Colunas   quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Dossiê Kingsman e a espionagem no cinema do século XXI: somente para seus olhos

Do charme à ação à leveza descompromissada: um panorama de como o subgênero da espionagem nos trouxe até "Kingsman: O Círculo Dourado".

Kingsman: Serviço Secreto” foi lançado em 2015, no Brasil, para uma grata surpresa para aqueles que gostam de ação, aventura e comédia, mas principalmente para os fãs de um subgênero clássico do cinema: os filmes de espionagem. O longa foi todo pensado para isso mesmo: desde os vilões e dos mocinhos, passando pelos apetrechos e a trama megalomaníaca; mesmo os elementos de subversão foram colocados para fazer com que pessoas sorrissem quando tiveram suas expectativas viradas de cabeça para baixo. Com a chegada de “Kingsman: O Círculo Dourado” aos cinemas, o Cinema Com Rapadura traz a você um dossiê com os principais filmes de espionagem do século XXI para falarmos dos elementos resgatados, da abordagem espiã para o novo milênio e sobre como ativar o telefone escondido em seu sapato. Ler este artigo é sua missão, caso você a aceite, para entender melhor como chegamos aonde estamos neste subgênero tão cultuado dos espiões e suas missões secretas.

Contra o Satânico Vilão Vermelho: um panorama dos filmes de espionagem do século passado

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo se readaptava em uma nova realidade. A ascensão de clamores por direitos humanos após as barbáries do Holocausto e a divisão do mundo entre o bloco comunista, liderado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e o bloco capitalista, liderado pelos Estados Unidos da América (EUA), dominavam a atenção – e tensão – de um planeta devastado. No meio deste fenômeno político que se levantava entre as potências dominantes – a chamada Guerra Fria -, um personagem se tornou icônico e símbolo desta época: o espião.

O cinema, como não poderia deixar de ser, cumpriu um de seus papéis, sendo espelho da realidade, e trazendo estes personagens para o primeiro plano de suas histórias. De forma alguma os filmes de espionagem nasceram na era pós-1945; “The Man Who Stayed At Home“, de 1915, já trazia uma história de um agente infiltrado em meio a espiões há mais de 100 anos. “O Misterioso Mr. Moto”, de 1936, trazia Peter Lorre (“M – O Vampiro de Düsseldorf“) como Kentaro Moto, um agente secreto japonês de atuação internacional, enquanto “A Dama Oculta”, de 1938 e dirigido por Alfred Hitchcock, também trazia um espião em sua trama de mistério e suspense.

the lady vanishes 1938 “A Dama Oculta”, 1938

Ainda assim, embora o subgênero, geralmente circunscrito em uma intersecção entre ação e aventura, não fosse novo, o conflito velado entre URSS e EUA fez com que estas fitas se multiplicassem a partir da década de 40, principalmente trazendo agentes estadunidenses para enfrentar nazistas ou a chamada “ameaça comunista” e seus agentes soviéticos. Entre 1940 e o fim da década de 50, dezenas de filme foram produzidos no estilo, mas vamos comentar alguns que não podem passar em silêncio, mesmo não sendo o foco deste texto.

O primeiro que merece destaque é “Rua Madeleine 13” (1947), que trazia James Cagney (“Fúria Sanguinária”) como Bob Sharkey, um agente da divisão O77 que precisa encontrar e eliminar um infiltrado – o famoso “mole”. O filme dá um nó incrível quando Sharkey começa a tentar enganar o agente infiltrado, dando informações erradas para ele, e não tarda para que seu plano saia pela culatra. Este elemento de reviravoltas na trama, privilegiando um roteiro intrincado à ação desenfreada, é um traço muito presente na época, sendo visto em outros filmes relevantes para esta fase do subgênero de espionagem. Outra película que demonstra esta habilidade é “O 3º Homem”, de 1949, um filme incrivelmente charmoso que conta com Orson Welles (“Cidadão Kane“) no elenco. Muito bem fotografado e com diálogos marcantes – como o discurso do relógio, que você pode ver abaixo -, “O 3º Homem” foi selecionado pela British Film Institute (BFI) como o melhor filme britânico do século XX. Se você não o viu ainda, é uma ótima chance para entender melhor o estilo que perdura até hoje: flertando com o noir, aqui a espionagem ganha ares de fim de mundo em seu cenário pós-2ª Guerra, entrando para os anais como talvez o melhor filme de espião da história – e, para o crítico Roger Ebert, uma das melhores fitas do cinema como um todo.

