Colunas   sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Trailers enigmáticos: filmes que ocultaram suas tramas até o último minuto

Entenda como estas produções levaram milhões de cinéfilos ao cinema sem revelar quase nada da história.

A noção de que trailers de cinema são nada mais do que uma prévia ou uma sinopse do filme a ser vendido não cabe mais no contexto cibernético em que vivemos. Hoje em dia, eles são quase um acontecimento à parte. Existem datas de lançamento para um trailer. Existem escolhas estratégicas para decidir onde ele será exibido pela primeira vez (como no intervalo do Super Bowl). E existe também uma repercussão avassaladora na Internet. Um trailer pode ser icônico, uma obra de arte ou pode ser didático e pouco ambicioso.

De modo geral, os trailers de Hollywood se habituaram a nos mostrar os momentos mais aguardados de um filme. Motivo pelo qual, inclusive, muitos cinéfilos têm escolhido abolir esta mídia de suas vidas, consumindo-a apenas quando inevitável. Por isso, acaba sendo uma agradável surpresa quando um trailer se dispõe a criar um conceito próprio e nos revela apenas o suficiente para que a curiosidade nos guie até a sala de cinema, como aconteceu recentemente com o trailer deMãe!, de Darren Aronofsky (“Cisne Negro“).

Pensando nisso, o Cinema Com Rapadura decidiu fazer uma lista de trailers que, assim como o do suspense estrelado por Jennifer Lawrence, fizeram mistério sobre a trama e escolheram diferentes recursos para gerar interesse pela obra que divulgavam.

“Mãe!”

Vamos começar por aquele que deu origem à coluna. A mais recente produção de Aronofsky permaneceu uma incógnita por muito tempo. Até um mês atrás, tudo o que sabíamos sobre o filme era o que dizia a nada esclarecedora sinopse oficial: “o terror ataca quando visitantes não convidados interrompem a existência tranquila de um casal”. O que o trailer nos mostra é quem são o casal, quem são os visitantes, e uma série de acontecimentos bizarros envolvendo sangue, uma foto de Javier Bardem (“Onde os Fracos não Têm Vez“) e uma bebida amarelo neon. Tudo isso embalado por notas cruas e assustadoras de violino.

Ao final do trailer, é certo dizer que: ainda não sabemos muito sobre a trama, a construção do suspense nos deixa inquieto do início ao fim e mal podemos esperar para entrar na sala de cinema, e apreciar seja-lá-o-que-isso-for em uma tela enorme. Os trailers de “Cisne Negro” e “Réquiem Para um Sonho” também são bons exemplos do tom sombrio e misterioso que Aronofsky adota no marketing de seus filmes. Confira o trailer de um dos filmes mais aguardados do ano:

“A Origem”

O filme de Christopher Nolan (“Dunkirk“) foi lançado em 2010, e até hoje é lembrado não apenas pelo mundo revolucionário dos sonhos que abrigou para a trama de Leonardo DiCaprio (“O Regresso“), mas também pelo trailer empolgante que deixou cinéfilos do mundo todo ansiosos para saber do que a trama se tratava. O trailer de “A Origem” tem tudo o que um bom trailer deve ter: efeitos sonoros impactantes, imagens de tirar o fôlego e o mais importante, deixa o público na expectativa do que vem a seguir. Tudo isso sem entregar momentos-chave da história.

A verdade é que, após assistir ao trailer de “A Origem“, a única coisa que realmente sabemos é que, na trama, o personagem de Leonardo DiCaprio consegue criar um mundo de sonhos a ser preenchido pelo subconsciente das pessoas, com o aparente intuito de roubar segredos. E, ainda assim, não sabemos exatamente o que isso significa. Não podemos esquecer também que este trailer causou um alvoroço tão grande que gerou uma verdadeira obsessão pelo uso do ‘BRRRRAAAM’ nos trailers de outros filmes que viriam a seguir. Embora muitos atribuam sua criação a Hans Zimmer, compositor recorrente nas produções de Nolan, foi o designer de som Mike Zarin o verdadeiro criador do ‘BRRRRAAAM’. Desde então, a famosa nota tem sido usada em praticamente todos os trailers de blockbusters americanos. Veja abaixo:

“Gravidade”

A premissa do trailer de “Gravidade” é simples, eficaz e genial. Ao invés de criar suspense por meio de um compilado de imagens do filme, a escolha aqui é de mostrar integralmente uma das primeiras e mais impactantes cenas do longa. O risco de uma decisão como esta é enorme e pouco convencional. Alguns espectadores poderiam argumentar que não viram o suficiente do filme no trailer para se interessarem ou que a trama permanece uma incógnita após a exibição de 1:35 minutos da produção. Por outro lado, é impossível não se perguntar o que acontece depois que Sandra Bullock (“Especialista em Crise“) se solta do braço da nave e sai vagando pelo espaço. E a qualidade técnica da cena é tão deslumbrante que você pode revê-la diversas vezes e desfrutar do espetáculo visual.

É claro que, hoje, depois de ver o filme completo, sabemos que a trama de “Gravidade” não é nada mirabolante, mas isso só reforça a inteligência da equipe de produção do trailer em apostar em uma única cena para vender o filme. Às vezes, menos realmente é mais.

