou na ameaça que está escondida. Aqui o problema está em não saber quem é ou não confiável. E até que se entenda a lógica da criatura, metade da equipe já foi atacada.

Independente do gênero utilizado para entregar uma história de mistério, o importante é convencer o público do problema ou do perigo. O cinema vem criando ótimos enigmas narrativos ao longo das décadas e atualizando a forma como elas podem ser apresentadas. O que importa, no final, é que o filme nos prenda e o público consiga matar a charada final.

Robinson Samulak Alves
@rsamulakalves

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