Mas nem só de tensão e (bela) fotografia em preto-e-branco viviam os espiões da ascensão pós-1945. Em “Interlúdio”, Cary Grant e Ingrid Bergman (“Casablanca“) vivem uma história de investigação noir e romance discreto, filmada pela lente atenta de Alfred Hitchcock. O diretor dobra novamente com Cary Grant em outro filme importante para o subgênero, chamado “Intriga Internacional”. Talvez o mais famoso dessa lista até aqui, esta fita de 1959 traz Grant no papel de Roger Thornhill, um publicitário que é confundido com um agente secreto e passa a ser perseguido país afora – e não é para receber um afago.

Mais aventureiros em essência, estes dois filmes de Hitchcock demonstravam a capacidade que a espionagem no cinema tinha – e ainda tem – de trazer camadas de comédia para suas histórias. “Charada”, de 1963, traz a indelével Audrey Hepburn (“Bonequinha de Luxo“) no papel de Reggie, a viúva de um homem assassinado em Paris, e Cary Grant – sim, esse cara estava em todas – como um homem dúbio que é difícil saber se está mais interessado em salvá-la de três potenciais assassinos ou em matá-la também. Graças ao carisma substancial de Hepburn e a direção de Stanley Donen (“Cantando na Chuva”), o filme é pontuado por um humor sutil em suas várias reviravoltas, nos fazendo aceitar as seções mais absurdas da trama.

charade Grant e Hepburn em “Charada” (1963)

Como já invadimos 1960, “Sob o Domínio do Mal”, de 1962 é uma pedra preciosa estranha dentro do gênero. Mexendo com espionagem e controle mental no mesmo filme antes de isso ser legal, “Sob o Domínio do Mal” trouxe um elenco estrelado, com Frank Sinatra (“A Um Passo da Eternidade), Angela Lansbury (“À Meia Luz“), Janet Leigh (“Psicose“) e Laurence Harvey (“Álamo“) em uma trama que ao mesmo tempo considerava e parodiava o medo do comunismo que se ergueu pulsante na década de 50. Um filme único com um elemento psicológico diferenciado dentro dos filmes de espionagem.

 Sinatra em “Sob o Domínio do Mal” (1968)

Por falar em diferenciado, também o é a trilogia do espião Harry Palmer, composta por “Ipcress – Arquivo Confidencial”, “Funeral em Berlim” e “O Cérebro de um Bilhão de Dólares” (1965, 1966 e 1967, respectivamente). Protagonizado por Michael Caine (da trilogia “Cavaleiro das Trevas”, de Christopher Nolan), a série de filmes apresentou um espião bem menos charmoso e elegante do que Bond – James Bond -, com uma abordagem mais crua e sombria, já adentrando o território do anti-heroísmo (a qual é uma palavra feia, mas que, sim, existe). Com destaque para o primeiro filme e sua fotografia fantástica, como você pode ver abaixo, a trilogia de Harry Palmer se apresenta como um contraponto interessante para o padrão do gênero.

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E sim, é indispensável falar de 007 em uma coluna sobre filmes de espionagem. Embora tudo o que poderia ser dito já o tenha sido, cabe destacar o início da franquia. “007 Contra o Satânico Dr. No”, de 1962, já estreou com uma bilheteria impressionante, faturando quase 58 vezes seu próprio orçamento, e apresentando James Bond para o mundo de uma forma bem diferente do que vemos hoje – com mais apetrechos e, de fato, espionagem, espiando pessoas e eventos, e menos pancadaria. O formato claramente agradou, e “Moscou Contra 007”, de 1963, lucrou ainda mais do que seu predecessor. Ainda assim, o primeiro ponto de inflexão para o agente britânico se deu em “007 Contra Goldfinger”, de 64.

Foi nele que a estrutura narrativa dos futuros filmes do 007 (e um pouco dos filmes de um certo Ethan Hunt, como veremos posteriormente) se calcou para o futuro. Cenas pré-créditos para aquecer os espectadores, vários apetrechos, uma Bond Girl marcante e forte e um vilão cartunesco com um capanga bizarro: estes são alguns elementos que são consolidados em “Goldfinger” e reproduzidos através desta – e de outras – cinesséries de espionagem. Não menos importante é a maravilhosamente redundante canção-título do filme:

Tendo cumprido o dever moral e cívico de citar 007, é cabível um salto temporal, infelizmente somente nominando clássicos do gênero como “O Dia do Chacal”, de 1973, o qual trazia a história de uma tentativa de assassinato do presidente francês, baseado em um livro de Frederick Forsyth, ex-espião e um dos autores mais importantes da literatura de espionagem; “Três Dias do Condor”, de 1975, que tinha um elenco incrível formado por Robert Redford (“Todos os Homens do Presidente“), Faye Dunaway (“Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas“), Max von Sydow (“Star Wars: O Despertar da Força“) e Cliff Robertson (“Os Dois Mundos de Charly“); “La Femme Nikita”, filme de 1990 dirigido por Luc Besson (do recente “Valerian e a Cidade dos Mil Planetas“) que trazia a história de uma assassina profissional que era muito bem sucedida até uma missão em uma embaixada ir pelo ralo.