“Mad Max: Estrada da Fúria”

Não basta ter um grande filme nas mãos se você não sabe como vendê-lo, e isso é algo que “Mad Max: Estrada da Fúria” parece compreender muito bem. O trailer nos apresenta de maneira brilhante ao universo desértico pós-apocalíptico de George Miller, mas, assim como nos exemplos citados acima, fala muito pouco da trama. Com apenas uma frase (“meu mundo é fogo e sangue”), antes mesmo da primeira imagem aparecer, o trailer já dita o tom da narrativa. E o que vem em seguida é nada menos do que uma aula de como se fazer uma boa divulgação.

Com um ritmo de tirar o fôlego, a prévia de “Mad Max” nos mostra os principais personagens da história (Max, Nux, Imperatriz Furiosa e Immortan Joe), sua imponente estética e cenas de ação tão bem orquestradas quanto uma sinfonia. Sem dúvida, merece o status que recebeu de ser um dos melhores trailers da última década.

“Star Wars: O Despertar da Força”

Como lidar com a responsabilidade de resumir em dois minutos a essência do filme mais aguardado do ano? Ainda mais sabendo que cada frame mostrado passará por uma análise minuciosa dos fãs da maior franquia cinematográfica de todos os tempos. O desafio era enorme, mas os idealizadores do trailer de “Star Wars: O Despertar da Força” deram conta do recado e fizeram jus à importância do filme. Não é novidade que tudo envolvendo a saga “Star Wars” é cercado de um grande mistério. Ninguém realmente sabe o que está acontecendo nas filmagens ou do que a história se trata até o filme ser lançado. Os segredos são tão bem guardados que, muitas vezes, nem os atores podem saber de todos os detalhes do projeto, para evitar o risco de vazamento de informações. Por isso, não é uma surpresa que a prévia do filme siga a mesma linha e revele pouco sobre a história.

Aqui, de maneira muito simples, conhecemos os novos heróis, o vilão (revelado em uma bela e icônica cena ao lado do capacete de Darth Vader destruído) e reencontramos de maneira nostálgica os já consagrados personagens que fizeram o sucesso da franquia de George Lucas, deixando Luke Skywalker intencionalmente de fora, o que funcionou tanto no marketing do “Episódio VII” quanto na própria trama, já que o paradeiro do personagem é o que move boa parte do suspense do longa.

“A Bruxa de Blair”

É fato que “A Bruxa de Blair” teve uma das melhores (se não a melhor) e mais bem sucedidas campanhas de marketing que um filme já viu na era da Internet. Seu trailer, de apenas 46 segundos de duração, é uma das maiores provas disso. Primeiro, porque inicia com um letreiro que nos induz a acreditar que os três estudantes de cinema eram pessoas reais que, de fato, desapareceram em uma floresta perto de Burkittsville, enquanto produziam um documentário sobre uma lenda maligna e sobrenatural. Segundo, porque faz parecer que a cena de Heather (uma das estudantes) chorando é parte de um conjunto de arquivos encontrados que revela as circunstâncias do sumiço do trio. Terceiro, porque deixou todo mundo, à época, se perguntando se a lenda era real, se realmente existia uma bruxa, gerando curiosidade o suficiente para levar milhões de pessoas no mundo todo ao cinema.

Tudo isso acabou se transformando na receita ideal para um grande sucesso cinematográfico. Os resultados expressivos de bilheteria atingiram a marca de U$ 250 milhões, sendo que seu orçamento foi de apenas U$ 60 mil. Confira:

“A Rede Social”

O brilhantismo de David Fincher (“Garota Exemplar“) por trás das câmeras é praticamente um consenso entre cinéfilos e especialistas. O diretor, inclusive, é conhecido por ser exaustivamente minucioso na hora de gravar as cenas. E ele não para por aí. Fincher faz questão de ser parte de todo o processo que envolve a construção de seus filmes. Da pré-produção à campanha de divulgação, o diretor sempre busca os melhores profissionais do ramo para atender o nível de sofisticação que busca tão incessantemente. E isso, claro, inclui os trailers.

Embora não trabalhe com o mesmo editor de trailers em todas as produções, Fincher sempre oferece uma consistente beleza autoral em seu material de divulgação, geralmente aliada a poucos detalhes sobre a trama e evitando as famosas frases de efeito. Com o trailer de “A Rede Social”, não é diferente. Além de inovar ao usar a música “Creep”, da banda Radiohead, em uma versão de coral, o trailer insere imagens que não fazem parte do filme para enaltecer a importância da criação do Facebook para o mundo e sugerindo que um filme sobre uma rede social, contrariando a expectativa de muitos, pode ser interessante.

“Cloverfield – Monstro”

Ok, aqui nós sabemos que um monstro gigante não invadiu Manhattan de verdade, mas a ideia é bem similar à do trailer de “A Bruxa de Blair”. Também no estilo found footage, o trailer de “Cloverfield – Monstro” abre mão dos tradicionais letreiros, narrações e trilha sonora para mostrar de forma crua a reação de um grupo de jovens a um atentado misterioso que parece aterrorizar Nova York. E assim como os personagens são deixados no escuro, nós também não recebemos nenhuma informação adicional sobre os acontecimentos da trama.

A pegada caseira parece ter agradado os fãs de cinema. “Cloverfield – Monstro” gerou uma receita acima de U$ 170 milhões ao redor do mundo.

Para você, que outros trailers fazem parte desta lista? Deixe sua opinião nos comentários!

Sarah Lyra
@sarahlyra

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