Uma pausa nessa viagem no tempo é devida para falar de outro filme de 1990: “Caçada ao Outubro Vermelho”. Com Alec Baldwin no papel de Jack Ryan e Sean Connery como o capitão soviete Marko Ramius, o filme apresenta a característica já citada anteriormente de privilegiar as reviravoltas em detrimento de uma ação intensa – ou, aqui a seu demérito, um desenvolvimento de personagens mais interessante. Ainda assim, o filme é intenso e um marco para o gênero, o qual graças aos filmes de 007 que começavam a debandar para a comicidade involuntária, arriscava se tornar brega e datado. Com Jack Ryan sendo apresentado aos cinemas, o personagem retornaria interpretado por Harrison Ford em “Jogos Patrióticos” (1992) e “Perigo Real e Imediato” (1994), por Ben Affleck em “A Soma de Todos os Medos” (2002) e por Chris Pine em “Operação Sombra – Jack Ryan” (2014) – um reboot bem medíocre da franquia.

 jack ryan all actors Jack Ryans

E é assim, passando por confusões de identidades, lavagens cerebrais, homens com chapéus cortantes e fotografias em alto contraste que carregamos os elementos da espionagem para o século XXI, onde o gênero viria a ser reinventado – em grande parte devido a um filme.

Com Filmes de Espionagem Só Se Vive Duas Vezes: a reinvenção do gênero

Em 2002, um homem apareceu boiando no Mar Mediterrâneo. Ele tinha um número de um cofre suíço em seu quadril e dois ferimentos de tiros nas costas e, quando chegou em terra firme, assumiu sua identidade Jason Bourne e reinventou o que um filme de espionagem deveria ter. Com cenas intensas e bem dirigidas, “A Identidade Bourne” (2002) embaçou a linha que separava ação e espionagem, com uma trama interessante permeada por perseguições e sucessivas cenas de luta.

 “Com medo? Deveria.”

A ótima acolhida de “A Identidade Bourne” teve um impacto imediato no gênero. Se os elementos fantásticos de outrora costumavam fascinar a audiência, a recepção morna para “007 – Um Novo Dia Para Morrer” no mesmo ano – com seus palácios de gelo, carros invisíveis e raios solares – demonstrou que o público do novo milênio buscava algo novo.

Os filmes de espionagem não tardaram para seguir a tendência com prazer. A franquia “Missão: Impossível“, já com potencial explosivo desde sua criação, se entrega à ação desenfreada em seu terceiro filme (2006) – tido por muitos fãs como o melhor da franquia. O longa é extremamente bem-sucedido em sua empreitada ao intercalar as sequências de espionagem – com sua tecnologia de ponta, comunicações criptografadas e ameaças globais – com cenas que beiravam o caótico – ou você se esqueceu da cena da ponte?

A tendência ao ridículo com a qual o gênero pode flertar saiu da esfera das armas fantasiosas para as explosões abusivas – e agora era daí que saía o humor ocasional. Olhemos, por exemplo, para “Sr. e Sra. Smith”, de 2005. Além de fundamentar talvez o casal mais querido de Hollywood, Brangelina deu vida a uma trama no qual marido e mulher eram agentes de organizações rivais que são contratados para matar um ao outro, mas que também se dedicam a piadas e trivialidades enquanto explodem suas cozinhas. Angelina Jolie repete a participação no gênero em “O Turista”, com Johnny Depp, de 2010, no qual Depp interpreta o clássico “homem errado” de Hitchcock – trope que alcançou seu ápice nas mãos do diretor no supracitado “Intriga Internacional”.

Também de 2010 é “Encontro Explosivo”, o qual trazia Tom Cruise e Cameron Diaz (‘Professora Sem Classe”) também como uma dupla acidental que se vê mergulhada em uma trama espiã carregada de ação e de humor. Falando nisso, Cameron Diaz também estava em “As Panteras”, um filme à frente do seu tempo (?) no que tangia à espionagem com comédia de qualidade discutível. Por falar em séries de espionagem adaptadas de maneira duvidosa, também é digno de nota o “Agente 86”, de 2008, com Steve Carell (“A Grande Aposta”). Embora bem inferior à série na qual foi inspirada, o filme traz para a atualidade elementos da década da espionagem dos anos 60, como telefones no sapato – “tecnologia” que é citada diretamente em uma cena de “Kingsman: Serviço Secreto”.

Nesta onda de reinvenção do subgênero, o próprio espião do vodca martini “batido, não mexido” teve que dar seus pulos – literais – para conseguir reconquistar a audiência dos anos 2000. Em 2006, chegava aos cinemas “007 – Cassino Royale”, no qual James Bond (Daniel Craig, “Cowboys & Aliens”) começa sem a licença para matar, muito mais chegado a corridas, socos e pontapés do que a um bom papo convincente, como fizera Sean Connery no início da franquia. Esta tendência se consolidou nos filmes seguintes com Craig, embora a maré pareça virar de volta para um Bond mais blasé, caminhando de volta ao estilo e elegância anteriores do personagem em ação, principalmente em “007 Contra Spectre” (2015).

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Esta volta à garba e pompa na franquia de James Bond não é um ponto fora da curva. Há uma retomada de temática e estilo dos filmes antigos de espionagem, mesmo que com um viés histórico ou certa ironia. O filme alemão “A Vida dos Outros”, de 2006, nos transporta de volta à Alemanha Oriental de 1984 para contar uma excelente história de um espião mal utilizado e um romance malfadado; sucesso em premiações, “Argo” (2012) nos lança um pouco antes, em 1979, para falar do resgate real de uma equipe de uma embaixada sob o pretexto da filmagem de um longa homônimo; o recente “Ponte de Espiões” (2015) vai em uma linha ainda mais clássica para o subgênero da espionagem, novamente nos colocando no espectro EUA-URSS, quando um advogado americano é posto como defensor de um suposto espião soviético.

Tão relevante quanto aqueles que procuram o caminho da história para revisitar os espiões são aqueles que buscam no charme uma posição segura para trabalhar seus personagens com mais liberdade. O carisma de “O Agente da U.N.C.L.E.”, por exemplo, não se deve tanto a Armie Hammer (“O Cavaleiro Solitário”) e Henry Cavill (“Batman vs Superman”) – ambos sendo mais bonitos do que simpáticos -, mas ao caráter saudosista que o filme emprega em suas cores vibrantes, sua música cadenciada e a dança de apetrechos tecnológicos, espionagem clássica e lutas pontuais.

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Ainda melhor sucedido nessa empreitada é “Kingsman”, que ganha continuação em “O Círculo Dourado”. Com um choque do clássico vs o moderno e as inúmeras referências em seu texto mostram que “Kingsman: Serviço Secreto” de fato não quer se levar (nem ser levado) a sério, mas quer buscar um entretenimento mais ingênuo, por mais violenta que esta ingenuidade se proponha a ser. Está tudo lá: o vilão grandiloquente, sua capanga exótica, um espião clássico – neste caso criando outro lorde a partir de um trombadinha -, tudo isso envolvido em uma missão para salvar o mundo de um plano maligno complexo demais. A autoconsciência de “Kingsman” é a cereja de seu bolo; em um momento específico de sua trama, o filme se dedica a explicar exatamente a que veio e seu papel como representante desta retomada da espionagem clássica enquanto gênero ciente de suas limitações.

-Você gosta de filmes de espionagem, Sr. DeVere?

-Hoje em dia eles são sérios demais para o meu gosto. Mas os antigos… Maravilhosos. Sempre aceito uma trama exagerada e teatral.

-Os filmes antigos do Bond. Ah, cara. Quando eu era criança, esse era meu emprego dos sonhos: um cavalheiro espião.

-Sempre achei que os filmes antigos do Bond só eram tão bons quanto seus vilões. Quando eu era criança, eu pensava num futuro como um megalomaníaco exagerado.

-Pena que tivemos que crescer.

É ou não é fantástico?

Assim, fechamos nossa trajetória, partindo de um panorama do que o gênero se propunha a fazer décadas atrás, passando por sua fase débonnaire, sua posterior sobriedade, decadência e retomada no nosso século XXI. Através de tantos anos, um elemento se manteve: a aura de segredo estabelecida ao longo dos e das agentes ocultas, em missões sinistras para seus governos, as quais ainda têm impacto no imaginário popular – em parte por seu elemento historicamente construído, e em parte por ser simplesmente cativante. Pelo charme, pela ação ou pelo descompromisso com a realidade, o elemento do mistério ainda permanece no entorno desses homens e mulheres com licença para matar (ou não). Seja como for, para sua segurança, melhor queimar este artigo depois de ler.

Erik Avilez
@erikville

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